Participantes do Fórum planejam "outro mundo", mas lucram com o atual

Rodrigo Bertolotto
Do UOL Notícias
Em Belém (PA)

Mesmo com o objetivo declarado de "libertação do mundo do domínio do capital", tem muita gente fazendo caixa com o Fórum Mundial Social, que começa nesta terça. Nem que seja para pagar os custos de viagem até Belém.

Como um grupo de uruguaias estudantes de sociologia que viajou de carona até o Pará. Elas estão vendendo saias que fizeram por R$ 35 e R$ 45 para bancar o verão no Nordeste brasileiro. "Queríamos chegar aqui para as discussões, mas depois é praia", sintetiza Cecília Etchevers diante de um varal com seus produtos na entrada da Universidade Federal Rural da Amazônia, uma das sedes do evento que reúne pensadores de esquerda do mundo inteiro.

Já Antônio Carlos Martins, de Ribeirão Preto (SP), trouxe 500 camisetas com frases de poetas, músicos e filósofos. Este é o quinto Fórum Mundial que leva suas mercadorias. "Bom mesmo é esses congressos de humanas. Já fui a encontro de medicina e veterinário, mas não vende." Ele conta que entrou ramo como bico e virou profissão - ele sabe mais o calendário acadêmico que muito professor universitário.
 

Entre as camisetas que vende por R$ 15 há uma com frase do poeta português Fernando Pessoa ("Tenho em mim todos os sonhos do mundo") e outra com letra da música do jamaicano Bob Marley ("Há pessoas que amam o poder, outras que têm o poder de amar"). "O pessoal de história, filosofia e letras é mais sensível e gosta dessas coisas", define Martins.

Mas a diversidade de produtos não para nas roupas e botons com lemas de esquerda. Índios paraenses vendem brincos e colares com penas de pássaro por R$ 15 para os visitantes. E são a mania dos europeus em Belém com suas tatuagens com jenipapo, por R$ 5. Outro serviço é alugar bicicleta em tenda de cicloativista. "O preço aqui é pela cara do cliente", já, de cara, explica o atendente ao lado do acampamento dos estudantes.

Alguns dissidentes do movimento estudantil montaram um bar, vendendo cerveja por R$ 2,50, mas logo a proibição de álcool na área barrou as intenções. Já Gaspar Lima cuidava de uma barraca de produtos hippies, mas também com souvenires locais, como uma bolsa com imagens do Estado e a frase "Eta Pará Pai D`Égua", expressão típica da região.
 

  • Rodrigo Bertolotto/UOL

    Estudante de sociologia veio do Uruguai e vende lenços e saias para bancar veraneio pelo Brasil

As barracas de comida local também invadiram o Fórum. Os barraqueiros começaram no Fórum Mundial Ecumênico, passaram ao Fórum Mundial de Educação e finalmente se instalaram na versão original, oferecendo maniçoba, pato no tucupi e tacacá por preços abaixo dos R$ 6.

O Fórum prevê um espaço para a chamada "economia solidária", com troca de produtos e serviços. Também na agenda estão várias palestras e mesas-redondas para comentar a crise global que o capitalismo vive. Mas enquanto planejam um "outro mundo possível" (lema do encontro), os participantes do Fórum vão lucrando no atual.

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