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Torres: saudades
12h53 28/06/2005

Tri pelo Vasco, Alexandre Torres quer ser empresário

Zagueiro, filho de Carlos Alberto Torres, diz que sente saudades dos gramados e lembra primeiros tempos do CT de Xerém, onde começou.

Bernardo Calil, do Pelé.Net

RIO DE JANEIRO - Ser filho de um dos maiores laterais da história do futebol não seria um fardo nada leve para um atleta em início de carreira. Para o ex-zagueiro Alexandre Torres, filho do capitão do Tri, Carlos Alberto Torres, porém, o peso parece ter sido deixado em segundo plano. A amarelinha, se não caiu tão bem quanto no pai, foi uma das poucas camisas que o esguio beque defendeu na longa carreira nos gramados.

Para os cinquentões dos anos 2000, Torres é sinal dos tempos. Quem viveu aqueles momentos inesquecíveis de junho de 1970, acompanhando de perto o esquadrão canarinho, eleito o melhor time do século passado, não esconde certo ar de saudosismo ao saber que o filho de Carlos Alberto já se aposentou dos gramados.

Alexandre nem tinha completado quatro anos na época. Não se emocionou com a conquista do pai ao vivo, mas carregou no início da carreira, nos idos da década de 80, a responsabilidade do sobrenome dentro de campo.

"Quando você é jovem, às vezes fica preocupado com coisas que não são tão importantes. Tinha uma competição comigo mesmo em relação a isso, mas ficava realmente muito difícil competir com meu pai e com tudo que ele conquistou. Com o tempo e a experiência, você vai se preocupando apenas com o próprio desempenho, adquirindo confiança. No fim, acho que consegui ser um bom jogador", afirma o zagueiro, de 1,87m e estilo clássico, que chegou a ser convocado para a seleção em um amistoso contra os EUA em fevereiro de 1992, na vitória por 3 a 0.

A caminhada teve início no mirim do Fluminense, no recém-inaugurado centro de treinamento do Xerém, berço da base da equipe que vem fazendo ótimo papel em 2005. Segundo ele, o espaço não era nem sombra da estrutura que possui hoje.

"O problema dos clubes é pensar caro demais, achar que tem que estar tudo pronto de uma hora para outra. Quando cheguei em Xerém, o CT tinha um campo de futebol e mais uma área, não tinha vestiário, não tinha nada. Tomávamos banho de balde", lembra.

No Tricolor das Laranjeiras foram 11 anos. No fim de 1991, aceitou uma proposta do Vasco e foi jogar em São Januário, onde fez seu nome e conquistou as maiores glórias da carreira, dentre elas o inédito tricampeonato carioca (1992/93/94).

"Na primeira passagem pelo Vasco, o clube vinha bem, havia ganho o Brasileiro de 1989, vinha montando uma boa equipe. Fizeram uma proposta vantajosa para mim e eu fui. Fomos tricampeões cariocas, primeira e única vez na história. Fui jogar no Japão e, quando voltei, vi um clube diferente. O Vasco ficou grande demais, entende? Todos eram muito mais unidos, era um clube familiar. Hoje é diferente. Já não são as mesmas pessoas. Estava acostumado com outra fase", afirma o zagueiro, que foi jogar no Japão após o terceiro título e voltou em 2000.

"Por causa do Mundial, o Vasco contratou vários jogadores de nome. Para a zaga, tinha eu, o Mauro Galvão e o Júnior Baiano. Sempre tive uma personalidade de não discutir, não reclamar e, talvez por isso também, ficava como última opção. Estava bem fisicamente, precisava de uma seqüência de jogos, mas tinha poucas chances. Cheguei a atuar, revezando com o Galvão, na época do Abel Braga. Com o Oswaldo de Oliveira, joguei uma partida e fraturei o pé direito. Em 2001, voltei e fraturei o mesmo pé. Aí resolvi parar", recorda Torres, campeão também da Copa João Havelange e da Mercosul.

A volta ao Vasco como reserva era uma decepção principalmente por causa da condição de ídolo que tinha no Nagoya Grampus, do Japão. Foram cinco anos em um país onde o futebol era embrionário, entre 1994 e 1999. A experiência, segundo ele, deve ser pensada com carinho pelos brasileiros convidados.

"Se tem chance de progredir aqui, pensa em seleção, não aconselho. Mas se estiver pensando em mudar, sair, conhecer outras culturas, é uma ótima opção. Lá você encontra os melhores campos, melhores torcedores, mais respeito pelo profissional, organização e estrutura perfeitas. Precisa estar livre dos preconceitos de que lá o futebol é de qualidade inferior, o que não é verdade, e ter cabeça resolvida. Estava um pouco desmotivado aqui, sem chances na seleção, acreditei e fui. Foi uma grande aposta", afirma Torres, campeão da Copa do Imperador em 1995 e 1999.

No Japão, foi treinado por Arsene Wenger durante um ano e meio. Apontado como um dos melhores técnicos com quem já trabalhou, junto com Jair Pereira, Telê Santana e Nelsinho, que o lançou, o atual técnico do Arsenal tornou-se amigo e abriu as portas do clube inglês para um estágio como treinador. O período foi proveitoso, mas Alexandre logo descartou o espinhoso início como comandante.

"Fiz até alguns cursos e passei um tempo com o Wenger, mas é muito difícil esse começo. Não sei se teria estômago. Tenho dificuldades de pedir as coisas, sou muito tímido, fica incompatível com essa situação, que você precisa de uma chance de alguém".

Fato raro no futebol atual, o ex-zagueiro só atuou em três clubes. Nos 23 anos de vivência nos gramados, demora a definir o melhor momento, mas não a lembrar do pior: a morte do atacante Denner, companheiro de Vasco, em 1994, em um acidente de trânsito.

"Foi uma coisa que marcou muito. Eu o vi ali, dentro do carro. Pior ainda porque foi logo de manhã, todos desesperados, sem saber o que fazer, eu e Luisinho [ex-volante do Vasco] pegamos e fomos lá ver o que tinha acontecido. Você vê seu companheiro dentro do clube todo dia, forte, saudável, trabalhando, e de repente vê ali naquela situação", comenta.

Se não aponta um momento especial, faz questão de dizer que, após quatro anos longe dos gramados, a saudade já o incomoda. "Fiquei envolvido com futebol dos 13 aos 36 anos. É muito difícil largar completamente. Foi uma vida trabalhando e pensando nisso o tempo inteiro, vivendo o clima. Sinto muitas saudades, nada vai ser igual. Mesmo com as dificuldades, o dia-a-dia às vezes complicado dentro do clube, sinto falta da convivência com os companheiros, de estar dentro do campo. Sinto falta até do friozinho na barriga ao entrar num estádio", diz.

Hoje, Alexandre Torres busca novos caminhos. "O maior patrimônio que fiz no futebol foram as amizades. Hoje, elas estão sendo fundamentais neste começo como empresário. Esse ainda é um trabalho mal visto, mas acho que posso ajudar a mudar isso. Além da parte financeira, acredito que posso passar alguma coisa como ex-jogador para os mais novos, mostrar caminhos, colaborar de alguma forma", afirma o ex-jogador, filho de Carlos Alberto Torres, ídolo no Japão e convocado no Brasil. O fardo lhe caiu bem.



  Ficava realmente muito difícil competir com meu pai e com tudo que ele conquistou. Com o tempo e a experiência, você vai se preocupando apenas com o próprio desempenho. No fim, acho que consegui ser um bom jogador
Alexandre Torres, ex-zagueiro, sobre a responsabilidade de ser herdeiro do capitão da Copa de 70.
Carlos Alexandre Torres

22/08/1966

Rio de Janeiro

Times
- Fluminense (1986 a 1991)
- Vasco (1992 a 1994)
- Nagoya Grampus Eight (1994 a 1999)
- Vasco (2000 a 2001)

Títulos
títulos: Tricampeão carioca (1992/93/94), Copa João Havelange e Copa Mercosul (2000), pelo Vasco; Copa do Imperador (1995 e 1999), pelo Nagoya







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