Arquivo particular
Pinga, novo desafio.
12h17 25/01/2005

Pinga, hoje, ensina como ser um zagueiro de classe

Foi um dos maiores defensores da história do Inter, teve a carreira interrompida por uma lesão gravíssima no joelho e hoje dá aulas no ex-clube.

Nico Noronha, do Pelé.Net

PORTO ALEGRE - No último sábado, dia 22 de janeiro, sob um calor de quase 40 graus, Pinga, acompanhado da esposa Rosane e das filhas Caroline, 15 anos, e Camile, 7, estava sentado no cimento quente do Estádio Mariscão, na praia de Capão da Canoa, no litoral norte do Rio Grande do Sul. Acompanhava o desempenho do primogênito, Rafael, 17, ponteiro-esquerdo do Colégio Americano, que enfrentava naquela tarde a Seleção Judaica que representará o Brasil na 17ª Macabíada Mundial, em Israel, em julho - o Americano venceu por 2x1.

À distância, gritava coisas assim: "Vai, Bomba!", ou "Chuta, Bomba!". Não sugeria nada muito diferente disso ao filho, que ganhou o apelido dos colegas devido à potência de seu chute. Fosse o jovem atleta um zagueiro, aí sim Pinga teria muito a mais a dizer. Poderia recomendar um melhor posicionamento, um gesto de antecipação, uma cobertura nas laterais do gramado, o momento exato de fazer a impulsão e aliviar a bola para fora da grande área.

Nesses fundamentos Pinga foi - e é - mestre. Trata-se, sem exagero, de um dos maiores defensores da história do Sport Club Internacional. No ano 2000, quando a revista Placar publicou uma edição especial sobre os "581 Craques do Brasil", ele apareceu como o 31º mais importante da história do clube e, entre os zagueiros, foi o 8º melhor de um clube que, neste 2005, completará 96 anos de existência. Melhores que ele, nessa lista, apenas as seguintes lendas coloradas: Figueroa, Gamarra, Nena, Mauro Galvão, Salvador, Alfeu e Florindo.

No Beira-Rio todos sabem da importância e das qualidades de Pinga. Tanto que ele acaba de assumir um cargo novo, até então inexistente no clube: o de professor de zagueiros. É o começo de uma nova fase na vida de um profissional que tinha talento de sobra e deveria ter sido um dos maiores defensores do futebol brasileiro. Mas, como já disseram muitos de seus fãs, "Deus, às vezes, é injusto". Tudo porque Pinga, no auge, teve o joelho estraçalhado, durante um Gre-Nal, e perdeu a chance de alcançar uma glória muito maior.

O lance fatídico, num clássico de 1987
Pinga teve a carreira encerrada duas vezes. A última delas no ano 2000, com a camisa do Serrano, pequeno clube carioca, na sua última tentativa de mostrar que ainda poderia jogar futebol. A primeira e mais marcante se deu numa tarde ensolarada de inverno, 19 de julho de 1987, quando tinha apenas 22 anos e era uma das maiores revelações do futebol nacional.

Ele tem os detalhes daquela tragédia pessoal bem vivas na memória, como relembrou ao Pelé.Net no último sábado: "O Gre-Nal recém tinha começado. O Lima (centroavante do Grêmio) atrasou para o Alfinete (lateral-direito) e esse lançou o ataque, procurando o Fernando. Quem deveria dar o primeiro combate, pelo nosso lado, era o Aloísio, mas como ele não estava na posição eu saí para fazer a cobertura. Foi quando o Fernando entrou com o pé alto, no meu joelho, fazendo com que todos os ligamentos se rompessem".

Pinga, um porto-alegrense batizado em 23 de abril de 1965 como Jorge Luís da Silva Brum, acompanhou o restante daquele clássico apenas ouvindo os gritos da torcida lá em cima, enquanto se contorcia de dor no vestiário do Inter. Viu o time entrar naquele cubículo, no intervalo, perdendo por 3x0, tamanha fora a comoção diante do lance que, todos sabiam, havia sido gravíssimo.

"Eu vi o grupo abatido, vi o Gentil (rupeiro do clube) chorando, e pedi que reagissem, pois o meu caso só os médicos, no hospital, poderiam resolver", lembra o ex-jogador. E o Inter até esboçou uma reação, fez dois gols, mas o Grêmio garantiu o 3x2 e ficou com o título gaúcho naquela temporada. E enquanto os tricolores comemoraram a conquista, Pinga se submetia, no Hospital da PUC, à primeira de muitas cirurgias que o afastaram da bola por três anos.

O grande momento foi na Olimpíada de 1984
Pinga viveu os melhores momentos de sua carreira em 1984 - ano em que chegou ao bi-campeonato gaúcho -. Foi ele, ao lado de Mauro Galvão, quem formou a dupla de zaga que levou a Seleção Brasileira à sua primeira final de Olimpíada, em Los Angeles. A equipe acabou derrotada pela França por 2x0 e voltou para o Brasil apenas com a medalha de prata.

Mas o jovem zagueiro do Inter, então com 19 anos, foi considerado a maior revelação do time nacional, a ponto de Enzo Bearzort, o renomado treinador da Itália - derrotada pelo Brasil nas semifinais por 2x1 -, ter declarado que não esperava ver um jogador de tamanha qualidade na defesa da equipe sul-americana. Bearzot previu que ele estaria entre os titulares da Seleção principal na Copa do Mundo de 1986.

A atuação de Pinga foi um capítulo à parte em meio àquele jogo tenso, como ele, ainda hoje, recorda: "Foi naquela partida que tomei uma atitude que nunca fez parte da minha maneira de ser. Eu dei um cotovelaço no atacante deles". O inimigo, na ocasião, era Fanna, um italiano provocador, que se destacava pela agressividade em meio a um time que tinha estrelas como o zagueiro Vierchwood, Baresi jogando no meio e Massaro como principal atacante.

"Ele (Fanna) me deu vários chutes no tornozelo e todo mundo já estava irritado com aquilo. Então, num determinado momento, vi que nem o juiz nem o bandeirinha estavam olhando para o meu lado e meti o cotovelo para valer", recorda Pinga, fazendo questão de reafirmar que nunca mais repetiu um gesto daqueles.

Hoje, ao orientar os zagueiros do Inter, dá dicas de ser como ele sempre foi. Eficiente, inteligente, atento, sempre pensando um lance à frente, sem cometer violência. Ele tem absoluta certeza de que ninguém precisa ficar chutando adversários para tomar conta da grande área.

Atuação decisiva no último título nacional
Em 1991, após três temporadas entregue aos médicos, com cirurgias realizadas nos Estados Unidos e muitas especulações de que não jogaria mais futebol, Pinga recomeçou a trabalhar no Beira-Rio. A volta surpreendeu a todos, afinal até mesmo um médico do próprio clube afirmara, durante o período de recuperação, que "só um milagre o fará retornar".

Pois ele não apenas passou a vestir outra vez a camisa colorada, como foi decisivo para que o time conquistasse a Copa do Brasil de 1992, último título do clube em nível nacional. Apesar de não ter mais aquela mobilidade dos bons tempos, nem a habilidade que o fez ser um dos mais técnicos zagueiros da história do Inter, ajudou o clube a derrotar o Fluminense por 1x0, no Beira-Rio, num jogo complicado, só decidido nos instantes finais.

O Inter perdera a primeira partida das finais, no Rio de Janeiro, por 2x1 e, para ficar com o troféu precisava vencer o Tricolor carioca por 1x0 no Beira-Rio. O jogo esteve empatado até os 41 minutos do segundo tempo, quando ele, num ímpeto pouco comum naquele período de sua carreira, arrancou, invadiu a área e foi derrubado. Pênalti. Seu parceiro de zaga,Célio Silva, chutou mal, de bico, no meio do gol, mas ainda assim a bola entrou e resultou na primeira e única Copa do Brasil vencida pelo Internacional. Há quase 15 anos.

No ano seguinte deixou o Beira-Rio, circulou por vários clubes brasileiros como o Rio Branco de Americana, o Corinthians, o América-SP, Londrina, Brasil de Pelotas, Paysandu e finalmente Serrano. Mas nunca mais foi o mesmo. O joelho estraçalhado pelo atacante gremista Fernando, em 1987, jamais se regenerou de vez.

No futuro, Pinga quer ser treinador de profissionais
"Fiz o curso, posso assumir como treinador de qualquer equipe e é o que farei no futuro", afirma Pinga, o orientador de zagueiros do Sport Club Internacional. Ao mesmo tempo em que afirmava isso, ele puxava do bolso e mostrava uma carteira do Sindicato dos Treinadores Profissionais do Rio Grande do Sul, comprovando o fato.

Ele afirma que sempre soube que seu destino seria esse. Parar de jogar e se tornar um técnico. Um projeto de vida que alimentava há muitos anos e ao qual resolveu se dedicar de vez no ano 2000, quando estava no Serrano, do Rio de Janeiro. "Eu estava lá, já desmotivado, com saudade da família que ficara em Porto Alegre, quando decidi largar de vez. Era a hora de começar uma nova fase".

Pinga não sabe onde vai parar. O período como treinador de defensores no Inter, sabe, é apenas parte de uma caminhada bem maior e a qual ele não consegue vislumbrar exatamente onde vai acabar. "Já treinei categorias de base do Inter, hoje trabalho com o zagueiros, e no futuro serei treinador de um time profissional. Passo a passo. E tudo vai dar certo".



  Na carreira só usei de violência uma vez: um cotovelaço num italiano (o atacante Fanna), na Olimpíada de 1984, em Los Angeles
Pinga, que acaba de assumir como treinador de zagueiros no Internacional

23/04/1965,
em Porto Alegre-RS

Clubes
- Internacional (84 a 87 e 92/93)
- Rio Branco-SP (1993)
- Corinthians (1994)
- América-SP (1995)
- Londrina (1996)
- Brasil-RS (1997)
- Paysandu (1998)
- Sapiranga-RS (1999)
- Serrano-RJ (2000)


Títulos
- Campeonato Gaúcho (1983 e 84)
- Copa do Brasil (1992)







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