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Irã: candidato vencedor prometeu mudanças pela liberdade. É ver para crer

Uma coisa é querer. Outra é conseguir. A recente eleição iraniana nos impõe esse paradigma de análise, baseado em fatos concretos.

O primeiro é que o candidato vencedor, Masoud Pezeshkian, que se apresenta como reformista, prometeu mudanças. Entre elas, reabrir conversas com o Ocidente e suavizar o uso obrigatório dos véus pelas mulheres. Sem dúvida, são bons sinais, embora insuficientes para quem defende a liberdade e a democracia nos seus sentidos corretos e amplos. Mas é um começo.

Entre as intenções de Masoud e a realidade, porém, existem obstáculos difíceis de transpor. O Irã é uma ditadura fundamentalista, que oprime mulheres, LGBTQI+ e todas as minorias que, de uma forma ou de outra, são consideradas ameaças a um modelo de sociedade regida pela interpretação radical do Islã. Não é à toa que, logo após a divulgação do resultado, o porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Matthew Miller, declarou: "Não temos expectativa de que essa eleição levará a uma mudança substancial na direção das políticas iranianas".

Se a torcida pelas mudanças é grande, há motivos de sobra para ceticismo. Quem manda no Irã, de direito e de fato, não é o presidente, mas sim o "líder supremo", no caso, o aiatolá Ali Khamenei, um ditador religioso ultraconservador. Hoje, o Irã é uma das maiores ameaças à estabilidade mundial. Além da opressão interna, o regime de Teerã financia grupos terroristas mundo afora. Está por trás, por exemplo, do assassinato de 1,2 mil pessoas em Israel e do sequestro de outras 230, em outubro do ano passado.

A possibilidade de um candidato crítico a alguns dos aspectos da ditadura iraniana ter conseguido concorrer é, mais do que tudo, o resultado de um gigantesco descontentamento interno, que veio à tona quando uma jovem de 22 anos, Mahsa Amini, foi morta há cerca de dois anos pela Polícia da Moralidade iraniana, depois de ser presa pelo descumprimento das leis de vestimenta impostas pela teocracia que se apoderou do país. As repressões às manifestações, em Teerã e outras localidades, foram violentas, gerando desgaste aos governantes.

Ao que tudo indica, o aiatolá Khamenei optou pela antiga política de "entregar os anéis para não entregar os dedos" ao permitir a candidatura de Masoud, que exclui apenas um país da lista de interlocutores com os quais ambiciona conversar. Reconhecer o direito à existência da única democracia da região seria, com certeza, uma ousadia inaceitável, mesmo para um iraniano que se apresenta como símbolo da mudança. Bastaria que Teerã fizesse o óbvio para terminar com os conflitos: interromper o financiamento ao terrorismo e reconhecer o direito à existência de Israel, um país soberano com milhares de anos de história. Em vez disso, a opção do "reformista" é não mexer no assunto. Resta sempre uma difusa esperança de que Masoud tenha optado por dar um passo de cada vez. Tomara.

Nos resta aguardar agora pelas medidas concretas do novo governo eleito. Saberemos, nos próximos meses, se a vitória de um "reformista" foi apenas uma concessão cosmética em nome de um alívio da pressão interna ou se os ditadores fundamentalistas que governam hoje o Irã compreenderam o recado dado pelo seu próprio povo.

* Claudio Lottenberg é presidente da Conib (Confederação Israelita do Brasil) e do Conselho Deliberativo da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein

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Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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