07h39 29/09/2008

Fora da mídia, ex-atletas buscam fama e benefício próprio na política

Eleições para vereadores têm presença de muitos candidatos oriundos do esporte, mas a maioria pensa apenas em legislar para legalizar seus projetos.

Guilherme Costa, especial para o Pelé.Net

SÃO PAULO - Independentemente do cargo, todo candidato a uma eleição apresenta áreas em que pretende ter atuação mais incisiva ou criar mais projetos. Alguns transformam essas bandeiras no único foco de suas plataformas de campanha. Isso acontece, com ênfase para o benefício próprio, na maioria dos casos de ex-atletas que tentam recuperar os holofotes por meio da política.

SUCESSOS ANTERIORES
Apesar de a maioria dos candidatos com histórico ligado ao esporte chamar atenção pela falta de consistência em seus projetos, o Brasil tem um histórico de grande grandes sucessos oriundos da atividade física no campo político.

Entre eles, talvez o de maior longevidade tenha sido o goleiro João Leite, que fez grande carreira no Atlético-MG antes de se eleger vereador e deputado. Em 2002, foi o candidato mais votado para a câmara de Minas Gerais, com 122.956 sufrágios.

Em números absolutos, porém, o que chama mais atenção é o caso de Oscar Schmidt. O ex-jogador da seleção brasileira de basquete foi escolhido por 5.752.202 eleitores em 1998, mas isso não foi suficiente para lhe dar uma vaga no senado por São Paulo.

Outro caso de grande repercussão envolveu o meio-campista Biro-Biro, que recebeu 39.198 votos em 1988 e foi eleito vereador na capital paulista. Na época, ele precisou conciliar a carreira política com treinos e jogos.
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A corrida por vagas de vereadores abriga uma série de candidatos com passado ligado ao esporte. Se todos conseguirem ser eleitos e se todos levarem seus principais projetos adiante, a pasta deve ter uma revolução nos próximos quatro anos.

Afinal, para a maioria desses candidatos o esporte não é apenas bandeira ou prioridade; é o único foco. "Meu projeto é levar a atividade física para as crianças, e também revitalizar os campos de várzea. Eu saí de um campo de várzea, mas as crianças não têm mais espaço para jogar atualmente. E eu também quero levar ex-atletas para ensinar essa molecada, mas só para quem tiver notas boas", revelou Dinei, ex-atacante do Corinthians, candidato a vereador em São Paulo pelo PDT.

Dinei é apenas um exemplo entre os candidatos que pretendem usar o esporte para ampliar o campo de trabalho para ex-atletas. Esse também é o principal projeto de Ataliba, outro que jogou no Corinthians e concorre à vereança em São Paulo pelo PTN.

"Minha idéia de campanha é um lema: esporte para todos. Todas as idades, cores, raças, religiões... tudo. Nós atletas temos a nossa cooperativa de ex-craques, que já conta com 82 associados, e a minha idéia é que esses ex-jogadores sejam contratados para dar aulas para crianças carentes", detalhou o ex-jogador.

Outros candidatos vão além da tentativa de aumentar o campo de trabalho para ex-atletas. Suas perspectivas são voltadas a uma oficialização de projetos que são tocados de forma individual atualmente, principalmente no aspecto financeiro.

"Eu tenho 15 escolhinhas espalhadas pelo país, e faço isso voluntariamente. As crianças não pagam nada pelas aulas, e têm uma oportunidade para melhorar suas vidas. Meu foco é esse: quero ampliar e oficializar isso", disse Tarciso, que jogou no Grêmio e concorre pelo PDT em Porto Alegre.

A perspectiva do ex-ponta é extremamente parecida com a projeção de Pelé (DEM), ex-jogador de vôlei, que atualmente trabalha nas categorias de base do Minas Tênis Clube: "Quero levar a facilidade e a estrutura que os sócios têm aqui para a periferia. Com exceção do futebol, o esporte não tem um representante na câmara de Belo Horizonte".

Além do foco, há um fator que aproxima a grande maioria dos candidatos provenientes da esfera esportiva: um foco extremamente limitado. "Eu não tenho outras idéias ainda. Um vereador não tem poder para fazer muitas coisas, e isso cansa um pouco. Não posso ficar prometendo coisas que não são possíveis", comentou Tarciso. "O esporte é algo que agrega várias outras esferas, como saúde e educação", completou Ataliba.

Há um caso ainda mais específico. Não satisfeito com a especificidade de sua campanha, o ex-atacante Dinei busca um foco mais restrito. Aproveitando sua identificação com a torcida do Corinthians, o jogador baseou sua campanha no fato de ser um adepto do clube alvinegro.

"Eu não quero ser vereador de bairro, e sim do Corinthians. Esse foi um dos motivos de eu procurar a política. Quero fiscalizar aqueles ladrões para ninguém meter a mão no clube. Se eu for eleito, não vou deixar que alguém faça o que o seu Alberto [Dualib, ex-presidente] fez lá. Espero que a torcida acredite nisso, porque corintiano vota em corintiano", discursou o candidato.

O ex-nadador Hugo Duppré, candidato a vereador em Santos pelo PSDB, também aposta na integração que o esporte proporciona: "A idéia é uma campanha que tenha todas as coisas muito agregadas. Não estou prometendo asfaltar rua, nem nenhuma coisa irreal. Quero tocar algo voltado ao esporte, que ajude a desenvolver a sociedade em diferentes níveis".

Entre os candidatos egressos do esporte, é unânime a aposta na imagem construída na profissão anterior. Todos eles apostam no potencial para captar eleitores a partir da admiração por seus recordes ou títulos.

Contudo, a imagem vitoriosa pode não ser suficiente para transformar um candidato em vereador eleito. "Há uma diferença muito grande entre as duas coisas. Em geral, esse tipo de indivíduo está acostumado com a mídia e não consegue uma reinserção profissional depois da aposentadoria. Eles buscam na política uma forma de recuperar os holofotes, ainda que seja uma fama passageira, mas isso não quer dizer que sejam eleitos. Os fenômenos de urnas são raros", lembrou Milton Lahuerta, professor de teoria política na Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Araraquara.




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