Pré-candidato, Bolsonaro usou missão oficial na Ásia para "se promover"

Gustavo Maia

Do UOL, em Brasília

  • Osny Arashiro 25.fev.2018/Folhapress

    O deputado Jair Bolsonaro é recebido por apoiadores em Hamamatsu, no Japão

    O deputado Jair Bolsonaro é recebido por apoiadores em Hamamatsu, no Japão

Em missão autorizada pela Câmara, o pré-candidato à Presidência e deputado federal Jair Bolsonaro (PSL-RJ) esteve na semana passada na Ásia para, segundo ele, "trazer ensinamentos, olhar e ver como é que é" o sistema educacional de três países. Enquanto participava da viagem, o presidenciável usou suas redes sociais para divulgar vídeos e fotos em tom de campanha que relatavam as andanças pelo Japão, Coreia do Sul e Taiwan.

Questionado pela reportagem do UOL sobre se aproveitou a missão oficial para fazer campanha, Bolsonaro sorriu ironicamente e respondeu: "o parlamentar, em qualquer lugar que ele está, não deixa de estar se promovendo. Isso é automático. Assim como quando está num local inadequado, ele faz uma campanha contra ele. Nós, parlamentares, queremos ser reconhecidos pelo lado positivo".

Sentado ao lado de outros deputados que integraram a comitiva atrás de uma mesa coberta por bandeiras do Brasil em Taiwan, na última sexta-feira (2), ele discursou para membros da comunidade brasileira que vive no país sobre os planos de governo caso seja eleito. "Com exemplo, [a gente] chega lá. Ninguém governa sozinho. Não existe salvador da pátria", afirmou Bolsonaro. O encontro foi transmitido ao vivo pelo Facebook.

Em entrevista nesta quarta (7), em Brasília, o deputado declarou que não foi a passeio para a Ásia. "Se fosse passear, teria ido com minha esposa, com meus filhos, num hotel bacana", disse.

Os três filhos do presidenciável --Eduardo, deputado federal por SP; Flávio, deputado estadual do Rio de Janeiro; e Carlos, vereador da capital fluminense—integraram a comitiva. "Eu não fui para a Coreia do Norte, nem para Cuba, nem para a Venezuela, como a petralhada sempre faz", completou.

A viagem ocorreu entre os dias 22 de fevereiro e 3 de março. As ausências do deputado nas três votações em plenário nesse período foram consideradas "justificadas". Por isso, não houve desconto no salário dele, como acontece em caso de faltas sem justificativa.

Segundo a assessoria da Presidência da Câmara, que autorizou a ida dos deputados, a missão dos deputados transcorreu "sem ônus" para a Casa.

Os parlamentares, por sua vez, informaram que custearam toda a viagem, que foi organizada por Onyx Lorenzoni (DEM-RS), amigo de Bolsonaro e coordenador informal de seu programa de governo. Além dele, também participou o deputado Luiz Nishimori (PR-PR), presidente do Grupo Parlamentar Brasil-Japão, da Câmara.

As missões oficiais devem ser autorizadas "para o cumprimento de deveres inerentes ao mandato que exercem na Câmara dos Deputados". Após as viagens, os parlamentares têm 15 dias para entregar um relatório comprovando "o interesse público inerente" a elas. O gabinete de Lorenzoni informou que o documento está sendo formulado e seria disponibilizado em breve no sistema da Casa.

Segundo apurou o UOL, a autorização de missões oficiais pela Câmara é bastante comum e, se não houver custos para a Casa, o procedimento é considerado mais simples, praticamente automático.

Ao ser indagado sobre se a missão se reverterá de alguma forma para o seu mandato, Bolsonaro afirmou ser "lógico", porque a viagem trouxe ensinamentos sobre o sistema educacional dos países que podem servir para que ele apresente eventuais emendas a projetos na área. Ele citou ainda viagens realizadas no ano passado a Israel e Estados Unidos para explicar que "isso tudo soma".

No Twitter, o presidenciável escreveu que suas idas ao exterior têm "deixado cada vez mais claro o norte que queremos para o nosso Brasil, algo bem diferente do que foram os governos anteriores, simpáticos a regimes comunistas, fiéis e adestrados pelo Foro de São Paulo [conferência internacional de partidos e organizações de esquerda]".

Os afazeres da comitiva na Ásia variaram de encontros com ministros da educação e jantares com embaixadores a visitas a escolas, faculdades, empresas de tecnologia e à zona desmilitarizada entre Coreia do Sul e Coreia do Norte.

"Fomos bem recebidos pelas autoridades, ministros. Foi uma viagem rápida. Fomos ver como funciona o ensino, a ciência e tecnologia deles. A gente lamenta, mas não dá para comparar com o nosso. A gente fica muito triste", declarou.

"Estive em várias escolas públicas. A palavra principal do próprio ministro da Educação da Coreia do Sul foi 'seriedade'. Fiz imagem com a garotada lá. O ensino é de qualidade e é público. O ensino superior é totalmente particular. Há uma competição enorme entre eles", explicou o deputado.

Para o presidenciável, não há outra maneira de se alcançar o sucesso de um país "se não for jogando pesado no ensino de qualidade, na base". "Aqui vai ser difícil, tem que mexer no currículo escolar. Parte dos professores são militantes", reclamou.

A entrevista para o UOL, ocorrida no plenário da Câmara dos Deputados, foi registrada em vídeo pelos celulares de dois assessores do deputado. "A princípio, a gente grava tudo", anunciou Bolsonaro.

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