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Getúlio: trabalho social.
11h45 13/09/2005

Getúlio usa a bola para tirar crianças da rua

Lateral-direito, que brilhou no Atlético-MG, São Paulo e Flu, ensina futebol a garotos dentro do "Projeto Curumim".

Fernando Lacerda, do Pelé.Net

BELO HORIZONTE - De segunda a sexta-feira, entre 7h30 às 12h30, Getúlio Costa de Oliveira, de 51 anos, ajuda cerca de 300 meninos, com idades que variam de nove a 14 anos, a descobrir no futebol um meio de largar vícios e riscos para quem vê a criminalidade perigosamente próxima. O ex-lateral-direito Getúlio, que brilhou no Atlético-MG, São Paulo e Fluminense, nas décadas de 70 e 80, atua como monitor do "Projeto Curumim - O Direito de Ser Criança".

Mantido pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Esportes, o Curumim tenta garantir uma vida melhor a crianças e adolescentes carentes, utilizando como estratégia práticas esportivas, artísticas, culturais e de lazer, entre outras. No caso de Getúlio, que já foi bicampeão brasileiro, por São Paulo e Fluminense, em 1977 e 86, respectivamente, a bola se transforma em um poderoso instrumento de convencimento.

"Quando falo com os meninos que já joguei na Seleção Brasileira, que fui campeão nacional, eles não acreditam. Aí levo fitas de vídeo, com gols e lances de jogos que disputei, para mostrar a eles. Além disso, pego a bola e faço concurso de embaixadinha, mostrando para os garotos o que sei fazer com a bola", comentou Getúlio, que naquela época já era um lateral-artilheiro.

Para o ex-jogador, a convivência com essas crianças e adolescentes, moradores da região do Parque São João, representa uma oportunidade de volta ás suas origens. "Converso muito com eles, sobre a importância de seguir o caminho correto, o caminho do bem e uso a bola para conquistar a confiança de cada um. É um trabalho muito gratificante", comentou Getúlio, que teve uma infância pobre, mas pôde contar com uma sólida estrutura familiar, que o ajudou fazer sucesso no futebol.

O futebol no Projeto Curumim tem um objetivo muito mais social do que de descoberta de futuros craques, o que não impede que isso também aconteça. Segundo Getúlio, não é raro o encaminhamento de garotos talentosos e com potencial para os grandes clubes de Belo Horizonte, como Atlético, Cruzeiro e América.

O ex-lateral de Galo, São Paulo e Fluminense, não está sozinho nessa empreitada. Dividido por núcleos, sempre em bairros e vilas de periferia, o Curumim conta com o trabalho de uma série de ex-jogadores profissionais, como o ex-lateral-esquerdo Ronaldo Luiz, que foi campeão mundial pelo São Paulo, o ex-ponta Robson, o ex-zagueiro Osmar Barão, entre outros.

Mágoas

Para Getúlio, o trabalho com garotos não é novidade. Afinal, ele passou 13 anos de sua vida, entre 1990 e 2003, como treinador das categorias de base do Atlético-MG, clube do qual é torcedor e onde começou a sua carreira, aos 14 anos, em 1968. No Galo, o ex-lateral trabalhou com juvenis, infantis e com mirins, última categoria com a qual trabalhou.

Ele foi demitido em 2003, juntamente com outros ex-jogadores como Luizinho, que trabalhava no juvenil, e não perdoa a atual diretoria atleticana, por ter afastado ex-craques atleticanos. "Por essas coisas de política, resolveram que os ex-atletas não podiam mais trabalhar no clube e nos mandaram embora, esquecendo não apenas o passado, mas o trabalho sério e eficiente que a gente realizava", lamentou.

Getúlio lista uma série de jogadores que hoje se destacam até mesmo em equipes estrangeiras. Entre eles, estão o lateral-esquerdo Dedê e o meia Lincoln, ambos brilhando no futebol alemão, no Borussia Dortmund e Schalke 04, respectivamente, além de Renato, Rodrigo Dias e Rafael Miranda, que são promessas do Galo.

Falar de sua saída do Atlético, time do seu coração, deixa Getúlio triste. Ele lamenta a forma como foi tratado, mas acalenta o sonho de uma volta, desde que os dirigentes do clube sejam outros. O ex-lateral-direito considera que o péssimo momento vivido pela equipe profissional do Galo - há 19 rodadas consecutivas ocupa a zona de rebaixamento do Brasileiro -, pode ser explicada à pouca atenção às categorias de base.

"Sem o bom trabalho de formação de jogadores, o Atlético fica comprando jogador, geralmente indicado por empresários, sem uma observação detalhada de quem entende realmente de futebol", diagnosticou Getúlio, lembrando que em DVD, apresentado por empresários, jogador nenhum tem defeito. "Acredito que nós, ex-jogadores, poderíamos ser muito úteis também no trabalho de observação", acrescentou.

Em 2002, quando Abel Braga era técnico do Atlético, Getúlio atuou também como "olheiro", mas com a saída do atual treinador do Fluminense, acabou perdendo essa função. Apesar das mágoas com o time que o revelou, o ex-lateral não se vê longe do futebol. Não pensa em ser técnico profissional, mas não quer abandonar o trabalho com os garotos.

"Nunca pensei em ser técnico de time profissional, porque nunca iria aceitar um dirigente mandar escalar um jogador só porque ele ganha mais do que o outro", observou Getúlio, que nunca se casou. Mas ele tem um filho, André, de 35 anos, e dois netos. Fiel às suas origens, mora no mesmo bairro Gameleira, onde nasceu e cresceu, em companhia de sua mãe, dona Maria.

De atacante a lateral

Getúlio começou sua carreira como centroavante. Disputou a Taça São Paulo, em 1972, nessa posição, até que o então treinador Barbatana o escalou na lateral-direita para abrir vaga no ataque para um garoto chamado Reinaldo, que se tornaria o "Rei" do Galo. "No início fiquei na bronca, depois agradeci ao Barbatana", lembrou,

Profissionalizado em 1974, Getúlio viveu bons momentos no Galo, mas em termos de títulos, suas conquistas mais importantes foram pelos tricolores paulista e carioca. O título brasileiro de 77, por ironia, foi ganho em pleno Mineirão, na final contra o Galo, quando a torcida atleticana se calou e assistiu à festa do São Paulo.

No clube paulista, Getúlio deixou soltar definitivamente a vocação de artilheiro, marcando 13 gols, por exemplo, nos campeonatos paulistas de 80 e 81 e no brasileiro de 80. A maior decepção na carreira, o lateral fala sem nenhuma dúvida: a não convocação para a Copa do Mundo de 1982, na Espanha.

"Estava na melhor fase da minha carreira, jogando bem e marcando gols. Havia disputado as eliminatórias, mas o Telê fez o favor de me deixar de fora, levando o Leandro, do Flamengo, e o Edvaldo, do Fluminense", lamentou Getúlio, que teve a possibilidade de atuar no futebol norte-americano, entre 86 e 88, pelo Hollywood Kikers, de Los Angeles, onde encerrou sua carreira e ganhou dólares "para ajudar a dar uma vida melhor" à sua família.



  Nunca pensei em ser técnico de time profissional, porque nunca iria aceitar um dirigente mandar escalar um jogador só porque ele ganha mais do que o outro
Getúlio Costa de Oliveira, ex-lateral-direito de Atlético-MG, São Paulo, Fluminense e Seleção Brasileira, que ensina futebol para meninos carentes em Minas
Getúlio Costa de Oliveira

26/02/1954

Belo Horizonte (MG)

Times
- Atlético-MG (68-76)
- São Paulo (77-84)
- Fluminense (84-86)
- Hollywood Kikers (EUA)(86-88)

Títulos
- Brasileiro (77)
- Brasileiro (84)
- Bi Mineiro (75-76)
- Bi Paulista (80-81)
- Tri Carioca (84,85 e 86)







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