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Zé Roberto: destaque
09h21 13/07/2007

Liberdade transforma polivalência em arma no Botafogo

Líder do Brasileiro, time tem esquema marcado pelas constantes trocas de posições entre os jogadores e usa isso para confundir rivais.

Vinicius Barreto Souto, especial para o Pelé.Net

RIO DE JANEIRO - A Alemanha conquistou a Copa do Mundo de 1974, mas outra seleção foi o principal destaque do torneio. Com um sistema tático revolucionário, marcado pelas constantes trocas de posições entre seus jogadores, a Holanda chegou ao vice-campeonato e apresentou ao mundo a equipe conhecida como "Carrossel Holandês" ou "Laranja Mecânica", em alusão à cor de suas camisas.

Passados 33 anos, o futebol brasileiro tem um caso com uma característica que remete ao sucesso holandês. Líder da atual edição do Campeonato Brasileiro, o Botafogo apostou na polivalência de seus jogadores para superar um início cheio de desconfiança. Assim, conquistou a maior vantagem para um segundo colocado nas dez primeiras rodadas desde que o sistema de pontos corridos foi adotado, em 2003.

NADA DE COMPARAÇÕES
Após perder nos pênaltis para o Flamengo na decisão Campeonato Estadual do Rio e ser eliminado nas semifinais da Copa do Brasil pelo Figueirense, o Botafogo iniciou para o Campeonato Brasileiro rotulado como um time que joga bonito, mas não conquista títulos.

Apesar dessa outra semelhança com a seleção da Holanda de 1974, os alvinegros rechaçam comparações com a "Laranja Mecânica".

"Fazer comparação com uma grande seleção é sempre complicado. Já vi alguns comentaristas falarem isso em relação à seleção brasileira de 82. Mas, contando que as coisas funcionem e a gente seja campeão, diferentemente da Holanda, que não foi, podem colocar qualquer rótulo. E cada comentário do adversário ou da imprensa só motiva a gente. Às vezes, uma crítica mal colocada serve de motivação para nós", disse Túlio.

"Não quero nem fazer esse tipo de comparação. A seleção da Holanda foi um time maravilhoso. Foi vice-campeão do mundo, mas ficou marcado como um timaço. A gente só está jogando bem um campeonato ou dois. Tem de ir devagar", comentou Cuca.

Por outro lado, todos confirmam que, assim como a seleção da Holanda de 1974, o Botafogo de 2007 tem encantado os apaixonados pelo futebol, guardadas as proporções.

"Após o Estadual, no dia seguinte, um torcedor do Flamengo me falou: 'vocês perderam, mas o time de vocês é bom para caramba. Se pudesse trocar esse título pelo time de vocês, eu trocaria, porque seria campeão da Libertadores'. Esse comentário mostrou que os torcedores em geral estão admirando nosso futebol, mas muita gente não está dando o braço a torcer. É isso que nos motiva a querer coroar essas grandes atuações com um título", afirmou Túlio.

"A gente vê que o pessoal está contente, e não é para menos. Neste ano, em 36 partidas, perdemos só três e ganhamos a grande maioria. O Botafogo hoje tem o melhor ataque do Brasileiro, melhor saldo de gols, é o único time invicto e o único que fez gols em todas as partidas. Então, é natural que todo mundo esteja falando bem do Botafogo, mas ponto final. A gente não está se achando o máximo, só passando por um bom momento. Que seja eterno enquanto dure", disse Cuca.

"Vários torcedores, não só do Botafogo, mas também flamenguistas, vascaínos e tricolores, dizem que hoje o Botafogo tem uma equipe que luta, que corre e se doa, mas também joga. Não fica limitada a marcar. Isso tem chamado a atenção das pessoas", contou Lucio Flavio.
"Jamais vou comparar nosso time com a seleção da Holanda. Mas a nossa movimentação, com as mudanças de posição, sem dúvida, também confunde os adversários", comentou o volante Túlio.

"A movimentação e o passe são os dois pontos fortes do nosso time. Os jogadores se mexem bastante e rapidamente ali na frente. Além disso, erramos poucos passes no ataque. Isso é muito importante no futebol", analisou o meia Zé Roberto.

Assim como a Holanda de 1974, o Botafogo de 2007 é um time com jogadores que não guardam posições fixas em campo (guardadas as devidas proporções). Durante as partidas da equipe alvinegra, é comum ver alas desempenhando a função de jogadores de meio-campo e até um dos três zagueiros chegando ao ataque.

Talvez esteja aí a explicação para o sucesso da equipe neste Campeonato Brasileiro. Para exemplificar isso, Túlio lembrou do gol da vitória alvinegra por 2 a 1 sobre o Fluminense, no dia 30 de junho, nasceu de um cruzamento do zagueiro Alex para o atacante Dodô completar de cabeça.

"Esse é o diferencial do nosso time: as trocas que fazemos entre alas e meias e os homens-surpresa que chegam de trás, como os zagueiros. Contra o Fluminense, nosso segundo gol saiu em uma jogada do Alex", recordou o volante, que constantemente troca de posição com o ala-direito Joilson quando o time tem a posse de bola.

"Isso surpreende e faz uma diferença no jogo, que às vezes está truncado. Para sair disso, a gente tenta a subida de um zagueiro, a escapada de um volante ou a troca de posição entre alas e meias. São alternativas que a gente busca para sair daquela marcação que deixa o jogo muito óbvio e o adversário marca muito fácil", continuou Túlio.

O meia Lucio Flavio concorda com o companheiro: "O futebol requer isso. Hoje em dia, a marcação é muito forte. Até pelo fato de todas as equipes serem conhecidas, pelo grande número de partidas que são transmitidas. Então, essa movimentação tem que existir, senão, facilita muito a marcação do adversário".

Para Cuca, liberdade e solidariedade geram a movimentação
Apontado pelos críticos como um dos principais responsáveis pelo bom momento do Botafogo, o técnico Cuca evita contar os segredos de sua equipe. Por isso, ele minimiza a importância da movimentação.

"A gente trabalha a movimentação, mas não é nada de outro mundo. É uma coisa bem básica, feijão com arroz", disse o treinador, que credita as constantes trocas de posições de seus atletas à liberdade e à solidariedade que eles têm.

"Gosto de colocar o jogador onde ele gosta de atuar. Dou essa liberdade. Por exemplo, lá em Brasília [vitória por 2 a 0 sobre o Atlético-PR no dia 7 de julho], quanto tempo o Joilson ficou do lado esquerdo e o Jorge Henrique [ala-esquerdo] do direito? Várias vezes vimos o Jorge trabalhar por dentro e o Lucio fazer o trabalho dele. Várias vezes vimos o Zé Roberto trabalhando do lado e o Joilson atuando como meia", disse.

"Mas eles sabem que, se um está aqui, o outro tem que estar lá. Temos de ocupar os espaços, com e sem bola, senão vira um aglomerado. Como temos repetido o time e treinado bastante esse tipo de situação, eles têm se adaptado bem", continuou.

Para colocar em prática esse estilo, Cuca conta com vários atletas que têm facilidade para atuar em mais de uma função. São os casos, por exemplo, do ala-direito Joilson, que também joga como meia, do atacante Jorge Henrique, que tem sido ala-esquerdo, e do lateral-esquerdo Luciano Almeida, que também faz a função de terceiro zagueiro. Mesmo assim, o técnico disse que a polivalência não é um requisito fundamental para jogar desta forma.

"Não precisa saber jogar em mais de uma posição. É só ter um pouco de sacrifício, ou seja, correr um pouco mais para deixar o companheiro ter mais liberdade. O Zé [Roberto], por exemplo, precisa de liberdade para fazer a jogada dele. Ele vai driblar, às vezes vai passar e às vezes não. É preciso ter a compreensão de que quem joga do meio para frente tem uma dificuldade muito maior do que quem atua atrás. O espaço é menor e a marcação é muito mais forte", disse.

"Às vezes, o Túlio e o Leandro Guerreiro [volantes] fazem gols, o Alex, o Juninho e o Luciano Almeida [zagueiros] dão uma escapada, mas, se eles não tiverem suporte, não conseguem fazer. Para cada caso, alguém tem que ocupar o setor. Não é que o jogador esteja atuando naquela função. Ele está fazendo um sacrifício para o companheiro ter uma liberdade maior. E isso vem muito deles [jogadores]", continuou Cuca.

Com muita obediência tática, os jogadores mostram que assimilaram a filosofia do treinador. "Temos um time com quatro ou cinco atletas que trocam de posição, isso é um fator que contribui. Agora, no momento que o time marca, todos nós sabemos nossas funções. Isso é fundamental, porque não adianta só jogar, também tem que marcar", afirmou o meia Lucio Flavio.

"O Cuca fala que, quando o lateral for para o ataque, tem que atacar como se fosse um meia-atacante, mas, na volta, tem que ser um zagueiro. Tem que voltar correndo como se fosse peça fundamental da defesa. Isso está sendo o nosso diferencial. Nunca abrimos mão de atacar, mas depois que perdemos a bola no ataque, voltamos como zagueiros", declarou o volante Túlio.

Tática 'kamikaze'
Devido à grande liberdade que é dada por Cuca aos seus jogadores, o Botafogo tem um time bastante ofensivo. Tanto que, quando tem a posse de bola, a equipe chega a atacar com sete homens.

São eles os dois alas (Joilson pela direita e Jorge Henrique pela esquerda), os quatro meio-campistas - os volantes Túlio e Leandro Guerreiro e os meias Zé Roberto e Lucio Flavio - e o atacante Dodô, que também se movimenta fora da área. Mas todos se mexem muito na frente e, às vezes, fica difícil identificar quem ocupa determinada posição.

A BASE DO BOTAFOGO
Júlio César; Alex, Juninho e Luciano Almeida; Joilson, Leandro Guerreiro, Túlio, Lucio Flavio, Zé Roberto e Jorge Henrique; Dodô (suspenso por doping, deve ser substituído por André Lima)
"Ás vezes até parece uma tática suicida. Uma vez o Cuca perguntou para o Zé Roberto como se chamava essa tática e ele disse que era kamikaze [risos]. É atacar mesmo com tudo, como se soubesse que o ataque resultará em gol e não precisaremos voltar. E na maioria das vezes, tem sido assim. A gente consegue finalizar, e assim, tem tranqüilidade para voltar, porque não oferece o contra-ataque ao adversário", analisou Túlio.

O meia Lucio Flavio também destacou a ofensividade da equipe. Para isso, ele lembrou da partida contra o Atlético-PR, na qual o time só jogou com um zagueiro de ofício - Juninho -, já que Alex estava suspenso (Joilson atuou em seu lugar) e Luciano Almeida é lateral-esquerdo.

"Nossos dois volantes, Leandro Guerreiro e Túlio, sabem jogar. E no último jogo, contra o Atlético-PR, jogamos com apenas um zagueiro de origem. No Brasil, nenhum outro time faz isso", afirmou Lucio Flavio.




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