Rigor dos testes de atletas faz aumentar escândalos de doping

Rogério Sampaio

Rogério Sampaio

Especial para o UOL

Para entender a importância do combate à dopagem (doping, na língua inglesa) é preciso primeiro considerar os prejuízos causados aos atletas que jogam limpo. Quem se dopa utiliza substâncias e métodos proibidos que constam na Lista da Wada-AMA (Agência Mundial Antidopagem). A dopagem melhora o desempenho físico e/ou psicológico dos atletas que participam de competições.

Para o atleta, o ato de subir ao pódio é sempre muito importante. É uma ocasião ímpar que faz com que toda a sua dedicação faça sentido. É uma emoção indescritível, principalmente quando ele ouve o hino de seu país, vê sua bandeira ser estendida e sabe que milhares de pessoas vão reconhecer o seu talento e passar a admirar o seu feito.

É para usufruir dessa comemoração e desse sentimento de orgulho e realização que o atleta se dedica diariamente a treinos extenuantes, segue uma dieta rigorosa e cumpre uma agenda que cerceia sua liberdade para se divertir e curtir muitos momentos na companhia de amigos e familiares. Não importa o nível de rendimento no qual ele está: a satisfação da vitória é sempre especial.

Quando um atleta que se dopou ganha uma competição, mesmo que o resultado seja descoberto no controle de dopagem –que acontece logo depois das provas mais importantes, na maioria das vezes–, a fraude só é provada quando a cerimônia de premiação já aconteceu. Mesmo devolvendo a medalha e outros prêmios, e que o atleta limpo seja declarado campeão, este "novo" vencedor não poderá mais voltar no tempo para subir no pódio e sentir aquela emoção. Maior ainda é o prejuízo quando a perda envolve o lugar mais alto do pódio ou quando se trata do quarto colocado, que assistiu de fora a entrega da premiação.

O justo é que todos possam disputar a prova em igualdade de condições, e não privilegiar o atleta que aceita caminhar por atalhos porque teve acesso a profissionais e substâncias de alto custo para ganhar de adversários que cumpriram as regras.

Com a profissionalização dos esportes, as vitórias passaram a representar consideráveis ganhos financeiros e fama. Envolve não apenas os atletas, mas vários outros profissionais, que podem ser treinadores, médicos, fisioterapeutas, nutricionistas e outros especialistas, que também dependem dos resultados de seus clientes para valorizar seu trabalho junto a outros atletas dispostos a participar de fraudes.

É uma questão de justo ou injusto, de certo ou errado. Ou seja, é uma questão de ética no esporte. Dopagem existe desde que os homens começaram a disputar competições. Se atualmente estamos vivendo uma época onde muitos escândalos de dopagem estão sendo revelados, é porque as organizações antidopagem de todo o mundo estão aumentando a quantidade de atletas testados, assim como a quantidade de testes realizados em cada atleta.

Casos emblemáticos –como o do velocista Ben Johnson, em 1988, na Olimpíada de Seul, do ciclista Lance Armstrong, sete vezes campeão do Tour de France, e, mais recentemente, da equipe de atletismo russa– mostram o tamanho das estruturas que envolvem a dopagem e estimulam jornalistas a investigarem possíveis esquemas de tráfico de substâncias, de equipamentos e toda a logística que pode estar sendo utilizada.

A Wada-AMA e as diversas organizações antidopagem estão desenvolvendo uma rede de troca de informações para identificar atletas e demais profissionais envolvidos no doping, e vêm estimulando as pessoas pegas em exames com resultados adversos a denunciarem esquemas e demais participantes em troca da redução das sanções a que estão sujeitas. Isso tem ajudado no combate dos casos adversos.

Para prevenir também é preciso educar e conscientizar tanto os atletas que já estão competindo como toda a sociedade, em especial as crianças, a respeito das consequências nefastas que o uso de dopagem provoca na vida de tantas pessoas. Para isso, a ABCD (Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem) vem desenvolvendo materiais educativos que pretendemos utilizar junto a diferentes públicos, como familiares dos atletas, treinadores, estudantes, médicos e todos os demais interessados.

Outro aspecto fundamental do combate à dopagem é o mal que algumas substâncias causam à saúde, provocando efeitos colaterais que trazem consequências irreversíveis e que podem até mesmo levar à morte. O uso de anabolizantes por frequentadores de academias é bastante preocupante e a ABCD pretende fazer um forte trabalho de alerta e conscientização.

Quemquiser conferir se um medicamento ou seu princípio ativo possui, em sua composição, alguma das substâncias que constam da Lista de Substâncias e Métodos Proibidos da Wada-AMA, basta entrar no site www.abcd.gov.br e procurar pelo "Consulte a Lista".

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Rogério Sampaio

é secretário da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem

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