A lógica financista não tirará o país da crise

Germano Rigotto

Germano Rigotto

Especial para o UOL

Há sinais positivos, ainda que tímidos, em relação aos movimentos do governo interino na área econômica. De fato, o presidente Michel Temer blindou a equipe de pressões políticas e escolheu nomes técnicos, de reconhecida competência. Todavia, algumas visões parecem persistir. Não se pode imaginar que o Brasil voltará aos trilhos sem enfrentar a alta taxa de juros e o câmbio excessivamente valorizado. E, pelo que se viu até aqui, tais preocupações não estão entre as principais do Ministério da Fazenda e do Banco Central.

Esses dois fatos afetam diretamente a produção. E, quando um país não coloca em curso toda a sua capacidade produtiva, quaisquer medidas de estabilização ou crescimento tendem a ser insuficientes ou meramente temporárias. O reequilíbrio só se dará com o retorno da confiança e da força das empresas nacionais. Sem isso, não haverá retomada do crescimento, geração de emprego e aumento de arrecadação. Não se pode vislumbrar o mercado apenas por um prisma rentista, pois tal raciocínio beneficia apenas os setores financeiros, já bem fortalecidos nos últimos anos.

A nova onda de valorização do real frente ao dólar pode colocar em risco, ainda mais, a recuperação das exportações e, especialmente, da indústria. Desde o ano passado, o saldo da balança comercial estava positivo. Mas, com a valorização recente, a indústria já teme perder essa vantagem competitiva.

Se o Banco Central continuar utilizando a taxa de câmbio para conter o avanço da inflação, essa dimensão da crise se agravará. Isso porque se trata de um artifício que destrói a competitividade do país, o que se alia a outros fatores como a alta carga tributária, o custo do capital, a logística deficiente e os entraves burocráticos –o chamado Custo Brasil. Tal contexto praticamente exclui os produtos brasileiros do mercado internacional.

A situação da economia e do consumo também não justifica os juros estratosféricos que seguem em curso, sem previsão de baixa. No cheque especial e no cartão de crédito, por exemplo, chegaram a recordes mundiais, próximos de 500% ao ano no primeiro caso, e de 311% no segundo. O juro elevado está na raiz da atual recessão pela qual passa o país. Certamente não é o único motivo, vide o descontrole fiscal, mas sem dúvida um dos mais relevantes, pois afeita especialmente os mais pobres. Isso sem falar no prejuízo que causa ao próprio governo, que também tem corrigida sua dívida junto aos bancos.

Portanto, forçar a valorização do real e manter o juro elevado é um grande erro. Tudo isso, repito, agrava a recessão. O governo deve seguir fazendo o ajuste fiscal, equilibrando o orçamento, cortando despesas supérfluas e controlando gastos. Mas não pode voltar suas atenções apenas à lógica financista, tão bem cuidada pelos setores que historicamente lucram com ela.

A maior arma do país, em termos de desenvolvimento, é a nossa vocação produtiva. Enquanto quem trabalha e produz não estiver num ambiente apto para aumentar os resultados, menores serão as chances de superação desta ou de qualquer outra crise. Uma ação não inviabiliza a outra. E tudo começa por acertar nas políticas monetária e cambial.

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Germano Rigotto

é ex-governador do Rio Grande do Sul, diretor de ação política da Abimaq (associação de máquinas e equipamentos) e presidente do Instituto Reformar de Estudos Políticos e Tributários (www.germanorigotto.com.br)

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