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Torcida vitimou o clube
12h00 10/08/2006

Vândalos mancham a história do Grêmio

Clube vem sofrendo há mais de uma década com ação de baderneiros que se infiltram entre os torcedores e está pagando caro por isso.

Nico Noronha, do Pelé.Net

PORTO ALEGRE - Não se sabe ao certo o número de torcedores do Grêmio que cultuam o prazer da baderna. Podem ser 30, 40, ou até bem mais do que isso. O clube, após os estarrecedores atos de vandalismo provocados por muitos deles no estádio Beira-Rio, durante o Gre-Nal do último dia 30 de julho, identificou alguns, entre eles sócios que já tiveram suas carteiras cassadas. Por incrível que pareça, um deles era policial militar.

Os vândalos derrubaram grades, atearam fogo em banheiros químicos, apedrejaram bombeiros e, mais do que tudo isso, determinaram um prejuízo ao seu próprio clube que ultrapassa os R$ 2 milhões. Pior: afastaram a equipe dos verdadeiros torcedores por três meses. Nas próximas oito partidas, a começar pela deste domingo, contra o Atlético Paranaense, que será realizada em Caxias do Sul, os jogadores do Tricolor terão como aliado somente o silêncio das arquibancadas.

"Pelo menos também não haverá torcida inimiga" comenta o treinador Mano Menezes, surpreendentemente bem humorado ao abordar assunto tão constrangedor e problemático para o Grêmio. O clube, além do prejuízo enorme de ficar sem oito rendas, que vinham alcançando, em média, cerca de R$ 200 mil, terá de pagar outros R$ 200 mil como multa imposta pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva. Aumentando o rombo num cofre que já estava praticamente vazio, o Tricolor terá de alugar estádios para atuar e, nesse primeiro momento, pagará R$ 15 mil ao Caxias, pela utilização do Centenário.

O Departamento Jurídico do clube que totaliza, atualmente, um montante de dívidas que se aproxima dos R$ 120 milhões, tenta reverter a decisão, apelando para o Pleno do STJD. Ao mesmo tempo, o Conselho de Administração gremista se esforça para dar explicações à sua torcida e promove uma caça às bruxas que vitima até mesmo jornalistas. Um deles, Luis Henrique Benfica, do jornal Zero Hora, publicou reportagem com um especialista em legislação esportiva, que aconselhava procedimentos aos advogados do Tricolor para tentar reverter o caso. Pois a boa intenção revoltou os dirigentes mais do que os próprios atos de destruição praticados no Beira-Rio.

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Torcida incendiou o Beira-Rio
Uma nota oficial foi publicada pelo Grêmio na última terça-feira, na qual foram desprezados os conselhos e conclamados os torcedores para uma cruzada a favor do clube. Terminava assim o texto assinado pelo vice-presidente de administração, Carlos Josias de Oliveira: "Cabe-nos conclamar a todos que querem ajudar o Clube que se engajem nesta luta que objetiva demonstrar que o Grêmio, aqui representando um pouco de todos os clubes, e sua torcida, também representando um pouco de todas, não se confunde com a bandidagem que engrossa a violência que é um mal social".

Nos anos 90 recrudesceu a violência
A confusão causada por parte dos torcedores do Grêmio e que deixou como principal vítima o próprio clube, vem num crescendo há mais de uma década. Já em 17 de outubro de 1993, há quase 13 anos portanto, o time gremista entrou no gramado do estádio Orlando Scarpelli, em Florianópolis, para sofrer 1x0 do Guarani, jogo lá disputado porque perdera o mando de campo por atos de vandalismo que haviam sido provocados no Olímpico, em 29 de setembro, num confronto com o Santos.

O jornal Correio do Povo, no dia seguinte ao tumulto da partida com o Peixe, registrou: "O estádio Olímpico viveu um ambiente de guerra após o jogo. O conflito começou logo após o gol, com um torcedor invadindo o campo para atirar um aparelho de rádio em Léo Feldman" - o árbitro da partida. Na seqüência o jornal detalha que o volante Pingo xingou o árbitro, levou uma cassetada de um policial militar, e que dirigentes também entraram na briga, enquanto a torcida fazia cair sobre o gramado uma chuva de pedras.

Pela mesma confusão, também uma partida contra o Sport Recife, dia 24 de outubro, teve de ser realizada no Scarpelli, na capital catarinense. Aquele foi um ano realmente marcante no histórico de tumultos do Grêmio Football Portoalegrense, de tal forma que em 27 de outubro o time tricolor outra vez teve de pegar campo emprestado, dessa vez o Beira-Rio, do rival Inter, para enfrentar o São Paulo, pela Supercopa. O fato ocorreu como punição a outra enorme confusão que havia ocorrido no seu estádio, em jogo do dia 14 de outubro, contra o Penharol do Uruguai.

No 2x0 sobre o time do país vizinho, torcedores invadiram o gramado e os atletas do Penharol brigaram não apenas com eles, como também com representantes da Brigada Militar, numa "pauleira" poucas vezes vista num campo de futebol. Fábio Koff, então presidente do Grêmio, procurou demonstrar tranqüilidade após a guerra e disse que não temia interdição, pois o Olímpico não era o único estádio onde ocorriam invasões de torcedores. E, como já estava se acostumando a jogar fora de casa, mesmo quando deveria ser mandante, o dirigente lascou, em entrevista ao jornal Zero Hora: "Se tiverem de interditá-lo - o Olímpico -, que o façam, afinal, já vamos jogar em Florianópolis pelo Brasileiro, jogamos fora também pela Supercopa".

E o Grêmio de Koff acabou penalizado com a interdição por seis meses do Estádio Olímpico em decisão do comitê executivo da Conmebol.

2004: mais brigas e o rebaixamento
A temporada 2004, além de ter sido marcada pela queda do clube para a Segunda Divisão do futebol brasileiro, foi outra vez manchada pela bandidagem infiltrada na torcida tricolor. O Grêmio foi obrigado a enfrentar o Palmeiras no estádio Bento Freitas, no interior gaúcho, em 30 de outubro daquele ano, devido ao arremesso de objetos - entre eles um tênis - para o gramado.

No mês seguinte, dia 13, outra vez o campo do Brasil de Pelotas foi tomado emprestado, devido à briga enorme que ocorrera entre os torcedores tricolores e os brigadianos, no Gre-Nal que havia sido disputado dia 24 de outubro. Além da troca de socos e pontapés, a torcida arremessou um carrinho de vender pipocas para o gramado do Olímpico.

Foi um ano tão atípico que o clube ainda disputou mais dois jogos longe do Olímpico, como punição - contra o Atlético-PR, dia 28 de novembro, e contra o Atlético-MG, dia 11 de dezembro - e ainda ficou devendo duas partidas para a temporada seguinte. Foi assim que começou 2005, na Série B nacional, enfrentando o Avaí e o Ituano no Beira-Rio, com portões fechados.

Tantos prejuízos parecem não ter servido de lição, pois a violência não diminuiu e, hoje, o clube está pagando muito caro por essa série de confusões.

O velho torcedor tem saudade dos bons tempos
Salim Nigri, 80 anos, foi diretor de torcida do Grêmio nos anos 40 do século passado. Entrou para a história pela criatividade, pelo amor desmesurado pelo clube e por ter sido o criador de uma frase que ficou para eternidade: "Com o Grêmio, onde estiver o Grêmio". Um pouco alterada, para cair em rima, essa frase foi imortalizada no hino tricolor, composto por Lupicínio Rodrigues. "Com o Grêmio, onde o Grêmio estiver".

Nesta quarta-feira, dia em que o Jurídico do Tricolor ingressava com uma petição no pleno do STJD para reverter a punição sofrida pelo clube pelos atos de vandalismo de seus torcedores, o Pelé.Net foi atrás de Salim, que lamentou tudo o que está ocorrendo com o Grêmio que tanto ama.

No seu tempo havia briga, invasões de campo, banheiros incendiados?
Salim Nigri
- Nada disso. A violência da época era comer uma bergamota e atirar a casca nas costas do bandeirinha. Quanto a banheiro, eu acho que nem havia... O pessoal ia para trás da arquibancada ou um cantinho qualquer para urinar.

Gremistas e colorados conviviam bem no estádio?
Salim Nigri
- Lembro que no campo do Força e Luz não tinha nem alambrado. E só havia um portão. Os colorados tinham de passar na frente da torcida do Grêmio, a um metro de distância e todo mundo se respeitava. O máximo que se fazia era "tocar uma flauta" no adversário.

Lembrando de tudo isso, o senhor sente tristeza pelo que está acontecendo hoje?
Salim Nigri
- O mundo tá assim, violento, e o futebol apenas reflete isso. Cada época tem a sua violência característica. Se nos anos 40 era jogar casca de bergamota, hoje destróem os estádios.

A punição ao Grêmio foi justa?
Salim Nigri
- O Grêmio serviu de bode expiatório. Quem deveria ser punido era esse grupo de baderneiros. Tem horas que a gente chega a pensar na volta da ditadura, para dar castigo a quem realmente merece.




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