Rico em recursos naturais, Brasil subaproveita indústria florestal

Kim Cartensen

Kim Cartensen

Especial para o UOL

O Brasil tem um enorme e instigante desafio pela frente, que é o de se tornar líder mundial no tipo de produção que une biodiversidade com o desenvolvimento econômico e social. Cuidar do nosso planeta –o que é um aspecto crucial enquanto se gera riqueza e se proporciona às comunidades um futuro sustentável– é parte da equação.

Uma equação que há mais de duas décadas o FSC (Forest Stewardship Council) trabalha para aperfeiçoar. E como os consumidores exigem cada vez mais produtos de origem responsável, as empresas brasileiras têm uma oportunidade única para ganhar certa vantagem competitiva em biodiversidade global.

Recentemente, participei de um evento sobre florestas, biodiversidade e mercados organizado no Rio de Janeiro pela Confederação Nacional da Indústria. Lá, nos envolvemos em um interessante debate sobre a importância da biodiversidade em todas as áreas de geração de riqueza e sobre como as forças produtivas do país, a exemplo da indústria florestal, podem se beneficiar ao olhar para o futuro e se adaptar a uma sociedade em mutação.

O Brasil é um país riquíssimo em recursos naturais e sua indústria florestal pode tirar proveito disso. Quase 60% do território nacional está coberto de florestas, e esta indústria gera mais de 610 mil empregos diretos. Se somarmos também com os empregos indiretos, o montante sobe para impressionantes 4,2 milhões de postos de trabalho. Com tais estatísticas, seu peso e sua relevância ficam evidentes.

No entanto, apesar da importância do setor florestal brasileiro, sua representatividade internacional ainda é pequena. De acordo com estatísticas da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), o mercado mundial de produtos florestais totalizou U$ 230 bilhões em 2015, mas o Brasil contribuiu com apenas 3% desse montante.

No Rio, foi interessante constatar que os líderes empresariais brasileiros já percebem a ligação entre biodiversidade e desenvolvimento econômico. Para 82% deles, uma redução da biodiversidade afetaria a capacidade das empresas de crescer. Além disso, 84% dos mesmos líderes acreditam que o país não está se beneficiando do potencial que a biodiversidade representa para a economia nacional. Isso sinaliza que ainda há muitas oportunidades para um país como o Brasil. Porém, o que pode ser feito?

Primeiro, os governantes devem criar incentivos significativos para apoiarem e promoverem a biodiversidade. Além disso, medidas regulamentares adequadas precisam ser asseguradas a fim de proporcionarem um quadro normativo para a economia crescer em paralelo com uma gestão sustentável. Esta última, portanto, deve andar de mãos dadas com políticas públicas expressivas.

Além disso, as empresas precisam encarar a biodiversidade como uma forma de gerar valor agregado em toda a sua cadeia de produção, promovendo fortes práticas de gestão sustentável, diversificando os ativos e aumentando o seu acesso ao mercado global por meio de certificações que garantem a rastreabilidade e o manejo florestal sustentável. Eles têm de entender que a perda da biodiversidade é também uma perda de riqueza e de desenvolvimento, algo que o Brasil não pode prescindir.

Contudo, a biodiversidade não pode crescer sem um conjunto claro de padrões que garantam que práticas sustentáveis estejam sendo implementadas corretamente. No setor florestal, por exemplo, o FSC define um conjunto claro de regras que orientam uma gestão sustentável desses recursos. O equilíbrio entre práticas ambientais sustentáveis, políticas sociais –como o reconhecimento de direitos do trabalho ou o respeito aos meios de subsistência dos povos indígenas– e oportunidades de crescimento para o setor econômico é fundamental para o desenvolvimento de uma indústria sustentável da biodiversidade.

O manejo florestal certificado pelo FSC exige a proteção dos serviços ecossistêmicos e, em breve, incluirá novas ferramentas que mostram às empresas, aos investidores e aos governos o impacto positivo que suas compras, pagamentos e investimentos sustentáveis têm no ecossistema e na preservação dos recursos naturais. O pagamento por serviços ambientais, inclusive, é um excelente modelo de incentivo alternativo que traz benefícios econômicos em curto prazo e freia a degradação florestal.

O Brasil encontra-se numa importante encruzilhada em que, dependendo do caminho escolhido, pode mostrar ao mundo como um país é capaz de desenvolver políticas econômicas coerentes e que protegem a biodiversidade ao mesmo tempo que garantem um desenvolvimento sustentável usando seus recursos naturais. Porém, é preciso fazer isso de uma forma conciliatória e coesa, baseada em pesquisa. Do contrário, perderá o bonde e uma oportunidade histórica.

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Kim Cartensen

é diretor geral do FSC (Forest Stewardship Council) e sociólogo

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