Arolde diz que pauta conservadora reage a ativismo LGBT sem tirar direitos

Pauline Almeida

Colaboração para o UOL, no Rio

  • Divulgação

    11.out.2018 - Arolde de Oliveira participou de reunião de Bolsonaro com deputados no Rio

    11.out.2018 - Arolde de Oliveira participou de reunião de Bolsonaro com deputados no Rio

Eleito pelo voto evangélico e com o apoio do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), o senador eleito pelo Rio de Janeiro Arolde de Oliveira (PSD), que surpreendeu ao desbancar favoritos como Cesar Maia (DEM) e Lindbergh Farias (PT), vai ao Senado para sustentar o conservadorismo e o que chama de "defesa da família". A pauta assusta grupos como o LGBT, que teme a perda de direitos, tese refutada por Arolde.

"A pauta conservadora não tira direitos LGBT, apenas reage ao ativismo LGBT querer impor ao conservador a prática deles", defendeu. O senador eleito entende como ativismo de grupos LGBT o que diz ser uma imposição do que chama de "ideologia de gênero" nas escolas. Nove vezes deputado federal, Arolde considera que o debate sobre gênero em salas de aulas faz parte de um processo de desconstrução da cultura cristã.

Episódios de violência envolvendo supostos eleitores de Bolsonaro têm sido registrados no país, entre as vítimas, estão homossexuais. A transexual Jullyana Barbosa foi agredida no último sábado (6), véspera do primeiro turno, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, com gritos de homofobia e apologia ao candidato do PSL. Nas redes sociais, testemunhos sobre intimidação e ameaças são recorrentes. Arolde não quis opinar sobre os casos de intolerância, dizendo não ter certeza da veracidade das notícias.

Ainda em relação a grupos minoritários, o senador eleito sustentou que os vulneráveis precisam ser protegidos, mas afirmou que política se faz para o que chama de maioria. "Qual é a maioria do nosso Brasil? 85% dos brasileiros são conservadores. Não é preciso fazer estatística e perguntar", defendeu.

Integrante da frente parlamentar evangélica na Câmara dos Deputados, Arolde é fiel da Primeira Igreja Batista do Recreio dos Bandeirantes, na zona oeste do Rio, e sua família é proprietária de uma gravadora gospel, cujo elenco teve cinco indicações ao Grammy Latino este ano.

"Sou contra a ideologia de gênero, sou contra escola com partido, contra o aborto e por aí vai. Tudo que é valor judaico-cristão, quer dizer o antigo e o novo testamento, formatado como políticas públicas, eu defendo", elencou.

Outra pauta prioritária do senador eleito é a segurança pública --ele sustenta o fim da progressão de regime penal, a redução da maioridade penal, a flexibilização do desarmamento (a possibilidade de qualquer pessoa comprar uma arma com a justificativa da defesa pessoal) e a isenção de imposto de renda para agentes de segurança, proposta que sabe ser polêmica por privilegiar apenas um segmento, mas que pretende levar ao plenário. 

Parte das pautas de Arolde não é consenso no meio eclesial, como a introdução de mais armamento. O Conic (Conselho Nacional das Igrejas Cristãs do Brasil, que inclui as igrejas católica, batista, anglicana, luterana, presbiteriana e ortodoxa), por exemplo, emitiu nota manifestando temor ante o resultado das eleições e pediu respeito à cultura de paz.

O Conic também fala da necessidade de reflexão sobre os impactos do racismo, xenofobia, ameaça de práticas fascistas e LGBTfobia, além do aprofundamento da laicidade do estado. "Nenhum candidato ou governo pode se pronunciar em nome de Deus", pede o conselho. O slogan da campanha de Bolsonaro é "Brasil acima de tudo e Deus acima de todos."

Em seus nove mandatos como deputado federal, o integrante do PSD disse ter sido uma voz dos protestantes na Câmara. Porém, agora, como senador, vê uma mudança de suas atribuições.

"O deputado representa o povo, o segmento, então meu segmento é evangélico.(...) Como senador, eu represento toda a população do estado do Rio de Janeiro, eu represento o estado e os municípios", disse. Com isso, defendeu que vai se debruçar sobre questões orçamentárias, tentando levar ao Rio investimentos para segurança pública, saúde e emprego, a fim de impulsionar setores, como turismo e petróleo.

Arolde aplicou R$ 400 mil e neurolinguística em rede social

Aos 81 anos, Arolde Oliveira partiu do oitavo lugar nas pesquisas de intenção de votos e nem mesmo a "boca de urna" do dia do pleito apontou para sua vitória, com 17% dos votos válidos (cerca de 2,3 milhões de eleitores). "Na campanha, você tem que ser racional, tem que ser calculista, não pode se impressionar com os outros", comentou.

O candidato do PSD recebeu R$ 950 mil do fundo partidário para campanha e injetou mais R$ 100 mil do próprio bolso. Desse montante, quase a metade (mais de R$ 400 mil) foi investida em impulsionamento de publicações nas redes sociais, voltadas para três públicos, como ele mesmo segmentou: direita radical, conservador e evangélico.

Engenheiro, autor de leis sobre telecomunicações e ex-executivo da Embratel, Arolde diz que a aposta em uma "comunicação horizontal" foi essencial. "Eu calculei umas 40, 50 mensagens bem feitas, usando os recursos da ciência neurolinguística", contou. A neurolinguística vem sendo usada em ambientes corporativos para programar mensagens que atendam especificamente o anseio de um público, prevendo e ajudando a programar determinados comportamentos.

As mensagens "surfaram na onda" do conservadorismo das eleições puxada por Bolsonaro. Foi o presidenciável inclusive, segundo Arolde, que lhe fez o convite para disputar o Senado quando ele nem pensava nisso.

"O Bolsonaro tem sete mandatos, eu tenho nove. Nós somos colegas, amigos… Nós temos a mesma formação de caráter, forma de pensar sobre pátria, civilidade. Ele sempre quis, como tinham duas vagas para o Senado, que eu fosse o segundo voto do Flávio aqui no Rio", contou.

A "dobradinha" deu certo. Flávio ficou com a primeira cadeira do Senado e Arolde com a segunda. A Procuradoria Regional Eleitoral chegou a processar Arolde e o PSD por propaganda irregular no horário eleitoral gratuito da TV --a irregularidade era a aparição de Flávio Bolsonaro em 11% do tempo destinado a Arolde, que fazia parte de outra coligação.

Mesmo não coligados oficialmente, foram os candidatos do PSL que impulsionaram o deputado federal do PSD nas ruas. Essa proximidade entre Arolde e eles levou a outro vínculo nas eleições, do hoje senador com o candidato ao governo do Rio Wilson Witzel (PSC).

Arolde é um ex-aliado de Cesar Maia, de quem já foi secretário municipal de Transportes. Em julho, o senador eleito recebeu uma condenação relativa a esse período. A 2ª Vara da Fazenda Pública determinou que ele e mais oito réus devolvam R$ 21,9 milhões de contratos com sobrepreço durante o Pan-Americano de 2007.

Segundo a assessoria do senador, Arolde foi denunciado por atrasar em 15 dias a nomeação da Comissão Fiscalizadora dos serviços contratados. A demora teria se dado pelo tempo em que o processo ficou parado na Secretaria de Fazenda. A assessoria destaca que o Tribunal de Contas do Município também analisou o caso e o arquivou, sem encontrar qualquer irregularidade.

Apesar da relação antiga com Maia e de já ter sido filiado ao PFL (hoje DEM), Arolde descartou defender a candidatura de Eduardo Paes (DEM). A proximidade com as pautas do ex-juiz federal levou o PSD a apoiar formalmente Witzel no segundo turno. "Por uma questão ética e por uma questão de gratidão à bancada do PSL", justificou.

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