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29/11/2009 - 07h00

Luta por Battisti deixa apoiadores no vermelho, mas vale a pena, diz militante expulsa do STF

Kamila Fernandes
Especial para o UOL Notícias
Em Fortaleza

Você é a favor ou contra a extradição de Battisti?

A luta contra a extradição de Cesare Battisti tem saído caro para o bolso do grupo Crítica Radical, movimento sediado em Fortaleza que prega a "morte" da política e do capitalismo. Já são R$ 11 mil em dívidas, parte com a publicação de um livro, "O Caso Battisti: a Farsa", parte com passagens aéreas para Brasília, alimentação, deslocamento.

O grupo ganhou visibilidade nacional na semana passada, quando uma de suas líderes, a ex-vereadora de Fortaleza Rosa da Fonseca, foi retirada na marra do plenário do STF (Supremo Tribunal Federal) até ser jogada do lado de fora pelos seguranças da Corte.

Pró-Battisti

  • Kamila Fernandes/UOL

    Rosa da Fonseca, do grupo Crítica Radical

  • Fernando Bizerra/EFE - 18.nov.09

    Acima, Rosa é jogada para o lado de fora do palácio do Supremo Tribunal Federal em Brasília

Para Rosa, apesar das dívidas, todo o sacrifício vale a pena, já que o caso extrapola o próprio Battisti: traz à tona a situação de milhares de presos políticos no mundo, muitas vezes relegados à própria sorte.

Ontem, no retorno de Rosa a Fortaleza, militantes de movimentos sociais e partidos políticos fizeram um tributo de solidariedade a ela pelas agressões sofridas no STF. A Associação 64-68 Anistia pretende até mesmo liderar um manifesto público de repúdio, com embasamento jurídico, ao STF. "O Supremo ficou à margem da democratização e esse caso trouxe isso à tona", disse Mário Albuquerque, presidente da associação.

Rosa narra ter sido agredida, assim como outras militantes do grupo, apenas por ter gritado "Liberdade a Cesare Battisti". "Foi a expressão do ódio por não conseguirem impedir que nós nos manifestássemos", disse.

Durante as declarações de solidariedade, houve até comoção entre integrantes do movimento de anistia, ao comparar as agressões sofridas por Rosa às perseguições políticas vividas por eles mesmos ou por familiares no período da ditadura militar. "Quando vi a imagem da Rosa jogada no chão, pensei na minha mãe, que por tanto tempo correu de porta em porta para lutar contra as arbitrariedades impostas aos filhos", disse Cristina Fonseca. "Se mamãe estivesse viva, também estaria protestando agora."

Vínculos
Não é antiga a ligação do Crítica Radical com Battisti. Até ele ser preso no Rio de Janeiro, em fevereiro de 2007, ninguém do grupo sabia da existência dele ou de tantos presos políticos na Itália (estima-se que sejam mais de 1.000 pessoas). O grupo é bastante atuante em Fortaleza, onde prega, a cada eleição, a "greve do voto", com fortes críticas à democracia representativa.

O vínculo recente com Battisti não impede que agora os integrantes do Crítica relatem tudo com detalhes e defendam a inocência do italiano, condenado à prisão perpétua na Itália por assassinatos cometidos na década de 1970. "Ele foi julgado à revelia, sem qualquer prova, apenas com depoimentos contraditórios. E Cesare nega a autoria dos crimes", disse Maria Luiza Fontenelle, ex-prefeita de Fortaleza e também integrante do Crítica Radical.

"Também nós, na época da ditadura, éramos chamados de terroristas", disse Albuquerque. "A luta pela anistia é por todos os presos políticos, e está mais do que claro que Battisti foi condenado por uma perseguição", disse Rosa. "Quer contradição maior do que termos no Brasil agora até homenagens oficiais a militantes como Carlos Marighella e Carlos Lamarca, que participaram da luta armada contra a ditadura, e manter Battisti preso, negando a ele o refúgio? Isso é uma aberração ao que está garantido na Constituição."

Rosa disse se ressentir de uma participação mais intensa dos movimentos sociais nessa questão, ao vivenciar uma enorme dificuldade em mobilizar mais gente em Brasília para engrossar a pressão contra a extradição - só bem perto do julgamento, estudantes da UnB (Universidade de Brasília) e sindicalistas começaram a participar. "Por que tanto silêncio nos movimentos sociais? Por que essa servidão voluntária? Por que admitir que o Supremo não pode ser contestado? A liberdade de expressão não pode ser cerceada", disse Maria Luiza.

Ainda assim, o grupo considera que o STF só decidiu deixar nas mãos de Lula a decisão final porque houve pressão popular. "Se não fosse o movimento e a greve de fome do Battisti, isso com certeza não teria acontecido", disse Rosa. "É a ditadura do Supremo."

Para ela, estar nas mãos de Lula já é uma "meia vitória", já que, numa audiência com Gilberto Carvalho, chefe de gabinete do presidente, foi dada uma sinalização de que ele poderá optar mesmo por manter o italiano no país.

Apesar disso, a mobilização pela permanência de Battisti não deve acabar. O grupo prepara novas ações para pressionar agora o presidente a tomar a decisão e anunciar a libertação do italiano ainda antes do aniversário dele, em 18 de dezembro.

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