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Opinião: Primária de Nova York fortalece eleição via correio em 3/11

Eleitores aguardam para votar em primárias presidenciais em Milwaukee, Wisconsin (EUA) - DANIEL ACKER
Eleitores aguardam para votar em primárias presidenciais em Milwaukee, Wisconsin (EUA) Imagem: DANIEL ACKER
Kennedy Alencar

Kennedy Alencar

Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na Folha de S.Paulo, onde foi redator, repórter, editor da coluna "Painel' e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro "Kosovo, a Guerra dos Covardes" (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas "É Notícia' e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário "What Happened to Brazil", realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada "Brasil em Transe", o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

24/06/2020 09h30

Pela primeira vez na história do Estado de Nova York, a maioria dos votos numa primária deverá ocorrer por meio do correio. As autoridades eleitorais esperam que até 70% dos eleitores tenham votado assim nesta terça-feira a fim de evitar os riscos da pandemia de coronavírus.

Se confirmado, o exemplo do Estado de Nova York fortalecerá o argumento para usar o voto pelo correio em larga escala nas eleições de 3 de novembro.

A primária de Nova York terá seus resultados conhecidos até o fim do mês, prazo final para contabilizar os votos encaminhados pelo serviço postal. A informação oficial dá conta de pelo menos 750 mil cédulas solicitadas via correio apenas na cidade de Nova York.

Também foi permitido o comparecimento antecipado do eleitor às urnas para evitar filas com longa espera. Desde 13 de junho, alguns postos de votação estavam abertos para quem quisesse fazer as suas escolhas para presidente e assentos no Congresso antes desta terça, 23 de junho, dia oficial da primária.

Apesar de problemas pontuais, como falta de cédulas para votar via correio e algumas seções fechadas em cima da hora, o Estado de Nova York provou ser possível realizar eleições sem a necessidade de comparecer às urnas.

Não houve o desastre logístico visto na primária de 9 de junho no Estado da Geórgia, com filas lotadas e espera por horas nas seções eleitorais. No meio de uma pandemia, Nova York mostrou que votar via correio é seguro do ponto de vista sanitário e eleitoral.

O presidente Donald Trump tem feito campanha contra o voto pelo correio. Nesta terça, em comício em Phoenix, no Arizona, ele voltou à carga contra esse tipo de voto: "Essa será, na minha opinião, a mais corrupta eleição na história de nosso país, e nós não podemos deixar isso acontecer".

Segundo Trump, os democratas estariam tirando proveito do coronavírus para forçar os Estados a estimular um tipo de votação que seria prejudicial aos republicanos por permitir trapaças favoráveis aos democratas. Mas o histórico do voto pelo correio nos Estados Unidos mostra que fraudes foram localizadas e desprezíveis para o resultado final.

No fundo, Trump e republicanos têm medo de que o voto via correio beneficie mesmo os democratas. Segundo Andrew Cuomo, democrata que governa Nova York, Trump fala em fraude porque já busca uma eventual justificativa para o seu fracasso nas urnas em 3 de novembro

Boa parte do Partido Republicano apoia a tese do presidente e tem feito lobby para que governadores republicanos não estimulem esse tipo de votação. Os Estados têm poder para legislar sobre a organização das eleições.

O eleitorado republicano seria mais velho, mais rural e menos acostumado ao ambiente virtual do que os apoiadores do Partido Democrata. Avalia-se que uma votação maciça no país via serviço postal levaria mais eleitores democratas do que republicanos a participar do pleito.

Nos EUA, o voto não é obrigatório. Para vencer, é fundamental mobilizar a sua base de eleitores a comparecer às urnas. Nesse contexto, o voto por correio poderia, sim, levar a uma maior participação dos eleitores democratas na comparação com os republicanos

Antes da pandemia de coronavírus, o voto pelo correio era procurado por quem estava fora do seu domicílio eleitoral ou tinha dificuldade de mobilidade, por exemplo. Com a covid-19, pessoas que votam em suas cidades puderam se registrar para usar o correio devido ao risco da pandemia. Muitos Estados passaram a permitir com mais facilidade que o eleitor receba a cédula em casa e a devolva após suas escolhas.

Com a possibilidade de maior comparecimento de eleitores jovens, mais treinados no ambiente virtual para se registrar e votar via correio, haveria um benefício indireto aos democratas. Os protestos têm mostrado que a massa de jovens nas ruas se opõe a Trump.

Nos últimos anos, seções eleitorais em bairros negros e pobres foram fechadas, tornando mais difícil que essas pessoas votem numa data em que não é feriado nos EUA, mas um dia de trabalho normal.

É óbvio que esses dois fatores, o fechamento de seções e a necessidade de ganhar a vida, desestimulam o voto dos negros e mais pobres. A votação pelo correio poderia ser mais conveniente a esses segmentos do eleitorado _hoje inclinados a optar pelo democrata Joe Biden, como mostram as pesquisas mais recentes.

No país, tem avançado a percepção de que a votação pelo correio pode ser um expediente de uso maciço para realizar o pleito de 3 de novembro, quando haverá eleições para presidente, deputados, um terço dos senadores e alguns governos estaduais.

Em East Hampton, cidade no litoral de Nova York, não houve filas para votar apesar da redução do número de seções eleitorais. No posto do Corpo de Bombeiros de Amagansett, a aposentada Susan Cook votou em cinco minutos.

Susan disse que Trump "é um mentiroso" que se comporta de modo irresponsável ao sugerir com seu comportamento público que a pandemia deixou de ser um problema. Ela afirmou se sentir segura para votar pessoalmente porque os números de casos e mortes da covid-19 despencaram no Estado de Nova York, mas disse que novos surtos pelo país a preocupam. Ela afirmou que, se a pandemia voltar a piorar em Nova York, ela deverá pedir para votar pelo correio.

O designer gráfico Patrick MacDowell, que também votou pessoalmente em East Hampton por morar ao lado da seção eleitoral, balançou a cabeça negativamente por segundos até dizer que Trump é "terrível" na resposta à pandemia. Patrick afirmou que o presidente "é racista" e colherá resultado negativo nas urnas por ter reprimido os protestos e chamado manifestantes de arruaceiros e terroristas. "Ele é um racista."

As condições políticas para uma derrota de Trump parecem que estão sendo criadas. Por isso, o presidente fala em fraude via correio, recorre à xenofobia, nega a ciência e abusa de fake news.

Depois de ter amenizado o estilo agressivo desde quando admitiu a gravidade do coronavírus em março até a reabertura da economia em maio, Trump reassumiu o figurino de líder irresponsável que não sua máscara em público, critica a realização de testes de coronavírus e faz comício em plena pandemia, contrariando as recomendações sanitárias do seu próprio governo e expondo os apoiadores e até ele mesmo a risco.

No ato eleitoral desta terça em Phoenix, no Arizona, o presidente voltou a chamar o coronavírus de "Kung Flu", como fez no sábado em Tulsa, Oklahoma. É racista usar a expressão "Kung Flu (Kung Gripe)", uma alusão a "Kung Fu", a arte marcial chinesa. Trump age assim para tentar se vender como um líder "durão" em relação à China no ano eleitoral.

Esse estilo populista com cores fascistas deu certo em 2016. No entanto, para além das pesquisas favoráveis a Biden, os recentes sinais de desespero presidencial sugerem que Trump está inseguro em relação à repetição do êxito surpreendente de quatro anos atrás.