13h20 12/09/2006

Fazendeiro em Minas, Geraldão quer gerenciar futebol

Ex-zagueiro do Cruzeiro, que já foi técnico, cria gado de corte em Governador Valadares, enquanto aguarda a sua volta ao esporte.

Fernando Lacerda, do Pelé.Net

BELO HORIZONTE - Zagueiro viril, que esbanjava força física, Geraldo Dutra Pereira, o Geraldão, surpreendia por sua técnica razoável, que lhe permitia, às vezes, sair jogando da área da sua equipe. Revelado pelo Cruzeiro, chegou à Seleção Brasileira em 1987, pelas mãos do conterrâneo Carlos Alberto Silva, que conferiu um sotaque mineiro ao time canarinho. Transferiu-se para Portugal, onde fez sucesso no Porto como jogador e, mais tarde, consolidou sua carreira como gerente de futebol.

O esporte na vida desse ex-defensor, depois de aposentar as chuteiras, tem sido cíclico. Quando deixou os gramados, em 1993, após atuar pela Portuguesa de Desportos, por seis meses, Geraldão se manteve por três anos, afastado do futebol. "Nesse período, estava cuidando dos meus negócios, especialmente das minhas fazendas", contou o ex-zagueiro celeste, que por força de sua liderança, chegou a ser capitão da Seleção Brasileira.

Geraldão tinha fazendas em Esmeraldas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, em Paras de Minas, no Centro-Oeste do estado e em Governador Valadares, município onde nasceu, há 43 anos, no Vale do Rio Doce. As duas primeiras propriedades foram vendidas. Ficou apenas com a última, onde explora até hoje o gado de corte. Essa fazenda é um dos negócios que o ajudam a se manter nos períodos em que não está trabalhando no futebol.

É o que vem acontecendo na maior parte dos últimos dois anos. "A fazenda é pequena e a agropecuária hoje não é um bom negócio, mas mantenho essa propriedade mais para ter um lugar onde ir e uma ocupação", explicou Geraldão, que passa a maior parte do seu tempo em Belo Horizonte, deslocando-se algumas vezes para Governador Valadares, onde residem familiares, para acompanhar as atividades em suas terras.

O ex-jogador, no entanto, não demonstra disposição para se tornar, permanentemente, um fazendeiro. Admite que a vida rural, por temporadas prolongadas, não o agrada muito. Geraldão reconhece não conseguir viver muito tempo longe da agitação do mundo da bola. Foi isso que o fez fazer um curso de técnico, em 1996, portanto há exatos 10 anos, quando se formou pela Escola de Educação Física do Exército, no Rio de Janeiro.

"Não agüentei ficar afastado muito tempo do futebol", comentou Geraldão, que ao deixar de ser jogador se sentia cansado com a rotina de viagens desgastantes e longas concentrações. Técnico diplomado, o ex-zagueiro começou sua nova carreira no recém-criado Ipatinga, em 1997. No ano seguinte, passou a ocupar o cargo de gerente do departamento de futebol e, ele acredita, descobriu a sua maior vocação.

Após desempenhar por dois anos essas funções no Tigre do Vale do Aço, se mudou para Portugal, onde foi gerente de futebol do Marítimos, da Ilha da Madeira, entre 2000 e 2003. Nesse ano, assumiu o cargo de treinador do time B do Porto e, em 2004, retornou ao Brasil. "Sabia que tinha mais chances de continuar a carreira em Portugal, mas voltei por causa da família. Foi uma opção pessoal", observou.

Opção natural

Segundo Geraldão, os filhos já estavam crescidos e a volta ao Brasil foi a melhor opção. Atualmente, Dandara tem 19 anos e o caçula Guilherme, de 15 anos, começa a seguir os passos do pai, na zaga da equipe da escolinha do América-MG, em Belo Horizonte. "Ele é alto também e atua na defesa", ressaltou Geraldão, que após seu retorno ao Brasil, atuou por quatro meses como técnico do CRB, de Alagoas, em 2005.

Ele representou ainda o Marítimo em terras brasileiras, especialmente como olheiro. Nessa função, ajudou a transferir para Portugal algumas revelações do futebol mineiro, especialmente do Cruzeiro, time do seu coração, que o projetou. Entre outros, foram para o time da Ilha da Madeira, os volantes Fahel e Mancuso, o meia Walter Minhoca e o atacante Kanu.

Desses quatro, Fahel e Kanu ainda atuam no mesmo time, enquanto Mancuso está emprestado ao Belenense, e Walter Minhoca voltou ao Brasil, onde se destacou pelo Ipatinga no Campeonato Mineiro e na Copa do Brasil. Foi contratado pelo Flamengo, não deu certo e retornou ao time do Vale do Aço.

Atualmente, aguarda oportunidades para voltar ao futebol. Não esconde que a sua preferência é pela área de gerenciamento de futebol e acalenta o sonho de ser convidado pelo Cruzeiro para realizar um trabalho junto às categorias de base. Não descarta voltar a atuar como treinador, mas ressalta a falta de estrutura da maioria dos times considerados pequenos e que abrem possibilidades a técnicos com pouca experiência.

"Daqui a pouco os times que vão disputar o Mineiro começam a contratar o técnico, que vai ter de formar uma equipe às pressas, para jogar dois, três meses, isso se o time ganhar, porque bastam duas ou três derrotas para demiti-lo. Essa situação está longe de ser a ideal", afirmou Geraldão, que viveu experiência semelhante no CRB.

"Cheguei lá em janeiro, em fevereiro começamos a disputar o Estadual e a cada dia era um entra e sai de jogadores, que não permite se montar uma equipe",comentou Geraldão, que admite ter uma condição financeira estável e que lhe permite aguardar por uma boa possibilidade de trabalho, sem necessitar de aceitar qualquer desafio.

Carência

"O gerenciamento de futebol é uma área carente de profissionais no Brasil, mas não há também a valorização devida. No meu caso, a dificuldade ainda é maior, porque não sou de me oferecer. Fico esperando convites, esperando o reconhecimento do meu trabalho", disse Geraldão.

Ele procura se manter informado sobre o futebol, embora não seja muito de ir a jogos das equipes principais de Cruzeiro e Atlético. Esses jogos, o ex-beque acompanha pela televisão, na maioria das vezes. Prioriza a ida aos estádios para ver de perto os jogadores da base. "O que mais gosto de ver são os jovens jogadores, embora seja difícil, atualmente, descobrir alguém com potencial nos time menores", comentou.

Geraldão considera que o trabalho de captação der valores desenvolvido por Cruzeiro e Atlético, aliado à infra-estrutura que ambos possuem, faz com que o desnível seja grande. Em relação ao futebol profissional, o ex-zagueiro não está satisfeito com a situação do momento. Lamenta a saída precoce dos jogadores brasileiros, embora considera uma situação irreversível, em razão da diferença enorme de poder financeiro entre clubes europeus e brasileiros.

"Vejo o futebol de hoje sem identidade. Os clubes não conseguem segurar os nossos jogadores, que estão saindo cada vez mais novos", analisou Geraldão, que acompanha com preocupação a queda de rendimento do Cruzeiro no Brasileiro. De líder, o time celeste caiu agora para a nova posição, com 21 pontos, 12 a menos que o São Paulo, o primeiro colocado.

"Acho que o time do Cruzeiro é bom e considera que falta pouca coisa para embalar. O problema é que ninguém descobre o que é esse pouco que falta", observou o ex-zagueiro, que não teme a possibilidade de o seu time do coração brigar para não ser rebaixado à Série B. "O time do Cruzeiro é bom. Para ser campeão é difícil, mas dá para brigar por vaga na Libertadores e, pelo menos, na Sul-Americana", salientou.



  Vejo o futebol de hoje sem identidade. Os clubes não conseguem segurar os nossos jogadores, que estão saindo cada vez mais novos"
Geraldão, ex-zagueiro do Cruzeiro, Porto e Seleção Brasileira, que já trabalhou como treinador, é fazendeiro em Minas e espera atuar como gerente de futebol
Geraldo Dutra Pereira
24/04/1963
Governador Valadares-MG

Times
- Cruzeiro (77-80)
- Al-Arabi, do Qatar (80-83)
- Cruzeiro (83-87)
- Futebol Clube do Porto (88-91)
- Paris Saint Germain (91-92)
- Grêmio (93)
- Portuguesa de Desportos (93)

Títulos
- Mineiro (84 e 87)
- Super Taça Européia, pelo Porto (88)







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