Pelé.Net
Jair quer ser técnico.
09h00 24/01/2006

Príncipe Jajá pede chance para trabalhar

Ex-craque do Inter dá aula a meninos carentes, enquanto aguarda oportunidade para virar técnico profissional. "Estão me discriminando", reclama.

Milton Junior, do Pelé.Net

PORTO ALEGRE - Jair Gonçalves Prates já foi campeão do Brasil, da Libertadores da América, do Mundo. O ex-craque, que ficou conhecido no universo do futebol como "Príncipe Jajá", hoje orienta meninos carentes, num trabalho em conjunto com a Prefeitura de Porto Alegre e pede uma chance para mostrar seu trabalho como treinador num clube profissional. Desde que abandonou os gramados fez diversos cursos, mas a chance para mostrar seu valor não veio. Ainda não desistiu, mas sente que para entrar no seleto grupo está muito difícil.

Boa parte da mídia, diz ele, vendeu a idéia de que jogadores não tinham formação ideal e não estavam aptos para serem técnicos de futebol. "É muito grande e falta de educação e respeito com os ex-atletas", declara Jair, para quem, do jeito que a situação se apresenta atualmente, "somente quem tem curso superior, especialmente em educação física, vira treinador. Um médico, se tiver um QI (Quem Indica) poderá chegar a técnico, mas não vai dar certo".

Contrariado com esse panorama, ele diz o que realmente interessa para dar certo nessa profissão é saber ensinar, ter vivência de vestiário e "olhar aquele garoto de 12 ou 13 anos e reconhecer que ele tem talento".

O meia, que foi um dos mais talentosos do Internacional na década gloriosa de 70, afirma existir no futebol uma "panelinha" e que espera abrir uma brecha para mostrar meu trabalho. "Não estão me deixando chegar, mas vou entrar no mercado e provar que sou competente. Estou sofrendo uma discriminação", denuncia Jair.

Seu irmão, o lateral César Prates, que como ele também chegou a ganhar oportunidade na Seleção Brasileira, largou o futebol no ano passado e tratou logo de se dedicar a um curso superior, para poder trabalhar sem sofrer a discriminação que o "mano" diz estar enfrentando.

Mas Jair quer vencer sem ter que ingressar nas salas de aula de alguma universidade, e enquanto aguarda o chamado vai emprestando seus conhecimentos a meninos carentes. Junto com outros destacados ex-jogadores do futebol gaúcho, como Escurinho, Tovar, Alcindo, Ancheta e Tarciso, criou uma cooperativa para ensinar futebol, com o apoio da Prefeitura de Porto Alegre. São vários núcleos na capital que atendem garotos de 7 a 18 anos. No bairro pobre da Restinga, onde Jair e Alcindo são os coordenadores, o número de alunos já chega a 350.

"É uma oportunidade para esses jovens terem um futuro longe das drogas e da criminalidade. E uma experiência ótima passarmos nossos conhecimentos para esses garotos", observa. "Orientamos sobre o futebol e mostramos o caminho do esporte. Enquanto eles estiveram no campo com o nosso treinamento e aprendizagem, estão fora dos perigos da rua e das drogas", garante.


Porque "Príncipe Jajá"
O apelido "Príncipe Jajá" foi criado pelo atacante Dario, o "Peito de Aço", também conhecido como "Rei Dadá". O nome surgiu após uma vitória sobre o Grêmio, no Olímpico, em 1976. Jair pegou a bola e lançou com precisão para Dario fazer o gol. Após o jogo e durante a entrevista coletiva ao lado de Jair, o centroavante vaticinou: "A família real não pode ficar sem um príncipe".

E então descreveu a jogada: "O Príncipe Jajá deu um passe perfeito para o Rei Dadá, que não desperdiçou e mandou para as redes". No momento pareceu uma brincadeira inconseqüente, mas, como lembra hoje Jair, "aquilo marcou demais e até hoje todos me conhecem como Príncipe Jajá".

Filho de jogador de futebol, Laerte Prates, Jair nasceu em Porto Alegre, mas foi criado na Ilha do Governador, no Rio. Nas andanças do pai, ainda morou em Bogotá e Barranquilla. No final da década de 1960, Laerte III, como era conhecido, seguiu para a Venezuela e a família Prates retornou para Porto Alegre.

Nos torneios de futebol escolar Jair começou a se destacar e foi convidado para jogar na Sogipa, clube fundado em 1867 e grande celeiro de talentos nos esportes amador. Lá foi descoberto pelo Internacional e começou sua vitoriosa carreira.

Tri brasileiro, o grande momento
Em 1974, o técnico Rubens Minelli prometeu a cada jogador do qualificado grupo do Inter, que daria oportunidade a todos. Com personalidade sempre forte, Jair lembra que em função da promessa interrompeu um coletivo e foi cobrar do treinador. "Minelli, você não disse que daria uma chance para cada atleta? O Jorge Andrade, que está largando o futebol, já teve a oportunidade e eu quero a minha".

A cobrança não teve resultado imediato e enquanto a oportunidade não vinha, tratou de dedicar o tempo livre a se aprimorar em cobranças de faltas. O esforço deu resultados, pois quando as primeiras chances começaram a aparecer, entrava nos minutos finais e acabava deixando seu gol. "Se fosse outro jogador, ficaria parado esperando a morte chegar", observa.

Em 1975, ano do primeiro título nacional do clube, já era o "curinga" colorado, e teve participações importantíssimas, como na histórica semifinal contra o Fluminense, então conhecido como uma máquina de jogar futebol. "O Minelli me colocou naquela fogueira do Maracanã quando o jogo já estava 1 x 0 para a gente. Na primeira bola passei para o Carpeggiani, que deu uma meia lua no zagueiro e fez 2 x 0. Inter na final". Na decisão o título viria no 1 x 0 sobre o Cruzeiro.

No bi, em 76, participou efetivamente da campanha, pois atuou quase todos os jogos, mas foi na conquista do tri invicto, em 1979, que Jair chegou ao auge. Era dono da meia, fazendo um quadrado inesquecível ao lado de Falcão, Batista e Mário Sérgio. "Foi uma conquista tranqüila, nosso time era bom demais". Na final, fez gol no 3x1 sobre o Vasco, num Beira-Rio lotado.

Apesar da alta qualidade do time Colorado de então, na decisão da Libertadores, no ano seguinte o clube gaúcho foi derrotado pelo Nacional por 1x0, em Montevidéu. "Foi um crime, e o pior é que o gol saiu num lance antecipado pelo nosso técnico, o Ênio Andrade, que havia detalhado a jogada para nós", lamentou-se Jair, durante a entrevista concedida ao Pelé.Net no Bar e Café Muffeletta, localizado no bairro Cidade Baixa, quando estava acompanhado de Jane, sua esposa há 23 anos.

No ano seguinte, o Inter emprestou o jogador para o Cruzeiro. Sua passagem por Minas Gerais foi curta e o retorno ao Beira-Rio apenas uma ponte para a transferência para o Penharol - negociação que trouxe o meia Ruben Paz para Porto Alegre -, clube com o qual ganharia o mundo.

Melhor no Mundial Interclubes de 82
A presença de Jair Prates no país vizinho foi marcada pelas conquistas dos títulos Uruguaio, da Libertadores, do Mundial Interclubes e também pela polêmica divisão do carro Toyota, ganho como o melhor em campo na decisão. Naquela partida, Jair marcou o primeiro gol da vitória de 2 x 0 sobre o Aston Villa, da Inglaterra.

"Me mandaram para um futebol falido, que não ganhava nada e estava fora da Copa de 82. Fui para vencer e ganhar todos os campeonatos. No final do ano, vencemos o mundial em Tóquio e fui o melhor do jogo e eleito o 12º jogador do mundo", salienta.

Na seqüência Jair entrou em conflito com o centroavante Morena e acabou deixando o clube, ficando sem jogar em 83. Ele havia ganhado o Toyota e decidiu não dividir entre os jogadores. Morena, para quem o clube devia US$ 250 mil, exigiu a partilha e, mais do que isso, pediu à direção o pagamento da dívida ou a saída do brasileiro. "Eles decidiram ficar com o Morena. Isto me atrapalhou muito e o Penharol acabou perdendo a Libertadores para o Grêmio", cita.

No momento em que relembrava a história, Jajá olhou para a esposa, Jane, e contou: "Foi ela que mandou eu ganhar o carro e trazer de presente".

Críticas ao atual presidente do Inter
Com 39 anos decidiu largar os campos. Estava no Huracán, do Uruguai. "Enchi o saco, apesar de que ter condições de jogar até os 45. Eu me preparei para tudo. Fiz uma planificação de vida e queria ter disputado três Copas do Mundo. Infelizmente não fui em 82 por 'padrinhagem'. Na época a disputa era com o Jorge Mendonça. Mas tudo bem, na minha carreira só não joguei Copa, o resto eu ganhei com suor e dedicação", afirma, com orgulho.

Atuante e observador, Jair segue esperando a chance de virar técnico profissional, enquanto acompanha o futebol brasileiro e diz que ele está em decadência, tudo muito igual. "Implantar um esquema e ensinar fundamentos qualquer um sabe. Mas antes tínhamos três, quatro jogadores de grande qualidade em cada equipe. Hoje é um e olhe lá", diz.

Sobre seu ex-clube, o Inter, diz que na Libertadores 2006 pode chegar longe, mas não vai emplacar. "O time precisa de um 'xerifão', de preferência um gringo; um camisa cinco que saiba distribuir o jogo; um oito articulador, ofensivo, que saiba marcar gols; e finalmente um nove matador. Com essa coluna, poderá ganhar, mas para fazer isso precisa gastar", avisa.

Ele crítica a gestão do presidente atual do Inter, Fernando Carvalho, cujo mandato acaba no final do ano e pede para a torcida colorada escolher melhor desta vez, colocando no cargo maior do clube um presidente de fato e não um aprendiz. "Ele vai deixar o Beira-Rio maravilhoso e moderno, mas no campo deixa a desejar".



  Não estão me deixando chegar, mas vou entrar no mercado e provar que sou competente
Jair Prates, ex-craque do Inter, pedindo uma oportunidade de se tornar treinador profissional
Jair Gonçalves Prates

11/07/1952

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