Eles botaram a boca no trombone, e os políticos tiveram problemas

Do UOL, em Brasília

A ex-proprietária de uma loja de material de construção. Um motorista. Um dono de restaurante. Um caseiro. Todos eles pessoas de fora do mundo da política, mas que com seus depoimentos e entrevistas arrastaram figuras poderosas da vida nacional para o centro de escândalos e negócios mal explicados entre o poder público e o privado.

Um dos casos mais recentes foi a entrevista à "Folha de S.Paulo" da antiga dona de uma loja que reforçou as suspeitas de que as obras do sítio frequentado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em Atibaia (SP) foram pagas por empreiteiras investigadas na Operação Lava Jato.

A antiga dona do estabelecimento que forneceu material à obra, Patrícia Fabiana Melo Nunes, afirmou que a Odebrecht pagou pelos materiais da maior parte da reforma, onde foram gastos cerca de R$ 500 mil. A empresa diz não ter relação com a obra.

Posteriormente, a "Folha de S.Paulo" revelou que pessoas ligadas à obra, em relatos ao jornal e depoimentos ao Ministério Público, informaram que a Usina São Fernando, do pecuarista e amigo do ex-presidente José Carlos Bumlai, e a empreiteira OAS também teriam participado das obras no sítio. A usina e a empresa não comentaram o caso.

A política nacional acumula episódios em que gente comum saiu do anonimato para lançar suspeitas sobre políticos. Veja abaixo outros casos emblemáticos.

Gente de fora da política que denunciou poderosos

Reprodução/Twitter
Reprodução/Twitter

Ex-namorada diz que FHC usou empresa para mandar dinheiro a ela no exterior

A jornalista Mirian Dutra Schmidt, 55, afirmou em entrevista à "Folha de S.Paulo" que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) utilizou uma empresa para enviar dinheiro a ela no exterior, entre os anos de 2002 e 2006. A jornalista manteve um relacionamento extraconjugal nos anos 1980 e 1990 com o ex-presidente, com quem diz ter tido um filho, Tomás Dutra. Segundo Mirian, ela assinou um contrato falso de trabalho com uma empresa para receber US$ 3 mil mensais. O ex-presidente admite manter contas no exterior e ter mandado dinheiro para Tomás, mas nega ter usado a empresa para bancar a jornalista. FHC não registrou Tomás, mas nunca questionou a paternidade e sempre o tratou como filho. Dois exames de DNA chegaram a ser feitos e os resultados deram negativo, o que provaria que Tomás não é filho biológico do ex-presidente. Mas FHC afirmou publicamente que o exame não alterava a situação e que ele seguiria reconhecendo Tomás como filho.
Alan Marques/Folhapress
Alan Marques/Folhapress

Motorista reforça impeachment

A entrevista do motorista Eriberto França à revista "Isto É" em 1992 foi um dos principais golpes no mandato do então presidente Fernando Collor, destituído naquele ano por um processo de impeachment aberto no Congresso. França, que trabalhava como assessor da secretária particular de Collor, Ana Acioli, revelou à revista, e depois confirmou o depoimento a uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito), que Paulo César Farias, o PC, ex-tesoureiro da campanha de Collor, bancava as despesas do presidente, como a compra de um Fiat Elba e a reforma na Casa da Dinda, imóvel particular transformado em residência oficial pelo ex-presidente. Em 2014, o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu absolver o ex-presidente das acusações de desvio de dinheiro público, corrupção passiva e falsidade ideológica, por considerar que não havia provas de que Collor havia cometido os crimes.
Lula Marques - 7.jul.2005 /Folhapress
Lula Marques - 7.jul.2005 /Folhapress

Secretária de Marcos Valério entrega petistas

A secretária Fernanda Karina Ramos Somaggio, que trabalhava com o publicitário Marcos Valério, um dos personagens centrais do escândalo do mensalão, afirmou em entrevista à "Isto É Dinheiro", em 2005, que seu chefe tinha contatos com petistas do alto escalão, como o então ministro José Dirceu (Casa Civil) e o ex-secretário-geral do PT, Sílvio Pereira, além do ex-tesoureiro do partido, Delúbio Soares. Somaggio chegou a citar na entrevista ter visto "malas de dinheiro". Dizendo ter sido ameaçada, ela chegou a negar ter visto as malas de dinheiro em depoimento à PF, mas voltou atrás e confirmou a informação num segundo depoimento. À época do julgamento do mensalão, em 2012, o advogado de Valério, Marcelo Leonardo, admitiu que seu cliente repassou ilegalmente recursos ao PT para o financiamento da campanha eleitoral em 2002, mas negou que o dinheiro tenha sido usado para comprar votos de parlamentares.
Sérgio Lima/Folhapress
Sérgio Lima/Folhapress

Dono de restaurante relata "mensalinho" na Câmara

Em setembro de 2005 o então presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP-PE), renunciou ao cargo e ao mandato parlamentar após ser acusado de receber um "mensalinho" em pagamento de propina para autorizar a concessão de um dos restaurantes da Câmara. As denúncias foram confirmadas dias antes da renúncia por entrevista à imprensa do empresário Sebastião Augusto Buani, que disse ter feito pagamentos ao deputado que somam de R$ 110 mil a R$ 120 mil em troca da exploração do restaurante na Câmara. Os pagamentos foram feitos até 2003, segundo Buani, quando Severino ocupava a 1ª Secretaria da Câmara. O deputado renunciou negando ter recebido propina.
05.jun.2009 - Sérgio Lima/Folhapress
05.jun.2009 - Sérgio Lima/Folhapress

Caseiro derruba ministro da Fazenda

O estopim do caso que levou à queda do então ministro da Fazenda Antônio Palocci, no governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2006, foi uma entrevista do caseiro Francenildo Costa ao jornal "O Estado de S.Paulo". O caseiro disse ter visto Palocci na mansão usada em Brasília por lobistas para fechar negócios suspeitos e promover festas com prostitutas. Palocci havia negado por diversas vezes ter frequentado a casa. Francenildo confirmou posteriormente suas declarações em testemunho à uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito). Logo após o depoimento à CPI, foi publicado por um blog da revista "Época" dados sobre a movimentação financeira de uma conta poupança do caseiro que mostrava depósitos de R$ 35 mil. A base do governo usou a informação para alegar que o depoimento havia sido comprado pela oposição. Mas posteriormente a Polícia Federal indiciou Palocci por suspeita de envolvimento na quebra ilegal do sigilo bancário do caseiro. O ex-presidente da Caixa Jorge Mattoso disse à PF que entregou o extrato de Francenildo para Palocci um dia antes da publicação dos dados na imprensa. Mattoso assumiu sozinho a responsabilidade pela obtenção dos dados bancários do caseiro. Palocci foi inocentado da acusação em julgamento no STF (Supremo Tribunal Federal), que entendeu que não havia provas de sua participação no caso.

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