Vice de Bolsonaro, general exalta legado da ditadura e ataca "ativismo gay"

Diego Toledo

Colaboração para o UOL, em São Paulo

  • Pedro Ladeira/Folhapress

    General Antonio Mourão durante sua despedida do Exército em fevereiro de 2018

    General Antonio Mourão durante sua despedida do Exército em fevereiro de 2018

Aos 64 anos, o general da reserva gaúcho Antonio Hamilton Mourão diz ter vivido um dos momentos de emoção mais forte de sua vida na última tarde de domingo. Depois de mais de quatro décadas na vida militar, Mourão (PRTB) foi confirmado como vice na chapa do deputado federal e capitão reformado Jair Bolsonaro (PSL) na disputa pela Presidência da República.

"Desde o começo, eu sempre estive à disposição do deputado Bolsonaro para participar dessa empreitada, em qualquer situação que fosse", afirmou Mourão, em entrevista ao UOL, na última semana.

"Estou pronto", acrescentou. "O vice não pode ser uma pessoa que atrapalhe, muito pelo contrário, tem que ser uma pessoa que construa. É o 02, o segundo em comando, aquele que tem que fazer um trabalho que conceda liberdade de manobra para o presidente, sem interferir demais nas decisões que o ele tenha que tomar."

Desde 1972 no Exército, Mourão passou para a reserva em fevereiro deste ano. No mês seguinte, filiou-se ao PRTB e chegou a ser cogitado como possível candidato à Presidência. Logo em seguida, no entanto, sinalizou o seu apoio a Bolsonaro.

Há alguns meses, disse que não se candidataria a nenhum outro cargo público em outubro e, em seguida, foi eleito para comandar, a partir de junho, o Clube Militar, com a promessa de apoiar outros militares que tivessem interesse em disputar as eleições.

"A minha participação é de apoio, de fornecer instrumentos teóricos e práticos, recebendo gente (no Clube Militar), gravando vídeos", descreveu o general. "Seja um apoio direto, na propaganda, ou um apoio indireto, por meio de palestras, ideias, programas que possam constituir um núcleo central de pensamento para os nossos candidatos."

Marcelo Chello/CJPress/Folhapress - 5.ago.2018
Jair Bolsonaro (à esq), Levy Fidelix (cento) e General Antonio Mourão participam de convenção nacional do PRTB em São Paulo

Comentários polêmicos e legado do regime militar

No ano passado, Mourão provocou alvoroço no debate político brasileiro ao dizer, durante uma palestra em Brasília, que as Forças Armadas poderiam ter "que impor uma solução" caso as instituições do país, por meio do Judiciário, não conseguissem solucionar o problema da corrupção política no Brasil.

Questionado novamente sobre o assunto no domingo, durante a convenção do PRTB, o general disse que não foi feliz na forma como se expressou. "Foi uma questão de interpretação", afirmou. "As Forças Armadas são responsáveis pela garantia dos poderes constitucionais e da lei e da ordem. Quando você fala nisso, fala em garantir a democracia e a paz social. Se o caos se instalar no país, se a lei for desrespeitada, então compete às Forças Armadas impedir que isso ocorra. Mas, felizmente, tudo está caminhando da forma como tem que ser. Apesar de todos os problemas, o Brasil é maior do que isso, e nós vamos superar isso."

Apesar dos casos de abusos de direitos humanos cometidos durante o regime militar, Mourão defende o legado do período e afirma que os governos da época conquistaram avanços importantes, principalmente na área econômica.

"O regime transpôs o Brasil de uma economia agrária, com uma indústria insuficiente e uma infraestrutura fraca, para praticamente tudo o que nós tempos hoje", afirma. "Aquele período, como todo e qualquer período, teve os seus erros. Mas toda a vez que há uma guerra, existem excessos. Não existe nenhuma guerra em que não haja excessos. É uma realidade."

A Comissão Nacional da Verdade, criada pelo governo federal em 2012 para investigar violações de direitos humanos durante o regime militar, apontou 434 casos confirmados de mortes e desaparecimentos de pessoas sob a responsabilidade do Estado brasileiro no período de 1946 a 1988.

O relatório final da comissão também apontou "a prática sistemática de detenções ilegais e arbitrárias e de tortura, assim como o cometimento de execuções, desaparecimentos forçados e ocultação de cadáveres por agentes do Estado brasileiro".

Homem de centro-direita

O candidato a vice de Bolsonaro se diz um homem de centro-direita, que acredita no liberalismo econômico e na ideia de que o Estado deve intervir em determinadas atividades como indutor. Na sua visão, o nacionalismo associado aos militares não representa uma contradição para alguém que defende uma economia liberal.

"Nacionalismo significa defender os interesses da nação. A gente não consegue sobreviver sem estar em ligação direta com o capital externo", afirma o general. "É óbvio que isso tem que ser feito com determinadas regras, regras claras. Mas de onde vamos tirar recursos para alavancar os nossos projetos, se não trouxermos o capital externo?"

Mourão também defende o acesso do cidadão comum a armas de fogo para se defender ("obviamente, dentro de regras claras") e diz que é favorável à pena de morte. Afirma, no entanto, que é católico praticante e que "ninguém está descolado daquilo que viveu ao longo de sua trajetória".

"O homossexualismo (sic) existe desde que o mundo é mundo, e nunca deixou de existir", comenta o general. "Mas sou contrário a um ativismo gay que queira impor isso como um modo de vida. O camarada é homossexual, ele vive a vida dele. Não precisa querer impor aquilo para os demais."

Diante do perfil e das ideias semelhantes às de Bolsonaro, não surpreende que o general Mourão defenda o companheiro de chapa. Para o militar, o estilo "bateu, levou" do presidenciável é algo que ele vai saber controlar caso seja eleito.

"Por enquanto, o Bolsonaro é um candidato. A partir do momento em que é investido na função de presidente, você tem que buscar a melhor maneira de solucionar as questões, e isso passa pelo diálogo", argumenta o candidato a vice.

Mourão finaliza dizendo ter consciência de que, para navegar no meio político, é necessário saber ouvir os outros. Mas isso, diz o general, sem perder a firmeza e o rigor normalmente associado aos militares. "Tenho buscado praticar a arte da paciência. É isso que eu tenho feito", completa o 02 de Bolsonaro.

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