Vice diz que "põe mão no fogo" por Alckmin, defende PP e tem apoio do MBL

Diego Toledo

Colaboração para o UOL, em São Paulo

  • Foto: Sérgio Lima/Folhapress

    Aos 73 anos, a senadora Ana Amélia compõe chapa de tucano na disputa presidencial

    Aos 73 anos, a senadora Ana Amélia compõe chapa de tucano na disputa presidencial

A postura convicta e o tom de voz decidido são os principais sinais de firmeza no estilo da senadora Ana Amélia Lemos (PP-RS), candidata a vice-presidente na chapa encabeçada por Geraldo Alckmin (PSDB). Já o discurso político é treinado não só pelos oito anos como parlamentar, mas também pela carreira de mais de 30 anos como jornalista em Brasília.

Em plena campanha para as eleições de outubro, as frases da senadora revelam o seu cuidado para não dizer nada que possa trazer prejuízo eleitoral. Assim, ela defende o seu partido, o PP, fala de sua aproximação com o MBL (Movimento Brasil Livre) e das idas e vindas de sua trajetória política, mas, entre um assunto e outro, faz questão de se definir como uma parlamentar "independente" e "ética". Até para aceitar o rótulo de conservadora, a opção é por uma resposta sinuosa.

"Sou conservadora da ética, da responsabilidade no uso do recurso público, de produzir leis em benefício da sociedade", disse a vice de Alckmin, em entrevista ao UOL. "Conservadora desses valores, de respeitar os outros, ter tolerância e temperança com pessoas que pensam diferente de mim. Se isso é ser conservadora, sou conservadora."

Na prática, a definição é resultado das posições assumidas por Ana Amélia, que se lançou à política, em 2010, como defensora dos interesses do setor agropecuário gaúcho. Aos 73 anos de idade, a senadora se diz contra mudanças na legislação brasileira sobre aborto e, apesar de reconhecer cotas raciais como uma "conquista social importante" e de pregar respeito e acolhimento à comunidade LGBT, afirma que não se pode impor a vontade da minoria sobre a maioria.

"A sociedade brasileira é muito complexa e diversificada na sua composição, seja racial, política, religiosa ou ideológica. Você precisa entender isso para não radicalizar", prega Ana Amélia.

Discurso de empoderamento das mulheres e elo com MBL

A escolha da senadora gaúcha como vice de Alckmin foi interpretada por observadores políticos como um aceno do tucano ao eleitorado antipetista e ao voto feminino. Apesar de seu partido ter feito parte da base de apoio ao governo no início da gestão de Dilma Rousseff (PT), Ana Amélia foi uma das vozes mais ativas na defesa do impeachment da ex-presidente em 2016.

Diante da tarefa de atuar como cabo eleitoral do candidato do PSDB junto às mulheres, a senadora diz que não será uma vice decorativa e garante que tem reforçado com Alckmin a importância de temas sensíveis para o público feminino.

"Vou continuar trabalhando para ampliar políticas de aumento de delegacias para as mulheres no Brasil inteiro", diz Ana Amélia. "Pedi também ao governador Geraldo Alckmin que amplie a participação das mulheres nos ministérios. Ele é uma pessoa que acredita que o empoderamento das mulheres ajudará muito a qualificar a política, inclusive em temas cruciais como violência contra a mulher, falta de creche para mães que trabalham e desigualdade salarial."

Boto a mão no fogo por Geraldo Alckmin. Se ele, por algum motivo, amanhã cometer alguma coisa que me decepcione, não botarei mais a mão no fogo por ele. Mas isso não vai acontecer, tenho certeza."

Senadora Ana Amélia (PP-RS), candidata a vice-presidente da República

A incorporação de conceitos como "empoderamento feminino" ao discurso da vice de Alckmin contrasta, no entanto, com a recente aproximação da senadora com o MBL -- grupo que costuma ironizar o movimento feminista e minimizar a importância de discussões como a diferença entre os salários de homens e mulheres que exercem as mesmas funções.

Em junho, um dos líderes do MBL, o candidato a deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP), chegou a publicar uma mensagem nas redes sociais em que elogiava Ana Amélia e insinuava a sua adesão ao grupo de militantes liberais.

"O MBL tem o orgulho de receber em seus quadros a gaúcha mais temida por Gleisi Hoffmann (senadora pelo PT-PR), Lindbergh Farias (também senador, PT-RJ) e companhia. Seja bem-vinda, Ana Amélia", escreveu Kataguiri, junto a uma foto em que aparecia ao lado da vice de Alckmin.

Ana Amélia diz que, na ocasião, visitou a sede do grupo em São Paulo e recebeu o apoio de forma espontânea, sem que houvesse um pedido. A senadora acrescenta que nunca se filiou formalmente ao MBL e que apenas se reuniu com o grupo de jovens por "respeito ao trabalho que fazem".

"O MBL sempre apoiou minhas posições em defesa da Lava Jato, no combate ao foro privilegiado, em uma série de matérias de interesse da sociedade", afirma. "Mas não poderia me submeter à determinação de uma determinada linha ideológica, de ação, pragmática ou doutrinária, que não respeitasse a minha independência. Minha relação é institucional e respeitosa com os jovens que integram o MBL."

Apoio do "Centrão" e denúncias contra o PP

A candidata a vice na chapa de Geraldo Alckmin também se apresenta como uma "defensora ardorosa" da Operação Lava Jato, da atuação do Ministério Público e da Lei da Ficha Limpa.

O Progressistas (PP), partido de Ana Amélia, é, no entanto, uma das legendas com mais políticos investigados por envolvimento em casos de corrupção. A sigla possui a segunda maior bancada na Câmara dos Deputados, com 51 parlamentares -- 21 deles investigados pelo Ministério Público e cinco réus no Supremo Tribunal Federal (STF).

Ana Amélia defende o partido e cita o arquivamento de denúncia contra o presidente do PP, Ciro Nogueira (PI), pelo STF, como um alerta de que é preciso esperar que as acusações sejam julgadas para avaliar cada caso. "Cada membro do partido responde pelos seus atos", afirma. "Todos aqueles que cometeram irregularidades precisam pagar por isso, pela via legal."

AFP PHOTO / EVARISTO SA
Vice de Alckmin diz confiar na habilidade política do tucano para lidar com "Centrão"

A senadora cita lideranças tradicionais do PP como o vice-governador do Rio de Janeiro, Francisco Dornelles, e o deputado federal Esperidião Amin (SC) como quadros políticos de quem tem "orgulho" de ter como companheiros de partido. Mas a vice de Alckmin diz que os eventuais erros de seu partido devem ser vistos com "didatismo" e volta a insistir em sua "independência".

"Sou ficha limpa e tenho pautado a minha ação por respeito a ética, usando sempre a mesma régua moral, e sendo independente, inclusive nas votações, em relação à orientação do meu próprio partido", diz. "Você não pode imaginar que os partidos são feitos de anjos. São feitos por pessoas. Sendo seres humanos, têm as suas contradições."

O fato de a chapa que compõe junto com Alckmin reunir o apoio de nove partidos, inclusive o chamado "Centrão", e dezenas de políticos investigados pela Operação Lava Jato também é visto com naturalidade pela senadora. Ana Amélia diz que a aliança formada pelo tucano demonstra a sua habilidade política e manifesta a sua confiança quase absoluta no seu candidato a presidente.

"Não é o interesse exclusivamente partidário que vai determinar as escolhas do nosso presidente", afirma Ana Amélia. "Mas nenhum presidente poderá governar sem ter uma aliança que dê consistência para ele poder tomar as decisões que precisa."

Menções ao "Exército Islâmico" e a caravana de Lula

Já a simpatia do MBL por Ana Amélia, como a própria mensagem de Kataguiri sugere, tem origem nos embates da senadora com os colegas petistas no Congresso.

Em abril, por exemplo, a parlamentar gaúcha criticou Gleisi Hoffmann, em discurso no plenário do Senado, por uma entrevista concedida pela petista à emissora de TV árabe Al Jazeera, em que a presidente do PT pedia o apoio dos países árabes contra a prisão do ex-presidente Lula.

Jonas Pereira/Agência Senado
Ana Amélia travou troca de farpas com adversários petistas no Senado

"Só espero que, dada a gravidade do conteúdo dessa exortação publicada pela TV Al Jazeera para essa convocação ao apoio dos países do mundo árabe, não tenha sido também um pedido para que o Exército islâmico venha ao Brasil atuar aqui", afirmou Ana Amélia, em uma menção interpretada como uma referência ao grupo terrorista árabe Estado Islâmico.

O comentário provocou críticas e a reação da adversária do PT. Gleisi Hoffmann, também em discurso no plenário do Senado, disse que as afirmações de Ana Amélia eram resultado de "ignorância, preconceito e xenofobia contra o povo árabe".

Um pouco antes, no final de março, o embate foi com Lindbergh Farias. Durante uma convenção partidária, a senadora gaúcha elogiou a reação negativa de parte da população do Rio Grande do Sul à passagem de uma caravana de Lula pelo estado. "Botou a correr aquele povo que foi lá, levando um condenado para se queixar da democracia", disse Ana Amélia. "Atirar ovo, levantar o relho (chicote), levantar o rebente para mostrar onde está o Rio Grande, onde estão os gaúchos."

Poucos dias depois, dois ônibus da caravana de Lula foram atingidos por quatro tiros no Paraná -- ninguém se feriu. No plenário do Senado, Lindbergh discutiu com a adversária e a acusou de "incitar a violência" e ser "um pouco responsável" pelo ocorrido.

Ana Amélia rebateu e disse que não aceitava ser "bode expiatório dos problemas" do PT. A senadora afirmou que seus comentários foram feitos em uma cerimônia reservada, em clima partidário e com "paixão envolvida". Ela ainda acrescentou que condenava qualquer tipo de violência e que seus adversários é que tinham de explicar "a roubalheira na Petrobras".

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