Airton: com o Grêmio
14h11 13/06/2006

Aírton, ex-Grêmio, vive grudado ao clube

Aos 71 anos, o defensor que é apontado como o melhor da história, conta suas memórias e não abandona o clube.

Milton Junior, do Pelé.Net

PORTO ALEGRE - Ídolo do Grêmio, clube no qual é considerado o melhor zagueiro da sua centenária história, Aírton Ferreira da Silva, 71 anos, mantém a proximidade com o clube até os dias de hoje, apesar de ter abandonado o futebol há mais de 35 anos. Ele reside exatamente em frente ao estádio Olímpico, numa casa pintada em azul e não abre mão de assistir aos jogos do Tricolor em Porto Alegre.

Atento, cauteloso, como sempre foi, manifestou já no começo da conversa com a reportagem do Pelé.Net, na tarde desta segunda-feira (12/6), como está vendo o time de hoje. "Tudo é muito difícil para o Grêmio, mas neste ano acredito que vamos conquistar uma vaga na Copa Sul-Americana", apostou o zagueiro que marcou pelo estilo elegante quando jogava, tanto que raramente cometia uma falta e foi expulso apenas uma vez em toda a carreira.

Aírton freqüenta o estádio Olímpico o tempo todo, observa o desempenho do time e faz questão de incentivar especialmente os jovens atletas. "Acompanho os jogos. Vou para apoiar e até pela saudade que bate na gente", conta ele.

Ele lamenta apenas que o futebol esteja atualmente muito mercantilizado. O Grêmio revelou, por exemplo, o volante Lucas, mas o saudoso zagueiro já sabe que será difícil manter a jovem promessa no clube mesmo até o final desta temporada. "Já estão falando que ele vai embora. Então, quando você quer ver uma boa partida, o cara já está indo para a Europa. Agora é assim e o Grêmio precisa vender para manter os outros. Aqui no Sul, não dá para pagar salários de R$ 150 mil", admite.

O melhor zagueiro do RS

O seu estilo, conta Aírton, era muito diferente do que se jogava comumente nas décadas de 50 e 60. A regra era o zagueiro dar pontapé e ficar sempre próximo à área. "Eu fazia diferente, jogava de maneira clássica e avançava para apoiar no ataque e fazer gols. Precisei provar, por 13 anos no Grêmio, que aquele modo poderia dar certo", lembrou. E até usou uma frase de efeito para ensinar a maneira: "Se você tem a chave, não precisa arrombar a porta".

Como em toda a profissão, diz que a experiência conta muito e a cada ano aprimorava mais o futebol, evitando sempre cometer infrações. "Eu sempre fui muito exigente, sempre procurei a perfeição e hoje tenho o orgulho de afirmar que ninguém pode dizer que passou a dribles pelo Aírton", assegura.

Para revelar a importância de Aírton Ferreira da Silva na história do Rio Grande do Sul, no ano 2000, a Federação Gaúcha de Futebol (FGF) promoveu uma eleição para escolher a Seleção Gaúcha de todos os tempos. Cronistas, dirigentes e jogadores representando diversas épocas foram convocados a se manifestar, e ele foi escolhido de forma quase unânime o zagueiro desta equipe.

"Eu era um jogador diferenciado, por isso marquei muito na história do Grêmio e me escolheram como o melhor zagueiro do Rio Grande do Sul. É bom ter o reconhecimento. Em todo o lugar aonde vou, o pessoal não esquece do que eu fiz em campo e por isso fico muito honrado, mesmo 35 anos após ter parado".

O seu modo de jogar chamou atenção dos clubes do Rio de Janeiro e de São Paulo e Aírton recebeu convite para jogar nas equipes do Santos e do Botafogo, ao lado de Pelé e Garrincha.

"Naquele tempo não tinha a mídia que tem hoje. Me arrependo de não ter ido para o centro do país e ser conhecido em todo o Brasil. O dinheiro era equivalente, mas lá era vitrine. Errei", lamenta Aírton, que apenas por três meses esteve emprestado ao Santos de Pelé para jogar o Torneio Rio-São Paulo de 1960. Mas voltou logo para seguir sua inesquecível trajetória no Grêmio.

Nesse curto período em São Paulo, Aírton jogou ao lado do Pelé. Já com a camisa tricolor o enfrentou em cinco partidas e assegura que jamais falhou diante daquele que se tornaria o Rei. Também treinou junto com ele na Seleção de 62, embora não tenha participado da Copa do Mundo realizada no Chile.

"Foi uma época muito boa, com muitos craques. Hoje o futebol é pura força. Todos jogavam com violência contra o Pelé, mas eu nunca fiz isso. Um zagueiro que leva um drible e parte para o pontapé, é porque não é muito aplicado ou é muito afoito. Eu não adivinhava, esperava ele tocar na bola para partir para cima. Se hoje estivesse jogando, também me daria muito bem", avalia.

"Pavilhão" virou apelido

O ex-jogador chegou ao Grêmio em uma negociação inusitada caso ocorresse nos dias de hoje. Revelado no Força e Luz, clube de Porto Alegre, se destacou em uma partida contra o Tricolor. A direção foi em busca do zagueiro e o clube pagou 50 mil cruzeiros por ele, mas como o vendedor vivia em enormes dificuldades financeiras e não tinha como investir em seu pequeno estádio, exigiu também um pavilhão de madeira que pertencia ao Grêmio e estava desativado desde que o clube abandonara o seu velho estádio da Baixada. Com isso, Aírton agregou o Pavilhão ao nome, forma como é reconhecido até hoje.

"O dinheiro nem foi falado na época. O pavilhão do Grêmio era muito bom e valorizado. Até hoje falam nisso e não me incomodo. Hoje estão querendo vender aquele campo do Força e Luz, o que é uma pena, pois é minha história e gostaria que fosse preservada. Minha vida está ali, onde disputei muitos clássicos contra o Inter", recorda.

Aírton Pavilhão diz que jogar de zagueiro hoje é muito fácil. "No meu tempo era eu contra o Pelé", cita. "Infelizmente, agora têm zagueiros em grandes times do Brasil, e eu não vou citar nomes, só para quebrar o galho. Se as defesas não estão bem, não critico a pessoa diretamente, deixo a crítica para os profissionais da imprensa".

Aírton, disposto e atento, não esquece de falar sobre a Copa do Mundo e surpreendentemente diz que nenhum jogador tem chamado a sua atenção. Ele está apostando que o Brasil não vai conquistar o hexa e que muitas surpresas acontecerão.

"Até agora não vi ninguém que possa ser craque e sou inimigo de time com muitos craques. Uma equipe que se apresenta com muito favoritismo sempre perde, mas é claro que espero estar errado", falou, a respeito da favoritíssima Seleção Brasileira.

Aposentado, Aírton cita que depois de largar os gramados no final da década de 60, passou a ensinar futebol nas escolinhas mantidas pela Prefeitura de Porto Alegre. Foi sua última atividade profissional, numa carreira que ele garante ter sido de muito sucesso e felicidade. "Nos 13 anos em que estive no Grêmio, fui campeão em 12. Também ganhei o titulo invicto Sul-Brasileiro", revela, lembrando a competição, que reunia os campeões e vices do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.



  Me arrependo de não ter jogado no Rio ou em São Paulo e ser conhecido em todo o Brasil.
Aírton, o maior zagueiro da história do Grêmio e que foi do Santos só por três meses nos anos 60
Aírton Ferreira da Silva

31/10/1934

Porto Alegre - RS

Grêmio (54 a 67) Santos (60) Cruzeiro-RS (68) São José-RS (69)



Títulos
- Gaúcho (1956/57/58/59
/60/62/63/64/65/66/67) Sul-Brasileiro (1962) Pan-Americano (Seleção Brasileira - 1956)







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