Costuras políticas travam palanques presidenciais e "dobradinhas" no Rio

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

  • Arte/UOL

    Os presidenciáveis Geraldo Alckmin (à esq.), Marina Silva (centro) e Jair Bolsonaro (à dir.)

    Os presidenciáveis Geraldo Alckmin (à esq.), Marina Silva (centro) e Jair Bolsonaro (à dir.)

O presidenciável Geraldo Alckmin (PSDB) conseguiu se coligar nacionalmente ao bloco conhecido como centrão, capitaneado pelo Democratas, mas em tese não terá em seu favor o palanque de Eduardo Paes (DEM), um dos nomes fortes na disputa pelo governo do Rio de Janeiro.

O mesmo ocorre em relação à aliança no estado entre a Rede, da presidenciável Marina Silva, e o Podemos, de Álvaro Dias. A candidata já avisou que não fará campanha junto ao postulante do Podemos ao governo fluminense, Romário, também apontado virtual favorito na briga pelo Executivo fluminense.

A falta de um palanque sólido no Rio também é comum ao presidenciável Jair Bolsonaro (PSL). Ele fará campanha tão somente ao lado do filho, o deputado estadual Flávio Bolsonaro (PSL), que tentará o Senado. O candidato aposta alto na sua popularidade e na fama de "mito" ante o eleitor do RJ, estado pelo qual é deputado federal há sete mandatos.

Segundo especialistas ouvidos pelo UOL, as costuras políticas no contexto fluminense acabaram por travar o palanques presidenciais e reduzir o alcance das chamadas dobradinhas --quando os candidatos ao governo e à Presidência tentam, juntos, conquistar a preferência do eleitorado. O Rio é o terceiro maior colégio eleitoral do país, com quase 12,5 milhões de eleitores.

O impacto será sentido, avalia o historiador e cientista político Francisco Carlos Teixeira da Silva, principalmente durante as atividades de campanha nos municípios do interior do estado, quando os candidatos são recebidos e cortejados pelos prefeitos.

"Tecnicamente, os presidenciáveis perdem muito. Isso porque os prefeitos sempre foram importantes nesse processo. As coligações locais permitem esse diálogo com as prefeituras. A propaganda na TV é importante, mas as prefeituras são fundamentais", disse Silva, que é doutor em Ciências Políticas pela Universidade de Berlim e professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

O acadêmico diz entender que a falta de robustez dos palanques presidenciais no Rio está relacionada com o declínio de poder do MDB no estado.

A legenda dominava a política local desde 2006, quando Sérgio Cabral, hoje preso e condenado na Lava Jato, elegeu-se governador pela primeira vez. Dois anos depois, Paes, hoje candidato pelo DEM, venceu a batalha pela prefeitura da capital.

"O MDB era o partido que tinha a máquina no Rio de Janeiro, mas tudo o que vem ocorrendo acabou gerando uma situação excepcional. Praticamente todas as lideranças do partido foram presas [além do próprio Cabral, foram detidos o deputado estadual Jorge Picciani, o ex-deputado federal Eduardo Cunha, entre outros]. Dessa forma, tornou-se inviável para o MDB usar a sua máquina em condições efetivas para influenciar na campanha eleitoral", explicou.

O próprio MDB é um caso que evidencia o enfraquecimento dos palanques presidenciais no Rio. A sigla tem candidato a presidente, o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles, mas desistiu de lançar um nome na disputa pelo governo do estado e se juntou à chapa de Paes --que também é apoiado pelo PSDB, de Alckmin.

A aliança do MDB com seu ex-filiado marca o fim da gestão do atual governador, Luiz Fernando Pezão (MDB), que sucedeu Cabral em 2014. É o encerramento da hegemonia do MDB no Executivo fluminense após 12 anos.

Dividido entre duas candidaturas à Presidência da República (Alckmin e Meirelles), Paes já afirmou em entrevistas que não pedirá votos a concorrentes ao Palácio do Planalto. "O mais conveniente é que eu não tenha nenhuma candidatura presidencial de preferência", disse ele em 26 de julho, ao falar pela primeira vez como pré-candidato ao governo.

"Na medida que você monta uma aliança tão ampla como a que eu estou montando e esse foi o meu objetivo desde sempre, unir forças que pudessem pensar o estado e não necessariamente pensassem igual a mim, você teria a possibilidade de ter presidentes em candidaturas distintas. Portanto, é uma questão de consideração política que eu não me envolva diretamente em nenhuma candidatura presidencial", reforçou Paes após anunciar a adesão do PPS à coligação, em 1º de agosto.

"Melhor sozinho do que mal acompanhado"

A pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre o Congresso, da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), Carolina de Paula disse que a definição dos palanques também "depende muito de quem se quer ao lado", ou seja, dos critérios de seleção de cada candidato.

"Não adianta só ter um palanque. Vai subir com quem? Alguns candidatos a presidente podem acabar perdendo votos em vez de ganhar", ponderou.

A especialista, pós-doutoranda em Ciência Política pela Uerj, declarou que às vezes é "melhor andar sozinho do que mal acompanhado". Ela citou como exemplo o caso de Jair Bolsonaro, que, embora isolado no Rio, acaba se "diferenciando" por não se coligar com representantes da "velha política".

"Para o Bolsonaro, qual é a diferença estar ou não no palanque de um candidato ao governo do Rio? Ele é o favorito, segundo as pesquisas realizadas até agora, fazendo campanha sozinho. Talvez ele perca um pouco no sentido eleitoral, mas ganha em um sentido de exposição, um argumento", avaliou.

"Não ter um palanque nessa situação que está o Rio não é necessariamente ruim."

Outros candidatos

O senador Romário também é cercado por duas candidaturas à Presidência: a de seu partido, com Álvaro Dias, e a de Marina Silva (Rede). No entanto, a aliança se restringe ao contexto local. Dessa forma, Marina não subirá no palanque do postulante ao governo fluminense.

Em troca do apoio, Romário pedirá votos ao candidato da Rede ao Senado, Miro Teixeira.

Alguns presidenciáveis têm dobradinhas garantidas no Rio. Entre eles, Ciro Gomes, cujo partido, PDT, lançou o deputado estadual Pedro Fernandes ao Executivo estadual; e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), preso em Curitiba.

Independentemente da questão jurídica envolvendo o registro da chapa de Lula, sua campanha será defendida pela candidata petista ao governo, a professora de filosofia e escritora Marcia Tiburi.

Guilherme Boulos, presidenciável do PSOL, fará campanha ao lado do correligionário Tarcísio Motta. O Novo divulgará as candidaturas de Marcelo Trindade (governo do estado) e João Amoêdo (Presidência da República).

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