Um em cada 5 eleitos para a Câmara vai assumir mandato pela 1ª vez na vida

Leonardo Martins e Luiz Alberto Gomes

Do UOL, em São Paulo

  • Dida Sampaio/Estadão Conteúdo

Dos 513 deputados federais eleitos no último domingo, 102 vão assumir um mandato na Câmara pela primeira vez. Esses novos parlamentares representam 1 em cada 5 políticos que formarão a Câmara dos Deputados em 2019. Metade da nova Câmara é formada por deputados que se reelegeram para a função. Além dos novatos e dos reeleitos, um batalhão de 147 nomes já foi eleito para algum cargo público que não o de deputado federal.

Puxado pelo presidenciável Jair Bolsonaro, o PSL contribuiu com 34 dos 102 dos estreantes.

O levantamento feito pelo UOL levou em conta informações do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) sobre pleitos anteriores. Em alguns casos, esses novos políticos já concorreram a outros cargos, mas nunca venceram. Deputado mais votado no RJ com apoio de Bolsonaro, Hélio Negão (PSL) é um deles. Antes de vencer esta eleição, ele já havia tentado, sem sucesso, a Câmara em 2014 pelo PTN. Em 2016, já no PSC, tentou ser vereador em Nova Iguaçu (RJ), mas ficou como suplente.

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Além de Hélio Negão, a popularidade de Bolsonaro ajudou o PSL a eleger mais 33 novos nomes na Câmara. Em sua maioria, esses novos parlamentares são ligados a área de segurança, como militares do Exército ou da Polícia Militar, ou figuras que já eram populares, como a jornalista Joice Hasselmann, mulher mais votada em São Paulo, e o ex-ator Alexandre Frota.

Reprodução/Facebook
Helio Negão em ato de campanha com o presidenciável Bolsonaro

Outros partidos também elegeram nomes conhecidos sem experiência prévia vitoriosa em eleições. Kim Kataguiri (DEM-SP) – um dos líderes do MBL (Movimento Brasil Livre) e deputados filiados ao Novo, partido que disputou sua primeira eleição, foram alguns deles. Já Alexandre Padilha (PT-SP), Marcos Pereira (PRB-SP) e Marcelo Calero (PPS-RJ) foram ministros nas gestões de Dilma Rousseff e Michel Temer (MDB) e ocuparão uma cadeira na Câmara após a visibilidade ganha no governo.

Alguns dos outros novos eleitos ganharam sua primeira eleição, mas levam a política no DNA. São os casos de João Campos (PSB), deputado mais votado em Pernambuco e filho do ex-governador Eduardo Campos; Wladimir Garotinho (PRP-RJ), filho do ex-governador Garotinho (PRP-RJ); Otto Alencar Filho (PSD-BA), filho do senador Otto Alencar (PSD-BA); e Jaqueline Cassol (PP-RO), irmã do senador Ivo Cassol (PP-RO).

PT, PSDB MDB, maiores partidos do Brasil, somam dez nomes entre os novos políticos.

Câmara com renovação, mas não tão nova

No total, 51% da Câmara será renovada em 2019, a maior troca de parlamentares desde 1994. Nesta conta entram os novos políticos, figuras eleitas para outros cargos em eleições anteriores, nomes que já passaram pela Câmara em outras legislaturas, e deputados que foram suplentes e esse ano conseguiram se eleger.

Dos 262 "novos" parlamentares, 129 já foram eleitos para algum cargo, mas nunca para a Câmara. Eles serão 25% da casa em 2019. Em sua maioria esses políticos foram vereadores, prefeitos ou legisladores em assembleias e que subiram na carreira política. Marcelo Freixo (PSOL-RJ), deputado estadual por três mandatos, Wagner Montes (PRB-RJ), também deputado estadual do RJ; e Rui Falcão (PT-SP), ex-deputado estadual e ex-presidente do partido, são alguns desses nomes.

Além destes, 18 políticos foram suplentes à Câmara em outras eleições e agora conseguiram uma vaga como titular. Presidente licenciado do PSL, Luciano Bivar foi em 2014 e neste ano foi um dos mais votados em Pernambuco. O mesmo aconteceu com Túlio Gadêlha (PDT-PE), namorado da apresentadora Fátima Bernardes.

Ricardo Matsukawa/UOL
Aécio durante campanha em MG. Ele deixará o Senado e ingressa na Câmara

Já 13 políticos voltaram para Câmara depois de pelo menos quatro anos longe dela. O caso mais emblemático é o de Aécio Neves (PSDB-MG), que quase venceu a disputa à Presidência em 2014 e deixou o Senado para garantir sua eleição após ver seu nome envolvido em casos de corrupção. Lídice da Mata (PSB-BA), Gustavo Fruet (PDT-PR) e Ângela Amin (PP-SC) são outros nomes conhecidos que retornam à Casa.

Cenário preocupa analista político

Analista político do Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar), Antônio Augusto de Queiroz avalia que a renovação da Câmara neste ano foi mais profunda e não vê isso necessariamente como uma boa notícia. "Essa renovação incidiu sobretudo sobre aqueles que negavam o sistema político. Fizeram uma campanha não de propostas para resolver problema, mas de negação do sistema político. Isso é extremamente preocupante porque as pessoas não foram eleitas por seus méritos, mas pela negação dos seus concorrentes."

Ele cita que muitos desses novos nomes são lideranças evangélicas, policiais da linha dura, celebridades ou parentes de políticos tradicionais. Queiroz também observou que em relação a outros pleitos, a Câmara foi mais renovada por pessoas sem experiência política anterior e aqueles que já foram eleitos para algum cargo em municípios ou estados perderam espaço.

Do ponto vista qualitativo, a qualidade é muito ruim. Tem gente que não tem a menor noção do que são, o que fazem e como funcionam as instituições. Você tem um Congresso inexperiente e pouco qualificado para os desafios do momento. Muito dos novos parlamentares não estão à altura dos desafios. Eles foram eleitos pelo clima emocional de apontar problemas e indicar culpados, mas sem nenhuma condição de apresentar soluções.
Antônio Augusto de Queiroz, analista político do Diap

Queiroz avalia que uma Câmara mais inexperiente pode trazer problemas para o futuro presidente, por causa da pressão que a bancada jovem vai fazer por mudanças.

"Os principais nomes do Senado e da Câmara vão estar fora do Parlamento e isso é uma dificuldade adicional para um novo governo. A sorte é que a instituição controla, dá um freio de arrumação. Lá tem servidores concursados, experientes, que conhecem e vão reduzir o ímpeto revanchista ou reformista dessa turma, que vai chegar mostrando que não é simples como eles imaginam."

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