Battisti nega assassinatos e diz que Itália vivia sob guerra civil nos anos 1970

Do UOL Notícias
Em São Paulo

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O italiano Cesare Battisti, a quem o governo brasileiro concedeu refúgio político, concedeu uma entrevista à nova edição da revista IstoÉ da prisão, em Brasília, onde atualmente aguarda o julgamento, pelo Supremo Tribunal Federal, do encerramento do seu processo de extradição.

Battisti, que se tornou o centro de uma crise entre Brasil e Itália, diz acreditar que não espera que o Brasil volte atrás na decisão. Para ele, a decisão do ministro Tarso Genro é bem fundamentada.

"Ele analisou todos os documentos. Não foi uma leitura superficial. E a perseguição política está provada nos documentos. Acho que o gesto do ministro Genro foi de coragem e de humanidade. A decisão é muito importante não só para mim, Cesare Battisti, mas para a humanidade. A Itália precisa reler a própria história. Nós estamos dando à nação italiana a possibilidade de reler sua história com serenidade, humanamente", disse Battisti à repórter Luiza Villaméa.

Condenado por quatro mortes na Itália

  • Eraldo Peres/AP

    Cesare Battisti foi um dos chefes da organização de extrema esquerda Proletários Armados pelo Comunismo

Battisti também afirmou não ser "importante". "Sou um dos milhares de militantes italianos dos anos 1970. Sou um das centenas de militantes que se refugiaram no mundo inteiro, fugindo dos anos de chumbo da Itália. Por que tudo isso comigo?"

Questionado sobre o fato de Alberto Torregiani, filho do joalheiro Pierluigi Torregianio, afirmar que assistiu à morte de seu pai por Battisti, o italiano, condenado por quatro assassinatos durante os anos 1970, disse que Alberto está sofrendo pressão das autoridades italianas. "Desde 2004, [ele] tem uma pensão como vítima dos anos de chumbo na Itália. Eles estão fazendo pressão, já que podem tirar a pensão dele."

Battisti explica, também, as razões que o levaram ao grupo PAC (Proletários Armados pelo Comunismo): "Havia uma democracia na qual a máfia estava no poder. Nós temos um primeiro-ministro que ficou décadas no poder e foi condenado por ser mafioso. Estou falando de Giulio Andreotti (líder do Partido Democrata-Cristão italiano, primeiro-ministro nos períodos de 1972-1973, 1976-1979 e 1989-1992). Havia também os fascistas, que nunca foram afastados do poder. E hoje, infelizmente, voltaram."

Ele também diz que nunca matou ninguém. "Eu nunca fui um militante militar em nenhuma organização. Nem na Frente Ampla nem nos PAC, onde fiquei dois anos, entre 1976 e 1978. Saí dos PAC em maio de 1978, depois da morte de Aldo Moro (o ex-primeiro-ministro da Itália sequestrado e morto pelas Brigadas Vermelhas). Na época, milhares de militantes abandonaram os movimentos de luta armada. Foi um momento de debate muito importante na Itália."

Battisti também avalia que, na Itália dos anos 1970, havia uma "guerra civil" e o presidente da República italiana, Francesco Cossiga, era o "orquestrador da repressão".

"Ele mandou uma carta pessoal para mim, me reconhecendo como militante político. A senhora pode ter acesso a essa carta. Ele diz que éramos um grupo revolucionário que queria tomar o poder pela via das armas num projeto socialista. Palavras do Francesco Cossiga. Será que Berlusconi, o grande mafioso, tem mais crédito do que Cossiga?"

No Brasil, Battisti conta que não conhecia ninguém, mas que tinha amigos em comum com o deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ). "Não o conhecia pessoalmente, mas tínhamos amigos em comum. Tinha também outros endereços que nunca usei, como o do Ziraldo, o escritor. Gabeira foi muito receptivo comigo. Eu não falava português, mas ele falava francês e italiano. Foi uma grande ajuda para mim, psicologicamente." Na entrevista à IstoÉ, Battisti nega ter recebido ajuda financeira dele.

Na entrevista, Battisti ainda fala de sua rotina na prisão, sobre o fato de ter demorado tantos anos para afirmar sua inocência nas acusações de assassinato, sobre seu trabalho de escritor e sobre sua relação com as ideias comunistas atualmente.

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