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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Desmoralização em V

2.set.2021 - O ministro da Economia, Paulo Guedes, em cerimônia no Palácio do Planalto, em Brasília - Adriano Machado/Reuters
2.set.2021 - O ministro da Economia, Paulo Guedes, em cerimônia no Palácio do Planalto, em Brasília Imagem: Adriano Machado/Reuters
José Luiz Portella

José Luiz Portella

É pós-doutorando em sociologia e doutor em ciências (área história econômica) pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas na USP. Engenheiro civil especializado em gestão, orçamento e planejamento urbano, ocupou cargos públicos nos governos federal, estadual e municipal. Pesquisa medição do impacto das políticas públicas

Especial para o UOL

17/09/2021 04h00

Há tempos atrás se dizia: "Não sei quem é o próximo governo, mas o líder será Romero Jucá". A frase é uma referência ao ex-ministro e ex-senador, que, no cenário político, foi substituído por nomes como Ricardo Barros, Arthur Lira e pelo senador Ciro Nogueira.

Agora se diz: "Não sei quem será o presidente, mas ele vai jantar na casa de Washingon Cinel", empresário das áreas de segurança e alimentos, membro do Lide, grupo de líderes fundado pelo governador de São Paulo, João Doria (PSDB). Pode cantar um rock, um baião ou ouvir uma imitação. Mas vai.

Os empresários se reúnem sempre com o poder, especialmente quando o interlocutor fraqueja.

Paulo Guedes, o homem que na economia monetária de produção seria uma espécie de moeda reserva, vem cometendo tantos equívocos que passou de farol de Chicago, para um fósforo na Granja do Torto, inclusive morando em propriedade do Estado. Quando tem salário e condição financeira para gastar menos dinheiro do Papai Estado. Ajuste fiscal é bom para os outros.

A equipe que ele comanda, que já foi chamada de Dream Team, em devaneio onírico do mercado, já produziu pelo menos o estudo de 30 e poucas ideias que não saíram do papel. O estudo por não ser sólido se desfaz no ar.

Do profeta evangelizador das boas novas do mercado, Guedes se tornou, paulatinamente, uma Sherazade que conta histórias apetitosas para o rei Bolsonaro, para não ser extirpado.

Tem conseguido se manter porque Bolsonaro precisa de alguém que tenha contato com o mercado, o entretenha, e não cause problema.

PG não se opõe nem à decapitação dos amigos, como Marcos Cintra e Castello Branco, que tomaram posições inspiradas por ele e foram cortados de seus cargos ligados ao governo.

Quando o soco surgiu, ele se agachou para fora da "possibilidade do soco", como Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa), no Poema em Linha Reta.

O presidente da Caixa, Pedro Guimarães, o PG 2, líder de presença nas "lives" do presidente, está salivando e com força no quadril para o Jogo das Cadeiras.

Guedes, até agora, viveu todas as fases:

  • Começou como o homem que governaria o Brasil, enquanto Bolsonaro ia cuidar de armas e costumes;
  • Passou para o homem que pelo menos iria impor uma agenda, quando Moro foi defenestrado do poder e Bolsonaro precisava da Faria Lima;
  • Até ir murchando e ser considerado o homem que, pelo menos, iria segurar o teto de gastos e o populismo eleitoral do presidente.
  • Agora, já cogita furar o teto e não vai segurar nada.

Paulo Guedes foi "divinizado" por figuras do mercado como Pedro Jobim, do Fundo Legacy —no auge dos sonhos liberais, foi eleito pela revista GlobalMarkets o "melhor ministro da Economia da América Latina" (sic), em 2019.

O Fundo Legacy foi bem em 2020. Em 2021, está com menos 2,40%, enquanto fundos semelhantes alcançam mais 4,5%.

Jobim sumiu, como muita gente do mercado que despertou dos contos das Mil e Uma Noites em que se meteram.

O problema de Guedes é que ele é um "vendedor", um pregador convicto de possuir a "Verdade Revelada" e ter recebido a missão de nos levar ao caminho da salvação eterna, em V —termo usado pelo mercado para indicar rapidez.

Guedes acredita no que diz. Mas não entrega. E vende o que não tem.

Por quê? Sobretudo por não ser um gestor. É um homem de ideias e crenças, a supor que poderia ser um Chicago Sênior no Brasil, e implantar o que viu no Chile na época da ditadura de Pinochet. Embarcou na balada em que Bolsonaro teria a mesma autoridade no Brasil, para impor tudo de cima para baixo, com a sustentação da Nova Política. Errou.

O grande problema agora é que até as convicções "chicago-chilenas" estão se abalando e ele está indo para um "anything goes"(em tradução livre, qualquer coisa serve).

Está trabalhando para uma intervenção do Estado nos precatórios, via Judiciário, que teria que cometer a incoerência de modificar uma decisão que já transitou em julgado.

Está em viés de baixa, com uma desvalorização acentuada. Bolsonaro está "short" com PG1 —como mercado se refere quando está vendido em algum ativo.

Guedes não vendeu um trilhão do Patrimônio Nacional, não zerou o déficit em um ano e arrisca furar o telhado, mesmo com o aumento do pé direito que a inflação lhe proporcionou, e entregar uma estagflação em 2022.

Tornou-se um grande ponto de interrogação, por aliar aos dotes de marqueteiro inflamado, de "gênio da lâmpada" com cabelos despenteados, a fé no que repete à exaustão.

Nunca teve uma reforma tributária, a não ser a famigerada CPMF; nunca "deu facada" no Sistema S —o sistema continua a drenar recursos vindos da folha de pagamento para "exuberâncias administrativas", como uma numerosa equipe de marketing— e continua sustentando a politização feita por Skaf na Fiesp.

Paulo Guedes não tem reforma alguma digna do que precisa o Brasil, se encolheu na Tributária com os militares. Tudo indica, estará fora da campanha da reeleição, por ser contra.

Ele não tem habilitação para ser ministro da Economia. A desmoralização veio em V.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL