23h37 29/08/2006

'Eterno' reserva quer virada como técnico

Wágner, campeão mundial sub-20 que admite ter se acomodado no Palmeiras da década de 90, vira técnico na segunda divisão e busca a redenção.

Danilo Valentini, especial para o Pelé.Net

SÃO PAULO - A presença de dois concorrentes que representaram a seleção nas últimas três Copas do Mundo e a estrutura disponibilizada pela Parmalat, que fez do Palmeiras um bicho-papão de títulos nos anos 1990, foram suficientes para transformar o lateral-esquerdo Wagner em uma das tantas promessas do futebol brasileiro que ficaram pelo caminho. E que agora, como técnico iniciante, tenta reconstruir sua carreira de maneira absolutamente contrária a que trilhou como jogador.

Revelado pelo Juventus como um promissor lateral, Wagner Alves dos Santos saiu do distante bairro de Guaianzes, na zona leste de São Paulo, para a seleção brasileira sub-20 que conquistou os títulos do Sul-Americano, em 1992, e Mundial, no ano seguinte.

Currículo suficiente para, aos 20 anos, ser disputado pelos maiores rivais do futebol paulista e, após não ser liberado para o Corinthians, ser emprestado para o Palmeiras justamente em um dos melhores momentos da história do clube, o início do Brasileirão de 1994, que culminaria com o segundo título nacional consecutivo.

O elenco bancado pela patrocinadora, porém, colocou logo de cara na rota de Wagner o então titular Roberto Carlos, que "estava com muita moral mas eu não importava muito", como lembra hoje o ex-jogador e técnico iniciante em clubes da segunda divisão, consciente que a falta de oportunidades, a estabilidade financeira e a seqüência de títulos disponibilizadas pelo Palmeiras acabaram o deixando acomodado mesmo sendo reserva.

"Depois que fui jogar no Palmeiras e consegui realizar o meu objetivo, que era comprar uma casa para os meus pais, acomodei um pouco, nem ligava por ser reserva", relembra Wagner, que hoje se mostra consciente que "gostei no começo porque tinha família pobre e entrou dinheiro bom".

A possibilidade de assumir o posto de titular da equipe após a saída de Roberto Carlos surgiu em 1995, quando o jogador que iria com a seleção para as Copas de 1998, 2002 e 2006 acertou sua transferência para a Inter de Milão. Wagner, porém, bobeou e não atendeu à sugestão de Vanderlei Luxemburgo, que em sua segunda passagem pelo Palmeiras abriu o jogo com o lateral: "ele me falou para eu aproveitar a chance senão colocaria o Júnior".

A dica, no entanto, não foi aproveitada. "A chance era minha e achei que fosse arrebentar, mas não aproveitei", admite Wagner, que diz se mostrar hoje plenamente consciente dos erros que cometeu que não podem mais ser repetidos em sua tentativa de emplacar como técnico.

Wagner parou de jogar em 2005, após uma ciranda sem fim iniciada logo depois que saiu do Palmeiras, em 1998, quando zanzou por Flamengo, Atlético-PR, São Caetano, Portuguesa, Ponte Preta e Brasiliense antes de iniciar uma insólita aventura pelo Paraguai, e posteriormente, o Egito.

Emprestado pelo paraguaio Guarany ao Al-Ahly, que em dezembro do mesmo ano disputou o Mundial de Clubes da Fifa, que acabou tendo o São Paulo como campeão, Wagner acabou tendo problemas alfandegários, ficou retido no aeroporto do Cairo e voltando ao Brasil sem jogar nenhuma partida e com a idéia de jogar mais um pouco antes de abandonar a carreira.

A falta de perspectivas, entretanto, acordou Wagner, que decidiu fazer curso de treinador e sair atrás de estágios, como o que fez por um mês com Luxemburgo, no Santos, e nos juniores do São Caetano, até se arriscar em uma passagem, no mínimo, curiosa.

"Fiquei 20 dias com aquele louco do Israel de Jesus", conta Wagner, citando o presidente e treinador da Matonense, "que me logo avisou que eu tinha de me sujeitar àquele esquema tático dele, o roleta russa, em que centroavante vira zagueiro e lateral vira meia". Descontente com a possibilidade de "só ficar no banco como bobo da corte", decidiu se arriscar.

Assumiu o Palestra, tradicional clube de São Bernardo do Campo, na região do ABC e tentou levar a equipe para a segunda fase da Segunda Divisão do futebol paulista. Fracassou, mas não desanimou e ainda por cima se viu recompensado por ter dado chance a Danilo, atacante de 19 anos surdo e mudo. "Ele não tinha recebido chance nenhuma, peguei para trabalhar comigo e fez três gols no campeonato. Ficou realizado por atingir um sonho que muito brecaram e eu ajudei a conquistar".

O sonho de Wagner, agora, está na distante São Bento do Sul, cidade da região de Joinville com reconhecida produção de móveis em madeira e que tem o time homônimo como um dos participantes da segunda divisão local. "É tranquilinha, típica do interior, estou gostando", conta o ex-jogador, que viajou sem a mulher e os dois filhos para avaliar o futuro que pode construir a partir de agora.

"No futebol de hoje, tem de se aproveitar oportunidades. E infelizmente eu não aproveitei como jogador. Mas hoje estou mais maduro, sei o que quero, e vou tentar agarrar com unhas e dentes. O que não fiz como jogador, vou fazer como treinador", promete Wagner, "com a cara e a coragem e sem a ajuda de ninguém", como fez questão de enfatizar.



  No futebol de hoje, tem de se aproveitar oportunidades. E infelizmente eu não aproveitei. O que não fiz como jogador, vou fazer como treinador
Wagner, admitindo que se acomodou quando jogador
Wagner Alves dos Santos

28/12/1973

São Paulo-SP

Times
- Juventus (1986-1994)
- Palmeiras (1994-98)
- Flamengo (1998)
- Atlético-PR (1998)
- São Caetano (1999)
- Etti-Jundiaí (1999)
- Portuguesa (2000)
- Ponte Preta (2001)
- Brasiliense (2002)
- Guarany-PAR (2003-05)



Títulos
- Sul-Americano (1992) e Mundial Sub-20 (1993), pela seleção
- Brasileiro (1994) e paulista (1994 e 1996), pelo Palmeiras







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