Brasil busca seu retorno ao mundo através do comércio

Menotti Franceschini

Menotti Franceschini

Especial para o UOL

O Brasil é um país com um potencial econômico fantástico e isso não chega a ser uma novidade para ninguém. Porém, mesmo estando entre as 10 maiores economias do planeta, ainda terá de conviver com o clichê de que é um país do futuro. Seu mais recente ciclo de expansão e recessão contribui para que essa narrativa seja verdade. Mas talvez o futuro do Brasil esteja um tanto distante.

Em 2011, o país caminhava para a sua independência econômica. Esbanjando recursos naturais e apoiado por sua população, o Brasil se dispôs até mesmo em sediar dois dos principais eventos do mundo: A Copa de 2014 e Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016. A nação despontava como o maior caso de sucesso da América Latina, crescendo nesse período o que não tinha crescido nos últimos 50 anos. Tínhamos absoluto domínio da inflação e do progresso no campo social, um exemplo para o mundo.

No entanto, cinco anos depois, convivemos com uma das piores recessões e com uma possibilidade de fechar 2016 com quase 10% (no acumulado dos últimos três anos) de queda no crescimento. Neste momento, o mundo inteiro se pergunta o que aconteceu com o país que parecia imbatível. Como o Brasil voltará a rota de crescimento?

E a questão é quase impossível de ser respondida. Para condimentar ainda mais esse cenário, o país passa por um desafio político sem precedentes. Fato que não justifica por inteiro as dificuldades econômicas atuais.

O Brasil ainda vivia seu auge quando estreitou relações com a China, que, por sua vez, veio a se tornar o nosso principal comprador de minério de ferro, petróleo, soja e carne bovina. O comércio do Brasil com a China saltou de US$ 2 bilhões, em 2000, para US$ 83 bilhões, em 2013. O principal país da América do Sul naquele momento jamais tinha visto tanto dinheiro estrangeiro entrar nos cofres, tanto que o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) chegou a acumular uma carteira de crédito maior do que a do Banco Mundial.

Mas quem assistiu ao colapso imobiliário dos EUA, em 2007, sabe que qualquer motivo pode fazer com que os que os preços se alterem de uma hora para outra. O apetite minguante da China por commodities empurrou os preços para baixo e o nosso país acabou produzindo menos óleo do que se esperava. Além disso, o otimismo levou a política externa a ser questionável. O Brasil bloqueou uma iniciativa liderada pelos EUA para abrir ainda mais o mercado nas Américas e se uniu à Venezuela para diminuir a influência dos Estados Unidos na região. Essa medida fez com que o Chile, Colômbia e Peru negociassem acordos comerciais individuais com os Estados Unidos. O Brasil ficou de fora.

Mas já passamos por situações difíceis antes. O crescimento espetacular do país nos anos 1960 e início dos anos 1970 foi seguido pela crise da dívida de 1980. A questão agora é: o que pode ser feito para virar essa página, e qual caminho o Brasil vai seguir?

Considerando sua população, área e PIB, a participação do Brasil no comércio exterior é inexpressiva. As exportações representam menos de 12% do PIB, e sua participação nas exportações mundiais é de apenas 1%. A alta relação comercial com a China e o fato de que o Brasil se transformou em uma ponte para outros países investirem na economia chinesa obstruíram o nosso país a tirar proveito de seu verdadeiro potencial comercial.

Consequentemente, o Plano Nacional de Exportação do Brasil tem o objetivo de tornar mais fácil para os importadores e exportadores realizarem negócios através do Brasil. Essa medida tem tido um grande impacto sobre as empresas estrangeiras que querem bater a capacidade de produção e mercados de consumo no Brasil. Isso deve ajudar em sua recuperação.

Além disso, nós ainda não temos um acordo abrangente com os Estados Unidos em qualquer área de importância estratégica comum, incluindo o comércio. Apesar de ter diversos acordos com os mercados emergentes, os Estados Unidos ainda têm de encontrar um com o Brasil. A relação EUA-Brasil pode fazer com que o nosso país tenha maior atuação no comércio exterior.

E a tecnologia também pode contribuir para esse resgate. E para explorar a capacidades do país, é praticamente um pré-requisito saber lidar com sua carga tributária altamente complexa. No entanto, o novo regime especial, o Recof Sped, que sustenta o Plano Nacional de Exportações do Brasil, pode facilitar a chegada de novos investimentos e neutralizar essa complexidade ao permitir que as empresas usufruam plenamente de sua capacidade de abastecimento, fabricação, reexportação e logística.

Se seguir com o Plano Nacional de Exportação, melhorar a relação comercial com os Estados Unidos, além de fortalecer o compliance (práticas de boa governança) em suas fronteiras, o Brasil pode, de fato, transformar seu potencial em uma economia sólida e sustentável.

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Menotti Franceschini

é diretor da área de negócios de Comércio Exterior da Thomson Reuters no Brasil

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