11h19 05/12/2006

Ex-meia do Cruzeiro estuda para tornar real o seu sonho

Funcionário público em Minas, Careca se prepara para o vestibular de educação física, que espera lhe abrir as portas da carreira de técnico.

Fernando Lacerda, do Pelé.Net

BELO HORIZONTE - Hamilton de Souza, o Careca, ex-meia do Cruzeiro e que foi medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988, trabalha atualmente na Secretaria de Estado de Defesa Social, como supervisor de um programa de geração de renda para pessoas carentes. O ex-jogador trabalha em dois turnos e ainda encontra preparo físico para as aulas noturnas no supletivo, fundamentais para a concretização do sonho de cursar educação física e virar técnico de futebol.

Careca, que havia largado os estudos, na década de 80, quando foi revelado para o futebol pelo Cruzeiro, voltou aos bancos escolares há cerca de dois anos. "Estou animadíssimo com os estudos e no meio de 2007 quero prestar vestibular para educação física. Pretendo me preparar bem para ser técnico", revelou Careca, de 38 anos, que aos 18, em 1986, foi profissionalizado pela Raposa.

Meia-atacante habilidoso, com 1,86 de altura, pernas longas, Careca logo se destacou por aliar técnica e vigor físico. "Eu tinha força, técnica e velocidade, era aquele falso lento", lembrou Careca, que vê semelhanças entre o seu estilo e o do português Cristiano Ronaldo. Um ano após jogar no time principal do Cruzeiro, ele chegava à Seleção Brasileira pelas mãos de Carlos Alberto Silva, também treinador da Raposa.

Junto com outros jogadores do time mineiro - o goleiro Gomes, o zagueiro Geraldão e o volante Douglas -, Careca atuou com a amarelinha. Foi campeão Pan-Americano, em 1987, e medalha de prata nas Olimpíadas de Seul, no ano seguinte. "Como no Brasil só os campeões são reconhecidos, não fomos devidamente valorizados, apesar do ótimo papel nos Jogos Olímpicos e o trabalho de renovação com vistas à Copa do Mundo de 1990, que estava sendo feito pelo Carlos Alberto Silva, foi interrompido", recordou o ex-jogador.

Segundo ele, com a saída do treinador mineiro, acabou perdendo a vaga. "Queria muito ter disputado a Copa do Mundo, mas não posso dizer que fiquei frustrado. Todo jogador quer ir a um Mundial, mas acredito que atingi os meus objetivos, fui titular de um grande time, como o Cruzeiro, cheguei à Seleção Brasileira e joguei no exterior, o que não era comum como hoje", relacionou Careca, para quem, nos padrões do futebol da época, integrou o grupo formado por jogadores de nível A.

Careca lembra que na década de 80 o eixo Rio-São Paulo ainda predominava, o que tornava mais difícil para jogadores de outros estados fazerem uma carreira na Seleção Brasileira. Ele, particularmente, teve de enfrentar muitas críticas e insinuações de que só estava na equipe nacional, pelo fato de pertencer ao Cruzeiro, mesmo clube do treinador Carlos Alberto Silva.

"Os jogadores de Rio e São Paulo eram mais badalados. Não vou falar em favorecimento, mas eles tinham mais facilidade. Enfrentei muito isso", comentou Careca, que, fora da Copa do Mundo, se transferiu em 1990 para o Sporting, de Lisboa, onde atuou por três anos, voltando ao Cruzeiro em 1994.

Má fama
Seis anos depois de encerrar a carreira de jogador, o que aconteceu em 2000, no América-MG, Careca considera que ainda sofre as conseqüências da fama de indisciplinado, fora do campo, que o acompanhou na época que jogava bola. Ele chega a relacionar esse fator como um dificultador para que a sua carreira de técnico decole. Logo depois volta atrás e diz que está falando bobagem.

"Na verdade ainda não corri atrás para valer. Quero fazer educação física e me preparar direito para quando começar a carreira como técnico fazer tudo certo e para valer", comentou Careca, que lembra que já poderia estar atuando como técnico de futebol, pois se formou em 2003, em um curso na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em que alguns de seus colegas, já atuam no meio, casos de Marcelo Oliveira e André Figueiredo, ambos nas divisões de base do Atlético, e do ex-goleiro Milagres.

Quando diz que tinha fama de indisciplinado fora de campo, Careca se refere ao fato de ter ficado marcado como um jogador que gostava da noite e que não se cuidava devidamente. Isso ficou mais acentuado quando voltou de Portugal e não mais se firmou em nenhum clube. Do Cruzeiro, foi para a Ponte Preta, em 95, no ano seguinte foi contratado pelo Atlético-MG, maior rival celeste, que pode ser considerado o seu último melhor momento.

Após deixar o Galo, Careca passou por Londrina, Coritiba, Democrata de Governador Valadares e Villa Nova, entre 1997 e 98, vestindo cada camisa por seis meses, em média, até cegar ao América-MG, onde ficou um ano, encerrou a carreira e entrou para o seleto grupo de atletas que atuaram pelos três times da capital mineira.

"Eu joguei nos três clubes da capital, mas as pessoas não falam isso. Todo mundo cita o Éder Aleixo e outros, quando querem lembrar de algum ex-jogador que tenha defendido Cruzeiro, Atlético e América, mas nem citam o Careca. Fiquei um pouco marcado como indisciplinado fora de campo", afirmou.

Careca garante que mudou o seu comportamento há muito tempo, ainda quando jogava bola. "As pessoas que convivem comigo sabem que mudei muito e que isso já tem muito tempo", destacou careca, que é casado com Cláudia, há 16 anos e tem dois filhos, Hamilton de Souza Júnior, de 16, e Natália, de 10.

Estudo é prioridade
O filho Júnior, que é um atacante de 1,90m, que atua mais fixo na área, já rodou pelas divisões de base do Atlético, América e Villa Nova, mas, segundo Careca, está priorizando os estudos. "Ele estava no juvenil do Villa, mas como está fazendo o primeiro ano do Ensino Médio fez a opção pelos estudos. Em casa nós valorizamos muito os estudos", observou.

É justamente nos livros que Careca deposita as esperanças de voltar a atuar no futebol, que define como uma paixão em sua vida. "Para ser um bom técnico é preciso ter conhecimento e estudo. Por isso, estou me preparando para quando a oportunidade chegar. Acho que na vida tudo é questão de ter a hora certa", comentou o ex-meia-atacante, que formou no Cruzeiro uma dupla eficiente com o seu xará Hamilton. "A gente trocava muito de posição para atrapalhar os zagueiros adversários", contou.

Quando parou de jogar, Careca começou a atuar como empresário de jogadores. "Era mais olheiro. Indicava jogadores para os empresários e a gente fazia parcerias", explicou o ex-jogador, que pouco depois se tornou funcionário público. Trabalhou na Secretaria de Estado de Esportes, levado pelo ex-goleiro João Leite, que foi o titular daquela pasta e é deputado estadual.

No momento, Careca é supervisor do Centro Público de Promoção do Trabalho (CPPT), onde trabalha com projetos de cursos profissionalizantes para ajudar às pessoas de baixa renda a melhorar sua capacitação profissional. Antes dessa colocação, ele continuava atuando mais ligado à área de esportes. "Ajudei a implantar o programa Minas Olímpica, em 278 cidades de Minas", revelou o ex-atleta, sem esconder o orgulho.

Mas Careca traçou o rumo de sua vida e passa pela carreira de técnico. Por isso, o futuro treinador procura se manter atualizado em relação ao futebol, que, em sua opinião mudou muito desde que jogava. Nem sempre para melhor. "O futebol hoje é mais força e tudo gira em torno do dinheiro. Não tem mais aquele negócio de um jogador ficar três, quatro anos no mesmo clube, como aconteceu comigo e com um grupo no Cruzeiro, quando a gente formou um time de verdade", ressaltou Careca.



  Joguei nos três clubes da capital, mas as pessoas não falam isso. Todo mundo cita o Éder Aleixo e outros, quando querem lembrar de algum ex-jogador que tenha defendido Cruzeiro, Atlético e América, mas nem citam o Careca. Fiquei um pouco marcado como indisciplinado fora de campo
Careca, que hoje estuda para cursar educação física e ser técnico.
Hamilton de Souza

27/09/1968
Passos-MG

Times
- Cruzeiro (86-90)
- Sporting Lisboa (90-93)
- Cruzeiro (94-95)
- Ponte Preta (95)
- Atlético-MG (96)
- Londrina (97)
- Coritiba (97)
- Democrata-GV (98)
- Vila Nova-GO (98)
- América-MG (99-2000)

Títulos
- Mineiro (87, 90, 94)
- Pan-Americano (87)
- Medalha de prata dos Jogos Olímpicos (88)







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