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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O fracasso da soberba

12.set.2021 - Ato contra Bolsonaro em Brasília; em todo o país, protestos foram esvaziados - Eduardo Militão/UOL
12.set.2021 - Ato contra Bolsonaro em Brasília; em todo o país, protestos foram esvaziados Imagem: Eduardo Militão/UOL
José Luiz Portella

José Luiz Portella

É pós-doutorando em sociologia e doutor em ciências (área história econômica) pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas na USP. Engenheiro civil especializado em gestão, orçamento e planejamento urbano, ocupou cargos públicos nos governos federal, estadual e municipal. Pesquisa medição do impacto das políticas públicas

Especial para o UOL

15/09/2021 04h00

Foi um fracasso retumbante. Não é possível tapar o sol com a peneira, sobretudo no que houve domingo (12).

O ato serviu para reforçar a impressão, não totalmente correta, de que só Lula (PT) e aliados ou Jair Bolsonaro (sem partido) e equipe conseguem mobilizar grande número de pessoas. A mídia em grande parte amenizou.

O MBL (Movimento Brasil Livre) acreditou em duas premissas furadas:

  • Que as redes sociais são suficientes para mobilizar, para qualquer protagonista ativo, sem trabalho de base;
  • Que ele possuía capacidade de arregimentação grande por conta de atos passados, onde pegou carona.

O MBL não é um movimento desmiolado como muitos que vigoram hoje —o grupo conseguiu eleger representantes, e tem uma figura, Kim Kataguiri (DEM-SP), que possui certo preparo e discernimento. Por que, então, cometeu um equívoco que prejudica o próprio objetivo maior, que é derrubar Bolsonaro?

Nisto, não foram pioneiros na história. No Brasil, há inúmeros exemplos de ações de determinados grupos que se voltaram contra as metas pretendidas, como no Plano Trienal, elaborado por Celso Furtado para o governo de João Goulart, trabalhado por ele e San Tiago Dantas.

A ação ambígua e desconectada de Jango terminou por destruir o plano, que era exatamente para proporcionar o desenvolvimento econômico que Jango precisava para se estabilizar, e derrubou os dois maiores "pais do plano", Furtado e San Tiago, tendo efeito inverso.

Em um caso bem pior, a esquerda brasileira dividida e superconfiante, sobretudo a chamada esquerda jacobina, que tinha o Comando Geral dos Trabalhadores e o PUA (Pacto de Unidade e Ação), que eram mais eficientes no papel do que na prática, segundo Thomas Skidmore, empurraram Jango para dois erros fatais para o golpe de 1964:

  • O posicionamento na Revolta dos Marinheiros, quando mais de mil marinheiros e fuzileiros navais se entrincheiraram na sede dos Sindicato dos Metalúrgicos, e
  • A visita ao Automóvel Clube de São Paulo, em 30 de março do mesmo ano.

Ambas as situações envolvendo indisciplina militar, apoiada pelo então presidente.

Resultado: Jango deposto.

A esquerda trabalhou contra si mesma, Brizola também, assim como os Integralistas atuaram contra si em determinado momento. Dilma trabalhou contra ideias de esquerda, e Bolsonaro contra as de direita, ambos pela incompetência.

A causa maior, não única, é a mesma do MBL: a soberba. É a húbris, o excesso de vaidade, o orgulho desmedido, aquele que ultrapassa o metron, medida do bom-senso. O MBL se achou mais do que era. Se o objetivo era "Fora, Bolsonaro", deveria ter incluído todos no movimento, inclusive PT e aliados.

Mas o MBL quis ir além. Quis ser o pioneiro na movimentação de rua da terceira via, com o grito "Nem Bolsonaro, Nem Lula". Que tem teoricamente cerca de 45% a 50% do eleitorado disposto a seguir, se houver um bom candidato. Senão, parte vai com Lula para derrotar Bolsonaro.

O MBL quis matar dois coelhos com uma cajadada só, sem ter cajado para isso. Dias antes, a imprensa publicou que as lideranças do MBL confiavam plenamente na mobilização feita pelas redes sociais com checagens e rechecagens, e, inclusive, já contando com perda esperada de manifestantes.

Abandonaram o mote "Nem Lula, Nem Bolsonaro" tarde.

O MBL não olhou sequer para um caso anterior, o Churrasco de Gente Diferenciada, quando milhares clicaram confirmando presença, assanharam a imprensa no suposto embate entre povo e burgueses de Higienópolis na Praça Villaboim, região nobre de São Paulo, e o comparecimento atingiu centenas de pessoas. Clicar é fácil, ir é diferente.

O movimento não tem base para arregimentação como PT, que trabalha sindicatos e movimentos há anos. "Se achou". Contribuiu fortemente para reforçar Lula e Bolsonaro. O tiro saiu pela culatra, exatamente o inverso do desejado. Gol contra.

Mas a que se deve isso, se o MBL não é embotado?

À vaidade.

Como diz o Eclesiastes, livro da Bíblia hebraica e um dos livros do Antigo Testamento Cristão: "Vaidade de vaidades, tudo é vaidade". O erro básico dos inteligentes, aquela arrogância e soberba que toma conta das pessoas e dos grupos quando têm relativo sucesso.

Nesta linha, ressalta-se para um futuro planejamento, que os presidenciáveis presentes, mesmo anunciados com antecedência, não provocaram concentração maior de pessoas também. Um bom sinal de advertência a eles, que se propõem a concorrer numa eleição onde há dois candidatos que têm poder de mobilização. E também podem ser afetados pelo mal da soberba.

Ciro, apesar de dizer que tem os jovens —em parte verdade, mas jovens universitários—, nunca arregimentou grandes massas fora do Ceará. Nem os outros. Criar poder de mobilização passa por anos de trabalho e organização de movimentos, e a capacidade de empolgar, de eletrizar, para tirar uma pessoa de casa, num momento de desalento, distopia e medo de confrontos físicos.

Além da presença de personalidades com pensamento oposto, o melhor que pode servir o fracasso da mobilização é a lição. Um pouco de humildade vale —coisa rara nesses dias.

Contemplando todos os pretensos candidatos, "Nem Lula, Nem Bolsonaro" não é carona que se pega no "vento a favor". É uma construção que exige um trabalho além das palavras agressivas de ordem. Vontade não é ação. Esforço não é, necessariamente, resultado.

Precisa haver um projeto. Saber conduzi-lo e implantá-lo. O que até hoje esses grupos não fizeram. Acreditaram docemente nas respectivas "virtudes" (pretensas) e ações convencionais de hoje, como o clique, e um discurso enfático. É pouco!

Precisa haver um projeto e humildade para torná-lo realidade. Alguns pontos na pesquisa não são suficientes. Ser presidente não é para qualquer um.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL