Líderes do PSOL veem aproximação com PT, mas negam "aval" de Lula a Boulos

Mirthyani Bezerra

Do UOL, em São Paulo

  • Marcelo Chello/Estadão Conteúdo

    5.mar.2018 - Ao lado de Juliano Medeiros (d), Guilherme Boulos se filia ao PSOL para ser pré-candidato à Presidência da República

    5.mar.2018 - Ao lado de Juliano Medeiros (d), Guilherme Boulos se filia ao PSOL para ser pré-candidato à Presidência da República

O coordenador nacional do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto), Guilherme Boulos, se filiou na tarde desta segunda-feira (5) ao PSOL para ser o candidato do partido à Presidência da República nas eleições deste ano. A pré-candidatura será validada durante a Conferência Eleitoral do partido marcada para o próximo sábado (10), em São Paulo. O nome, porém, trouxe divergências entre as lideranças.

O economista Plínio de Arruda Sampaio Jr. e a ex-deputada Luciana Genro questionam a pré-candidatura de Boulos, por enxergarem na proximidade dele com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) uma contradição, já que o partido surgiu em 2004 de um racha dentro do PT. Outros nomes, porém, como o presidente Juliano Medeiros, reconhecem que os objetivos do PSOL são distintos dos do Partido dos Trabalhadores, mas veem uma tentativa de aproximação.

Para Medeiros, não é possível que a relação do PSOL com o PT seja a mesma da época em que o partido foi criado, porque "vivemos um contexto muito diferente". Segundo ele, quando o PT era governo, estabeleceu alianças com forças políticas que divergiam da ideologia do PSOL. A situação atual, porém, é outra.

"O contexto atual é muito diferente, no qual o governo que hoje governa o país é um governo ilegítimo, fruto de um golpe parlamentar e o PT faz parte da oposição a esse governo. Não é possível ter uma relação com o PT idêntica à que tínhamos 15 anos atrás. O que não significa que vamos assumir qualquer discurso de adesão. Mantemos nossa autonomia, mas vamos buscar entendimentos com o PT", disse ao UOL, sinalizando uma aproximação entre os dois partidos.

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Lula chegou a enviar um vídeo, veiculado durante evento do último sábado (3) que chancelou a candidatura de Boulos, em que elogiava e apoiava a postulação do líder do MTST ao Planalto. O petista é o pré-candidato de seu partido à corrida presidencial, embora esteja, em tese, inelegível pela Lei da Ficha Limpa por uma condenação em segunda instância por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex do Guarujá (SP).

O vídeo foi visto como uma espécie de "aval" de Lula à pré-candidatura de Boulos. Nesta segunda, porém, o deputado Federal Ivan Valente (PSOL-SP) foi categórico ao afirmar que não houve nenhum tipo de "validação" do ex-presidente.

"O Lula não validou nada na candidatura do Boulos. Boulos não entrou no PSOL com o aval do Lula, o aval foi do PSOL. O Lula tem apenas uma relação boa com o Boulos", disse.

O líder da bancada do PSOL na Câmara dos Deputados disse ainda que a ideia de que Lula vai estar no palanque do PSOL durante a campanha de Boulos é "irreal". No vídeo, o petista afirmou que esperaria um convite para estar ao lado de Boulos na corrida eleitoral e o convidava para fazer parte do seu.

"Ele não vai estar em palanque nenhum. Nosso palanque é para formar um novo projeto de esquerda, superando a conciliação que o próprio Lula incentivou", afirmou Valente.

Mas apesar das divergências, o deputado disse que não se pode negar a história que os dissidentes do PT e fundadores do PSOL "construíram juntos".

"E tem uma base petista que tem muitas saudades do velho PT, construído de baixo para cima, na década de 80, e que gerou tanta expectativa no povo brasileiro. O PSOL é o partido que mais resgata essa questão ideológica, programática, idealista. Tem muito petista que vota no PSOL", disse.

"Craque mal chegou e já vai ser titular"

Sobre as divergências internas, Juliano Medeiros afirmou que não há preocupações quanto às consequências para o partido. "É um processo novo para a gente. É a primeira vez na história do PSOL que o PT está na oposição junto com a gente. É um processo que, evidentemente, leva um tempo até que o partido possa digeri-lo e possa compreender os desafios que esse novo momento traz.

Diante das críticas de que Boulos seria um "novato" no partido e que não deveria ser o candidato do PSOL à Presidência, o deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ) comparou o líder do MTST a um "craque". "Ele é craque do futebol, que mal chegou e já vai ser do time titular. Hoje se filia com aval não de uma figura pública, mas por artistas e religiosos, peões e acadêmicos. (Sábado) Vamos dialogar e debater com outros que estão colocados. Será um dia cheio de clássicos", finalizou a analogia. 

Boulos disse respeitar quem se opõe ao seu nome como candidato. "A pluralidade é necessária a qualquer partido político. Espero que meu nome seja definido pela conferência. Eu não sou ainda o candidato do PSOL. Essa pré-candidatura não é somente do PSOL, expressa uma aliança do partido com os movimentos sociais", disse ele, minimizando sua relação com Lula. "Eu acabei de assinar uma ficha do PSOL [e não do PT]. Acho ruim que determinados setores prefiram fazer essa confusão. Mas como filiado farei parte desse debate político".

Segundo as lideranças do partido, o nome de Boulos como pré-candidato foi aprovado na Conferência Nacional realizada em dezembro do ano passado, que definiu lideranças nacionais e regionais. Medeiros afirma que 27 mil filiados foram consultados sobre a possibilidade e que o nome de Boulos foi aprovado por 70% dos que estavam presentes. 

No sábado, os 126 delegados eleitos na Conferência do ano passado votarão em um dos quatro nomes que estão no páreo: além de Boulos, disputam o posto Plínio de Arruda Sampaio Jr, Nildo Ouriques, Hamilton Assis e Sônia Guajajara. Sônia vai retirar a sua postulação para integrar a chapa de Boulos como vice.

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