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Bolívar: torce pelo filho.
09h00 21/03/2006

Bolívar, o "Xerife de Limeira", virou torcedor do filho

Jogador, que integrou a Inter de Limeira, campeã paulista de 1986, 20 anos depois é o orgulhoso pai do zagueiro titular do Inter de Porto Alegre.

Milton Junior, do Pelé.Net

PORTO ALEGRE - É com um largo sorriso no rosto, demonstrando muita alegria e satisfação, que o ex-jogador Bolívar lembra sua carreira no futebol, especialmente os quase 10 anos em que atuou pela Inter, de Limeira, quando a ajudou a conquistar o maior título da sua história. Campeão Paulista ao superar o Palmeiras na final de 1986, até hoje, quando conversa com os amigos, é chamado de "Xerife de Limeira", tamanho o respeito e admiração que construiu na cidade do Interior de São Paulo. "Dizem que lá eu mando prender e soltar", conta, rindo.

Aos 51 anos, o ex-ponteiro, lateral-esquerdo e zagueiro, hoje um aposentado que mostra não ter se preocupação com os muitos quilos a mais adquiridos após abandonar a carreira, dedica-se a acompanhar atentamente a ascensão do filho Fabian Guedes, 25 anos, o zagueiro Bolívar, titular do time do Inter, de Porto Alegre.

"Ele está numa temporada muito boa, mostrando como característica principal a grande impulsão. Mas sempre digo que ainda pode aperfeiçoar o cabeceio e a jogada com a perna esquerda. É o orgulho da nossa família", revela o marido de Leilane e pai também de Tatiana, 32 anos, Marcel, 28 e Monize, 17.

O filho passou a ser chamado pelo mesmo nome do pai quando, ainda menino, se apresentou no Guarani, de Venâncio Aires. A denominação foi idéia do técnico do time naquela ocasião, Chicão. De lá se transferiu para o Grêmio, onde conquistou os campeonatos gaúchos de juniores em 1999 e 2000. "A parceria com a ISL havia terminado e o clube ficou sem dinheiro para pagar o que devia ao Guarani, daí ele voltou. O técnico, então, era o Mano Menezes - hoje no Tricolor na capital -, que o deslocou da ponta para a lateral, quando ganhou mais liberdade em campo. Assim foi destaque no Gauchão 2002 e chamou atenção do Colorado", explicou o pai coruja.

Curtindo o seu momento "nada por fazer" em Santa Cruz do Sul, cidade do interior gaúcho localizada a 155km de Porto Alegre, Bolívar diz que tem uma vida tranqüila, sem muitas mordomias, mas com o suficiente para curtir uma cervejinha e comeu um suculento churrasco nos finais de semana, ao lado da família e dos netos Nicolas, 1, Kevin, 2, e Tales, 5 anos. "Daí acho que pode surgir mais um jogador", aposta.

Reconhecendo que nos seu tempo de atleta os contratos e os salários eram bem menores, Bolívar diz que ainda assim conseguiu investir e hoje vive com os rendimentos de alguns imóveis adquiridos em Porto Alegre e em Santa Cruz. "Vivo sossegado ao lado de minha esposa", assegura.

Prestígio liberava da concentração
Antes de encerrar a carreira, aos 37 anos, Bolívar desfrutava total confiança do técnico Pedro Rocha, tanto que nem precisava mais concentrar junto com o restante do grupo da Inter, em Limeira. "Ficava em casa assistindo um filme e me apresentava poucas horas antes do jogo", revelou.

Criado nas categorias de base do Esporte Clube Avenida, de Santa Cruz do Sul, no início da década de 1970 se transferiu para o Grêmio e surgiu como ponteiro-esquerdo. Chegou até à Seleção Brasileira de novos, onde um dia acabou improvisado como lateral. "Em 74, o Ênio Andrade chegou ao Grêmio e disse que eu poderia jogar onde quisesse, aí optei pela lateral", recorda.

Pela Seleção foi campeão em Cannes, na França, em 72 e 73, como juvenil. Seu grande momento foi defender a Seleção na Olimpíada de Munique, na Alemanha. "Foi uma das minhas maiores alegrias como jogador de futebol. Era um belo time, formado por Falcão, Pintinho, Washington, Levir Culpi, Abel Braga e Dirceu", cita. "Mas não passamos da primeira fase, faltou experiência. Não existia profissionalismo e os times europeus levavam os atletas principais", acrescenta.

Ele estava lá e sentiu de perto os efeitos do atentado de Munique, episódio histórico que acaba de ser revivido no cinema por Steven Spielberg. Lembra bem que passaram de momentos de alegria para outros de intenso pavor. "Na Vila Olímpica existia uma grande confraternização entre todos os atletas. Num dia era tudo felicidade, no dia seguinte ao ataque tudo se transformou uma imensa tristeza. É um absurdo essas disputas políticas, foi um setembro negro", lamenta até hoje.

Torcedor do Periquito
Bolívar deixou o Grêmio em 1976, quando Telê Santana armava o time que viria a ser campeão Gaúcho de 77, e foi para a Portuguesa de Desportos, onde jogou junto com o centroavante Enéas. Mas, assim como ocorrera no Tricolor gaúcho, não conseguiu ser campeão.

Na Inter, já na posição de zagueiro e capitão do time, atuou ao lado do volante Gilberto Costa, do meia Lê e do centroavante Kita, outro gaúcho, que no seu entender foi um grande centroavante. "Foi um dos maiores avantes com os quais joguei, tinha impulsão, visão de jogo, facilidade no cabeceio e um chute forte com os dois pés", elogia.

Já no Bragantino foi campeão da segundona paulista, em 1988, embrião do time que viria a ser campeão, na Série A, em 1990. "Foi outro ótimo time. Tinha muita gente boa, como o Gil Baiano", destaca Bolívar. Mas enquanto seu ex-time de Bragança Paulista fazia sucesso, ele já estava de volta ao Rio Grande do Sul e ajudou, no mesmo ano de 90, o Guarani de Venâncio Aires a retornar para a elite do futebol gaúcho, ao ficar com o vice-campeonato da Segundona naquela temporada.

Após a bem sucedia carreira de quase 20 anos e distante de Santa Cruz do Sul, cidade de colonização alemão, retornou para um dos clubes da cidade, o Avenida, para "pendurar as chuteiras" onde tudo começara. "Sou avenidense, ou Periquito, como também é conhecido nosso torcedor", explica. "Parei com 37 anos, estava na hora".

Questionado se continua torcendo para o Grêmio, clube que o lançou para o futebol, mesmo com filho hoje defendendo o clube rival, o Inter, revela que em sua casa tem fardamento das duas cores. Afinal, como repetiu, o Bolívar filho é o grande orgulho da família. "Mas enquanto isso eu ainda jogo nos veteranos do Grêmio de vez em quando", diz.

Atento ao futebol gaúcho e nacional, acredita que após passar pelo inferno da Série B, o Grêmio montará um time capaz de disputar o titulo brasileiro. Sobre o Inter na Libertadores, aponta que a decisão será caseira. "Vai ficar entre a equipe gaúcha, o Palmeiras, o Corinthians e o São Paulo. O Inter tem um time montado há três anos e está muito bem", observa.

Por fim, fez um comentário sobre a Copa do Mundo, e revelou temer o excessivo favoritismo creditado à Seleção."Estamos assistindo uma das maiores gerações do futebol brasileiro. Nunca tivemos tantos atacantes com grandes qualidades. Mas favoritismo não ganha jogo, devemos entrar em campo como se fosse a última partida de nossas vidas", alerta.



  Na Vila Olímpica existia uma constante confraternização. Num dia era tudo felicidade, no dia seguinte ao ataque tudo se transformou numa imensa tristeza
Bolívar, hoje aposentado, lembrando o ataque terrorista quando estava em Munique com a Seleção Olímpica, em 1972.
Bolívar Modualdo Guedes

21/12/1954

Santa Cruz do Sul - RS

Times
- Grêmio(73 a 76)
- Portuguesa (77 a 80)
- Inter de Limeira (80 a 83 e 85 a 87 e 89)
- Aimoré-RS (84)
- Bragantino (88)
- Guarani de Venâncio Aires (90)
- Bandeirantes (91)
- Avenida de Santa Cruz-RS (91)

Títulos
- Paulista 1986







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