Feridas que a escravidão deixou como legado ainda estão abertas

Maurício Pestana

Maurício Pestana

Especial para o UOL
  • Diego Mendes/BOL

O dia 20 de novembro de 2016, Dia da Consciência Negra, em especial, será uma data para muitas reflexões. No momento em que observamos o aumento da escalada conservadora no Brasil e no mundo, marcada pela eleição de Donald Trump, ganham força por aqui aquelas indagações costumeiras, típicas de um período como esse: por que comemorar a consciência negra, e não a branca ou a humana?

Então, para começarmos a responder à pergunta, novamente recorremos aos dados oficiais divulgados por instituições como IBGE, Ipea, Anistia Internacional e a própria Secretaria de Segurança Pública: os negros são 76% dos mais pobres, o que significa dizer que 3 em cada 4 pessoas que estão no grupo dos 10% mais pobres são negras. Esta população possui renda média 2,5 vezes menor que a população branca e soma mais de 60% da população penitenciária. Os jovens negros brasileiros são 77% das pessoas assassinadas todo ano neste país –isto é, um jovem negro é morto a cada 23 minutos.  Apenas alguns recortes do cenário atual justificaria a existência de um dia da consciência.

Os 128 anos que separam esta realidade da libertação dos escravizados no último país do continente a tomar tal medida –e também o território que recebeu o maior contingente de africanos para mover sua economia durante 380 anos– não foi o bastante para curar as terríveis feridas, ainda escancaradas, que as escravidão nos deixou como legado. Também por isso, há de se ter um dia da consciência negra.

Enquanto formos os cidadãos mais afetados pelas desigualdades do Brasil, exatamente por conta de seu passado escravocrata, precisaremos de um dia para lembrar também que a escravidão acabou há mais de 100 anos.  Está mais do que na hora da sociedade brasileira não só pensar no ressarcimento dessa dívida histórica impagável, mas ter a consciência da importância das políticas públicas compensatórias e de integração das vítimas desse processo histórico recente.

São Paulo é a cidade mais negra do Brasil. Segundo dados do IBGE, mais de 4 milhões de pessoas se autodeclaram negra. Também foi este município que apresentou e colocou em prática as propostas mais avançadas na questões étnicas e raciais do país, tendo sido modelo para a esfera federal nos últimos anos. A Lei de Cotas no município, que determina que desde cargos de estagiário até cargos de secretários sejam ocupados por 20% de afrodescendentes, tem mudado o perfil do funcionalismo público municipal. Esse diálogo tem se estendido para o setor privado de forma pioneira na América Latina, o que colocou a nossa cidade como referência para o Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Neste domingo, São Paulo dará mais um passo para se reafirmar como a capital de diversidade do país e mostrar que diversidade também se faz com o resgate histórico da trajetória dos personagens que marcaram suas passagens no Brasil lutando por igualdade. Justamente em frente ao edifício da Bolsa de Valores no Centro da cidade será erguido um monumento em memória de Zumbi dos Palmares.

A cidade era a última das grandes capitais brasileiras a não ter nenhum monumento a esse mártir negro que começa a ser reconhecido por universidades americanas como o primeiro herói negro das Américas. É a mesma São Paulo que tanto se orgulha dos seus Bandeirantes  –um deles merecedor de um enorme monumento na avenida Santo Amaro, o Borba Gato–, personagens que a história tem tratado de resignificar, pois muitos deles dizimaram nações indígenas inteiras.

Esta homenagem paulistana a Zumbi dos Palmares no Dia da Consciência Negra é um momento para refletirmos em meio a tanto retrocesso que estamos vendo nas conquistas coletivas, as quais resultaram em mudanças significativas na forma como a humanidade tem se posicionado diante da diversidade. 

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Maurício Pestana

é secretário de Promoção da Igualdade Racial de São Paulo, jornalista e publicitário

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