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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Caro político, já passou da hora de tirar esse chapéu de couro no Nordeste

O pré-candidato Sergio Moro usa chapéu de cangaceiro durante passagem pelo Recife  - Reprodução/Redes Sociais
O pré-candidato Sergio Moro usa chapéu de cangaceiro durante passagem pelo Recife Imagem: Reprodução/Redes Sociais
Carlos Madeiro

Carlos Madeiro

Jornalista de Caruaru (PE) que escreve para o UOL desde 2009.

Colaboração para o UOL, em Maceió

07/12/2021 04h00

O ex-juiz Sergio Moro (Podemos) não resistiu à tentação e pode se dizer batizado na caça ao voto do nordestino. Na primeira visita ao Recife como pré-candidato —e em ritmo de campanha— colocou um chapéu de couro, conhecido como chapéu de cangaceiro. Com ele, posou para fotos para tentar mostrar sua identificação com a cultura do Nordeste.

Além de servir de zoação, o que esse chapéu caricato, usado por tantos políticos, representa de nós, nordestinos?

Primeiro, o fato óbvio (para quem mora aqui): esse chapéu de cangaceiro —que não surgiu no cangaço, mas, sim, foi consagrado pelo uso dos cangaceiros— não é usado por ninguém, nas zonas urbana ou rural. Exemplo: no Recife, onde ele usou o chapéu, se alguém olhar hoje, não achará ninguém nas ruas com o adereço.

Aliás, o bando armado liderado por Virgulino Ferreira da Silva, vulgo "Lampião", causou estrago com suas invasões a cidades e roubos, nomeando (de forma bem questionável e que só reforça estigmas, diga-se) o crime de bandidos de hoje que invadem cidades para roubar bancos. Em tempo: fosse Moro juiz ou político à época do cangaço, seria muito mais afeito a prender do que a homenageá-los.

Mas o ponto não é nem esse, nem é Moro. Afinal, em um país tão grande, é normal que um candidato a presidente vindo do Sul não conheça o Norte (falo aqui da questão geográfica). Só que eles sempre se tornam estranhos quando fogem à realidade —contando que isso tem apoio de aliados locais em que nada ajudam ao levarem essas patéticas indumentárias.

A questão é o que esse chapéu representa de uma identidade de um povo que mora em nove estados, um diferente do outro?

Antes de mais nada, vale explicar uma coisa: o verdadeiro chapéu de couro (chamado de chapéu de vaqueiro) é usado ainda na vida real, mas no interior, pelas zonas rurais no agreste e sertão.

Esse é o chapéu de cangaceiro, hoje um artigo de venda só em artesanato para turista:

11.out.2018 -  O candidato à Presidência da República pelo PSL, Jair Bolsonaro partida de encontro do Partido Social Liberal, no Windsor Barra Hotel, na Barra da Tijuca, e usa chapéu de cangaceiro - JOSE LUCENA/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO - JOSE LUCENA/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Bolsonaro por aqui na campanha de 2018
Imagem: JOSE LUCENA/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Esse é o chapéu de couro ainda usado, o chamado chapéu de vaqueiro:

Alckmin, o chapéu de vaqueiro e uma cuia, em 2018 - Divulgação - Divulgação
Alckmin, o chapéu de vaqueiro e uma cuia, em 2018
Imagem: Divulgação

Não, amigos; assim como o Sudeste, Pernambuco não é igual à Bahia, que nunca será igual ao Ceará e é diferente do Maranhão —assim como mineiro não é igual a paulista.

Por aqui, já conhecemos esse fetiche do não nordestino em usar símbolos rurais para nos definir: quando não é o chapéu, vem um cacto ou uma montaria em um jumento (mais conhecido aí como jegue).

Isso nos soa tão disseminado, ao ponto de um dia um professor meu (que é carioca) contar que, ao pousar aqui pela primeira vez, pensou estar em outra região ao chegar a Maceió e não ver cactos, mas muitos prédios e ruas asfaltadas.

Mas ressalte-se: essa busca por consagrar o estereótipo nordestino --apesar de ridícula e alvo muito mais de zoação do que de elogios por aqui-- não é uma exclusividade de Moro. FHC, Bolsonaro, Alckmin, Aécio, Serra, Dilma... a lista parece infinita quando se chega a não nordestinos que tentam se aproximar da identidade local por meio de símbolos pouco eficazes.

Mais curioso ainda é ver seus apoiadores animados ao levar uma indumentária tosca, crentes de que isso o ajuda a engajar. Até Lula (pernambucano, mas radicado em São Paulo), de maior popularidade por aqui, vestiu várias e ajudou a disseminar o estigma.

Pernambucano, Lula usa chapéu durante título honoris causa recebido da UFPI   - Ricardo Stuckert/Divulgação - Ricardo Stuckert/Divulgação
Mesmo pernambucano, Lula usa chapéu durante título honoris causa recebido da UFPI
Imagem: Ricardo Stuckert/Divulgação

Caros políticos não nordestinos, aqui ninguém anda na rua de chapéu de couro assim, como parece. Eles nada têm a ver, por exemplo, com litoral e zona da mata. Eles reforçam o estigma de um povo rural e caricato —que em nada nos representa.

Talvez no Sul as pessoas tenham uma mesma impressão com as bombachas. Assim como no Norte, pensam que é só floresta e índio. Em síntese: cada local tem sua regra, sua identidade, e aqui somos muitos plurais (às vezes até em territórios próximos).

O Nordeste tem uma história forte, sim; mas nem toda a região sofre com a seca, como nem todo mundo vive na beira da praia. Assim como seu povo e cultura, seus símbolos não contam ou representam uma só história.

No mais, temos nossas rivalidades (sadias) na região: vejas os comentários em dia de Bahia x Sport. Aponte se o frevo de Olinda (PE) é melhor que o axé baiano a um pernambucano. Ou chegue a Campina Grande (PB) para dizer que o São João de Caruaru é maior. Na disputa de praias, então, o "cacete come", como dizemos aqui, se você não achar Maceió a mais bonita.

Ou seja, são as diferenças que nos unem também, assim como a disputa por um protagonismo saudável, por vitórias e valorização de culturas. Queremos turistas, mas que não carreguem estigmas.

E não adianta político achar que arrebenta ao usar um símbolo para nos definir. Somos vários povos de uma região, que talvez se identifique e se goste como nordestino de forma diferente às demais. Mas nunca seremos definidos por um chapéu, pela seca ou pelo mar. Cada local tem sua marca, como a cajuína de Teresina ou a carne de sol de Picuí (PB). Somos muitos e diferentes —e já passou da hora de o político que quer nosso voto perceber isso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL