UOL Notícias Política
 

16/01/2010 - 07h00

Força do PT paulista já é menor, diz Marcelo Déda

Do UOL Notícias
Em Brasília
O governador de Sergipe, Marcelo Déda (PT), afirma em entrevista ao colunista do UOL Notícias e da Folha de S. Paulo Fernando Rodrigues que a eleição do ex-senador sergipano José Eduardo Dutra para a presidência nacional do PT, em 26 de novembro de 2009, marca o fim do "paulistanismo excessivo" no partido e relata em detalhes episódio no qual quase morreu ao operar o pâncreas.



"São Paulo é importante, mas não esgota o PT. José Eduardo Dutra entrou para consolidar uma nova direção que reflete o momento do partido. (...) O PT hoje é um partido nacional, que ponderou melhor a representatividade das regiões. Estamos começando a produzir resultados [no Nordeste] e em alguns fatos o discípulo [PT nordestino] está ultrapassando o mestre [PT paulista]", disse o governador.

A avaliação de Déda se soma às criticas realizados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em dezembro passado. Em conversa informal com jornalistas em 21 de dezembro de 2009, Lula disse: "O PT [paulista] só faz aliança pela esquerda. É a soma do zero com o zero, não acrescenta nenhum segmento novo. Precisa procurar gente de fora. Não sei se é partido, não sei se são figuras políticas".

Uma semana depois, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, Lula voltou a criticar o PT paulista. "Antes, a gente perdia eleições porque o PT era metido à besta, não fazia aliança política, queria sair sozinho", disse o presidente.

Marcelo Déda disse ainda que a influência de partidos ligados ao governo do presidente Lula no Nordeste será reforçada pelo resultado das urnas em outubro. Segundo ele, a grande popularidade do presidente aliada a uma nova geração de políticos nordestinos está contribuindo para superação de "oligarquias tradicionais".

Déda venceu a eleição para o governo de Sergipe no primeiro turno em 2006 e é candidato à reeleição.

Eleição presidencial
Ao falar sobre a eleição presidencial deste ano, Déda disse que o desempenho da ministra Dilma Rousseff nas últimas pesquisas é "extraordinário" e "superou as expectativas" do partido. "Prevíamos algo em torno de 20% [das intenções de voto] na virada do ano, e ela ultrapassou isso. A Dilma é uma candidata em ascensão", declarou.

Para o governador, um fator relevante na trajetória de Dilma foi o comercial do partido na TV (veja aqui, veiculado em 10 de dezembro de 2009 -dirigido pelo publicitário João Santana, o mesmo que conduziu o marketing da reeleição de Lula em 2006. "O programa cumpriu um papel positivo e foi responsável por essa consolidação de Dilma", disse Déda.

Para o governador, os bons resultados, no entanto, não podem levar a um "excesso de confiança". "Nós consolidamos nossa candidata, criamos essa condição. Mas excesso de euforia, em política, é véspera de suicídio. A disputa vai ser dura e não dá pra entrar com sapato alto", disse Déda.

O governador prevê um cenário polarizado entre José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT), sem grandes chances para candidatos "alternativos" como Ciro Gomes (PSB) e Marina Silva (PV).

"O Serra vai vir forte porque é conhecido e governa o maior Estado do país. Mas ele já está estabilizado [nas pesquisas], enquanto a Dilma está crescendo. Não há um favorito. [...] Em tempos de grande radicalização política, de embate entre dois projetos, é difícil que uma terceira via consiga força para se destacar", avaliou Marcelo Déda.

Para o governador, os fatores que mais irão pesar a favor da candidatura de Dilma são a estabilidade econômica e o apoio de Lula. "O diferencial vai ser Lula de manga arregaçada nos palanques", disse.

De acordo com Déda, a superação da polêmica inicial que moveu a escolha do nome de Dilma uniu o PT em torno da candidatura. "Os números provam que Lula estava certo quando escolheu a Dilma. É natural, assim como em qualquer democracia, que o partido aceite a influência de um político importante como ele."

Segundo o governador, a inexperiência eleitoral de Dilma não é um problema. "Vivência política não é a mesma coisa que vivência eleitoral e a Dilma tem muita vivência política. Hoje todo mundo já sabe que ela é candidata no Nordeste, e se ela é candidata, já é política."

Indagado sobre a escolha do vice na chapa de Dilma, Déda disse que a aliança estratégica com o PMDB deve ser o grande motivador da escolha. "O PMDB deve indicar o vice. O nome do [deputado] Michel Temer é quase unanimidade", disse o governador.

Em 10 de dezembro de 2009, o presidente Lula declarou que o PMDB deveria apresentar uma lista com três nomes para que Dilma pudesse escolher seu vice. A declaração provocou mal-estar e abalou a relação entre os dois partidos.

Em desacordo com o presidente, Marcelo Déda acredita que "o método de escolha do vice deve ser o que for melhor para o PMDB". "Se há aliança é preciso dar liberdade de escolha ao aliado", disse o governador.

Polêmica PNDH-3
Em 21 de dezembro de 2009, Lula lançou o Programa Nacional dos Direitos Humanos, o PNDH-3 (Veja a íntegra aqui). Instituído por decreto presidencial, o programa provocou a reação de vários setores da sociedade, entre eles a Igreja Católica, as Forças Armadas e os produtores rurais. A polêmica envolve temas como legalização do aborto, direito dos homossexuais, conflito pela terra e responsabilização de torturadores por crimes cometidos durante a ditadura militar (1964-1985).

"Eu acho que o Plano [Nacional de Direitos Humanos] foi aprovado de afogadilho, sem ter produzido um consenso mínimo no governo. Faltou conversa", disse Marcelo Déda.

O governador mencionou a falta de informação do presidente Lula como uma das razões para o problema. "Acho que o presidente não foi devidamente informado sobre o tema. Será que ele concordaria se soubesse que seria obrigado a retirar o crucifixo que ocupa um lugar central em seu gabinete?", disse Déda, referindo-se a trecho do PNDH-3 que trata do fim da utilização de símbolos religiosos em prédios públicos.

Um dos fundadores do PT em Sergipe e militante de esquerda na época da redemocratização, Déda acredita que o caráter conciliatório da transição brasileira foi bom para o país. "Não podemos jogar a transição fora agora. Foi ela quem assegurou os primeiros 25 anos de democracia plena no país."

A solução para o problema, segundo o governador, deve vir pelo diálogo. "É nosso dever encontrar uma fórmula que preserve a democracia e a institucionalidade sem abrir mão de explicar esse passivo da tortura. É como uma terapia de casal. É preciso deixar os dois falarem para criar condições de convivência. A reconciliação não pode ser pela força", disse Déda.

Saúde e drama pessoal
O ano de 2009 foi conturbado para o governador de Sergipe. Acusado de abuso de poder econômico e político nas eleições de 2006, foi ameaçado de cassação. Enfrentou desgaste público. O processo ainda tramita na Justiça Eleitoral, mas dificilmente será encerrado antes do final deste ano, quando termina o mandato do petista.

Em julho, chegou o quinto filho de Déda, que nasceu prematuro e precisou de cuidados especiais. Pouco tempo depois, o governador enfrentou graves problemas de saúde. Quase morreu. Por conta deles, ficou 100 dias afastado do governo de Sergipe, deixando em seu lugar o vice Belivaldo Chagas (PSB).

Em setembro, um check-up de rotina detectou a presença de um nódulo em seu pâncreas. De acordo com o diagnóstico médico, realizado no hospital Sírio Libanês, em São Paulo, o nódulo poderia evoluir para um câncer. Déda teve de fazer uma cirurgia para removê-lo.

"Descobrir [que pode estar com câncer] é uma das situações mais difíceis que alguém pode passar, é um impacto extraordinário", disse o governador, que afirma ter pensado muito no caso do ator Patrick Swayze (1952-2009), que morreu em decorrência de um câncer no pâncreas.

Depois de 24 horas da descoberta, autorizou a cirurgia. Teve um pós-operatório complicado. Ocorreu uma infecção no local onde estava o dreno na região do seu abdome. Passou 22 dias internado. Obteve alta e voltou para Sergipe. Menos de um mês após a operação começou a sentir fortes dores. Estava com aderência -uma obstrução intestinal por conta do deslocamento dos órgãos quando da remoção do nódulo. Déda teve de fazer uma nova cirurgia.

"Foi um momento muito difícil, quase de depressão mesmo. Tive de deixar o governo, enfrentei o medo da morte. O futuro é a matéria-prima da política e houve um momento em que a idéia de futuro sumiu na minha cabeça. Isso te leva a um reflexão profunda, que é muito dolorida", disse o governador.

Déda perdeu 14 quilos. Até hoje ainda sofre de anemia. Voltou ao governo em 11 de janeiro de 2010. "Há um processo que te leva a ver a vida, e tudo que faz parte dela, de um jeito diferente. A prática da política tem que aprender a lidar com isso. Um drama como esse, também ajuda a consolidar convicções", avalia o governador.

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    12h29

    -1,16
    3,855
    Outras moedas
  • Bovespa

    12h32

    1,62
    99.201,37
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host