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Ex-procurador da Lava Jato: "Proponho uma revolta da vacina"

Médica participa de testes de vacina contra covid na Rússia - Tatyana Makeyeva/Reuters
Médica participa de testes de vacina contra covid na Rússia Imagem: Tatyana Makeyeva/Reuters

Carlos Fernando dos Santos*

Especial para o UOL

07/12/2020 04h00

Proponho uma revolta da vacina, mas não como aquela que Osvaldo Cruz enfrentou contra ignorantes e preconceituosos no começo do século 20 — apesar de ainda vermos a mesma ignorância e preconceito em pleno 2020. Falo de uma revolta popular "pela" vacina, pela responsabilidade, por testagens e por medidas profiláticas que nos tirem desse lodaçal em que o combate mal administrado da pandemia por um governo obscurantista nos meteu.

Vamos nos revoltar. Se não for contra a corrupção desenfreada que a Operação Lava Jato revelou, e que continua com os mesmos partidos no poder, que seja contra a incapacidade de Jair Bolsonaro de enfrentar com dignidade o fato de que sempre esteve errado em relação à covid-19. Não se trata de uma gripezinha, e mesmo com todas as dificuldades que a pandemia impõe, cabe a ele como governante eleito enfrentar a adversidade. Lavar as mãos como Pilatos não é uma opção.

Se a corrupção mata, ela mata silenciosamente nos serviços públicos precários que deveriam atender a população. Mas o coronavírus não mata silenciosamente, ele grita todos os dias para milhares de familiares de pessoas mortas. Todos nós conhecemos alguém que já morreu por complicações dessa doença. Caminhamos celeremente para 200 mil mortos e até mesmo o que sempre funcionou a contento e com dignidade, o serviço público e universal de vacinação, vem sendo paulatinamente destruído.

A colocação de dúvidas quanto às vacinas, a insistência na defesa de inócuos remédios para vermes e a ausência de um plano detalhado, competente e proativo para a compra e distribuição dessas vacinas estão colocando a vida dos brasileiros em perigo por mais um ano.

Precisamos escapar dessa indiferença e anemia moral. Diversos países do mundo começam neste mês a vacinar sua população. Reino Unido, Estados Unidos, boa parte da Europa, Rússia e China largam novamente na frente na corrida por livrarem seus países dessa crise. Trump e Putin, investiram pesado para que seus países tivessem acesso a vacinas. Putin e Xi Jinping, inclusive, nem mesmo esperaram o necessário término dos estudos para começar a vacinar as populações russa e chinesa, o que somente mostra que há irresponsabilidade em sentido oposto à falta de responsabilidade de Bolsonaro.

Máscara cobre os olhos de Bolsonaro em coletiva sobre coronavírus - Reprodução - Reprodução
Máscara cobre os olhos de Bolsonaro em coletiva sobre coronavírus
Imagem: Reprodução

Temos que nos revoltar por não termos tido a sensatez de buscar alternativas diversas para o fornecimento de vacinas. Não que tenhamos todos de ser vacinados num primeiro momento. É claro que profissionais de saúde, idosos, presos, pessoas com comorbidade e professores devem estar entre os primeiros. Mas queremos a vacinação o mais rápido possível e com todas as opções tecnicamente viáveis. T

enho certeza que uma dose de vacina custa menos que meio auxílio emergencial. Repetir o desastre econômico deste ano não é uma opção.

Não é mais possível admitir sem aversão e nojo as manifestações desse governo. A fala de Pazuello sobre a "prova" de que as aglomerações da campanha eleitoral não causaram aumento dos casos de covid-19 só pode ser entendida como mais um lamber das botas de Bolsonaro e de políticos irresponsáveis.

Pazuello não somente se mostrou inconsequente, como também demonstra não ter capacidade para o cargo que ocupa. Aliás, nem sequer serve para a logística de um batalhão, pois certamente iriam descobrir no meio de uma guerra que ele deixou a munição vencer.

Temos que voltar a nos manifestar. Vamos bater panelas, vamos buzinar, vamos gritar que queremos nossos idosos vacinados. Que desejamos que as aulas recomecem com professores e servidores vacinados. Que esperamos que pessoas com comorbidade tenham condições de lutar por suas vidas sem se preocuparem com mais uma ameaça. Que os presos sejam tratados com dignidade e, mesmo que obrigados a conviver em condições de restrição de liberdade insalubres, sejam vacinados. Que todos os que desejam tomar uma vacina, enfim, tenham condições de serem vacinados ainda em 2021.

Mas isso tem que começar logo. Cada dia, cada semana que se deixa correr por questões burocráticas e políticas são milhares de vidas perdidas. Contamos o tempo não por horas, mas por brasileiros mortos. A vacinação é emergência nacional. Deixem que Bolsonaro fique falando com sua bolha de malucos; deixem que Rodrigo Maia, Arthur Lira e Alcolumbre paralisem o Congresso Nacional. Deixem o centrão tomar conta de todo o dinheiro público.

Nenhum deles está preocupado com você e sua família, mas somente com o poder, em como mantê-lo ou aumentá-lo. Mas revolte-se para ter sua vida e a dos seus resgatada.

Precisamos voltar a trabalhar, estudar e conviver e a única forma é a vacinação imediata e para a maior quantidade possível de brasileiros. Revoltemo-nos para que isso aconteça. Depois cuidaremos deles.

*Carlos Fernando dos Santos Lima é advogado especialista em compliance e procurador da República aposentado. Integrou a força-tarefa da Lava Jato em Curitiba entre 2014 e 2018.