Lacerda admite temor com crise e fala em possível corte no orçamento em Belo Horizonte

Rayder Bragon
Especial para o UOL Notícias
Em Belo Horizonte

Depois de ter dito em entrevista ao UOL na quarta-feira que a crise financeira internacional não o assustava, o novo prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda (PSB), adotou outro discurso e admitiu que o problema deverá afetar a sua administração e o orçamento do município, que, segundo ele, será reavaliado em razão de uma provável queda na arrecadação. Ao ser empossado como prefeito em cerimônia nesta quinta na Câmara Municipal de Belo Horizonte, Lacerda previu tempos difíceis.

"Nuvens sombrias da crise do sistema financeiro mundial, gestada pela irresponsabilidade de lidar com os mecanismos de controle dos mercados internacionais, terão reflexos limitadores no processo econômico que o país vinha trilhando até então. Não somos uma ilha", disse.

Lacerda afirmou, no entanto, que possíveis cortes deverão levar em consideração o menor prejuízo possível sobre serviços prestados à população.

"Com ponderação e transparência, faremos os ajustes orçamentários que vierem a ser necessários para que menos impacto tenham sobre os serviços e as áreas fundamentais da vida da cidade", explicou.

A crise financeira, na avaliação do novo prefeito, apesar dos estragos em grandes economias, traz também ensinamentos aos futuros governantes.

"A crise traz em seu bojo uma nova visão de mundo; a gestão compartilhada, (a) inclusão social, o respeito ao equilíbrio financeiro, a busca objetiva por resultados frente a metas claras em todos os setores da administração pública municipal", afirmou.

Ele declarou considerar fundamentais parcerias entre os governos municipal, estadual e federal para minimizar os efeitos da crise na capital mineira.

2010

Em outra frente, Lacerda afirmou que não participará de nenhuma articulação com vistas ao pleito de 2010, que é almejado por dois políticos que foram os principais cabos eleitorais do socialista; o petista Fernando Pimentel, ex-prefeito da capital mineira e potencial nome a disputar o cargo de governador de Minas, e Aécio Neves (PSDB), atual ocupante da cadeira e um dos nomes lembrados para concorrer à Presidência da República pelo partido.

"Eu não sou político de carreira, eu não tenho essa vocação. Estarei fazendo política em relação ao destino da cidade. Dificilmente terei muito tempo para me envolver política partidária", afirmou.

Após o evento na Câmara Municipal de Belo Horizonte, Lacerda foi para a prefeitura, onde ocorreu cerimônia de transmissão de cargo feita por Fernando Pimentel.

O ex-prefeito, emocionado, relembrou fatos de sua administração e elogiou sua equipe de governo, Aécio Neves e o presidente Lula.

Prioridades de governo

Em entrevista ao UOL nesta quarta-feira (31), Lacerda classificou como prioritários em sua gestão a resolução do engessamento do trânsito da cidade e a melhoria do transporte coletivo, no qual circulam um milhão e meio de passageiros por dia. Levando-se em conta somente esse aspecto do cotidiano da cidade, o novo prefeito terá de fazer o que nenhuma gestão até então foi capaz de realizar.

O novo prefeito, em seu plano de governo, promete viabilizar a expansão do metrô, apontado como alternativa para melhoria da mobilidade na cidade. O tema sempre volta à pauta no início das gestões, mas a conclusão das obras se arrasta há mais de 20 anos. Em quatro anos, ele garante aumentar em 50% a extensão das linhas, que passarão dos atuais 28,2 km para 42,8 km.

Ainda sobre o trânsito, há a promessa de construção de 148 obras viárias para desafogar o acúmulo de veículos na área central da cidade. Se levado a cabo, o programa promete ligação mais eficaz entre bairros, sem a obrigatoriedade que ocorre atualmente, em muitas regiões, de trafegar pela congestionada área central.

O pacote das intervenções nas ruas da cidade foi avaliado em R$ 2,5 bilhões.

Fatos marcantes da campanha de Lacerda

Resultado de aliança política entre o então prefeito Fernando Pimentel (PT) e o governador de Minas, Aécio Neves (PSDB), Lacerda foi lançado para ser candidato de consenso nas fileiras do PT, que indicou o vice na chapa socialista, mas não foi o que ocorreu.

Atropelados no processo da dobradinha entre PT e PSDB, petistas ilustres, como o ministro Patrus Ananias (Desenvolvimento Social e Combate à Fome) e Luiz Dulci (Secretaria-Geral da Presidência) se negaram a apoiar o nome referendado pela instância municipal do partido.

Militantes da legenda também cindiram da escolha e passaram a apoiar a candidata Jô Moraes (PC do B) no primeiro turno, e Leonardo Quintão (PMDB), no segundo turno.

Opositores da escolha de Lacerda alegaram que tanto Pimentel quanto Aécio estavam apenas tentando impulsionar projetos pessoais com vistas às eleições de 2010, quando estarão em disputa os cargos de presidente da República e de governadores de Estado.

Durante a campanha, Jô Moraes travou disputa jurídica contra Lacerda pedindo a saída de Aécio da propaganda eleitoral. O governador era presença assídua na maioria dos programas do socialista, mesmo após a Executiva Nacional do PT ter proibido a aliança com o PSDB e o PPS.

Apesar de ter saído em desvantagem no começo do 1º turno, quando havia obtido magros 6% de intenção de votos em pesquisa e estava em 3º lugar, Lacerda atropelou seus adversários quando do início da propaganda eleitoral no rádio e na TV e passou a figurar na dianteira, dando a impressão de ser eleito ainda na 1ª fase. A presença constante de Aécio e Pimentel, bem avaliados pela população, catapultou o socialista para o topo.

No entanto, segundo analistas políticos, denúncias de envolvimento com o mensalão, ausência em debates com estudantes e a reação da população a uma imposição de candidato por parte de Pimentel e Aécio fizeram com que na reta final houvesse o crescimento surpreendente de Leonardo Quintão (PMDB), fato que obrigou a ter o 2º turno.

Na outra etapa, com troca de comando da campanha, Lacerda começou a ir a debates com estudantes e a companhia de Aécio e Pimentel passou a ser mais discreta na TV e no rádio. Troca de acusações entre os dois candidatos passaram a ser constantes.

A certa altura, vídeo veiculado pela campanha do socialista mostrava Quintão prometendo chutar a bunda de adversários. Por sua vez, o peemedebista foi a PF (Polícia Federal) pedir proteção sob pretexto de ter recebido ameaça de morte.

Quintão ainda minimizou o fato de Lacerda ter sido preso político durante a ditadura, o que serviu para acirrar ainda mais os ânimos. Advogados do socialista entraram com ação no STF (Supremo Tribunal Federal) exigindo reparação.

Passada a eleição, com a vitória de Lacerda, os dois procuraram atenuar as brigas atribuindo ao "calor da disputa" a troca de acusações.

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