Para ter um aumento salarial em tempos de crise fuja do 'mimimi'

Simone Simon

Simone Simon

Especial para o UOL

Vou logo desmitificar algo sobre pedir aumento salarial: a questão não é um "bicho de sete cabeças", é muito mais inofensivo que parece. Muitas pessoas têm calafrios quando pensam na possibilidade e, por medo e insegurança, tornam remota a chance de ganhar mais. A escolha de se contentar com pouco, neste caso, é mais atrativa. Por outro lado, há aqueles que são corajosos, não têm dificuldade alguma de exercer o diálogo em assuntos delicados, porém a conquista vai muito além da desenvoltura para falar o que pensa para o chefe.

Antes de qualquer coisa, a negociação salarial precisa começar em você. Como dizia Henry Ford: "Estar decidido, acima de qualquer coisa, é o segredo do êxito". Para isso, é preciso analisar os pontos positivos e negativos da trajetória dentro da empresa, repensar com calma onde deseja chegar (estabeleça seus interesses) e o que precisa realizar para ir até lá. Com isso, você determina aquilo que é relativamente exclusivo a si mesmo, antes de se expor com o chefe. É importante entender que quem se baseia em "achismos" está brincando em plena decolagem, pois só com certezas e argumentos bem fundamentados é possível alçar voos maiores, e convencer outros que você entende bem sobre alinhar a "telemetria" da carreira de acordo com os objetivos do empregador.

Além do medo, um dos fantasmas que perturba essa questão é a atual crise, mas é necessário observar em que lado econômico está a empresa, por que para quem chora sempre terá um fornecedor de lenços em alta faturando muito –ou seja, as rotas do cifrão estão com alguém, mesmo em tempos complexos da economia.  Aí que entra os primeiros indícios da negociação relacional, quando, por meio da empatia, você consegue ter a capacidade de ver a situação de maneira ampla e estratégica para posteriormente agir.

Algumas pessoas me perguntam como negociar um aumento se não tiver uma boa relação com o chefe. Em qualquer empresa, indiferente do segmento, você é avaliado de acordo com suas competências técnicas e, também, comportamentais. Normalmente, é contratado pela habilidade técnica e demitido pelo seu comportamento. Não significa que tenha que ser amigo do chefe para pedir aumento, mas você deve construir, ao longo da sua trajetória, comportamentos que abram as portas, não que as fechem. Estar presente, colaborar, fazer além das suas atividades, ser educado e respeitoso, serve para qualquer pessoa, em qualquer lugar, e ajuda, com certeza, na hora de ter que pedir algo.

Você tem total direito de pedir aumento. Aliás, é muito importante o pedido, pois nem mesmo os MBAs ensinam chefes a lerem as mentes dos colaboradores. Mas há outro ponto estratégico que vai levá-lo, gradativamente, aos objetivos dentro da empresa. E não estou falando da relação ganha-ganha, muito conhecida e que nem sempre é bem-sucedida na mesma proporção para um dos lados.

Indo um pouco mais além nessa filosofia, te desafio a pensar na negociação "cede-cede". É necessário ceder, se doar pela empresa, pela equipe de trabalho, repensar os padrões de execução e fazer melhor do que já tem feito, ser um bom ouvinte e saber absorver antes de querer que outros comprem a sua ideia.

A partir desse entendimento diário, as consequências serão concretas e os laços de relacionamento com o chefe serão elevados em níveis de confiança. Com isso, o resultado será fugir da estatística apontada pelo site americano "Salary.com", que conclui que um profissional que não negocia seu salário pode deixar de ganhar US$ 1 milhão ao longo de 45 anos de carreira. Não se trata de uma queda de braço. Mesmo em tempos de crise, ceda para ganhar.

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Simone Simon

é palestrante, escritora e especialista em temas de negociação e resolução de conflitos pela Universidade de Harvard

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