Sem-terra invadem estação de pesquisa e dizem que área é arrendada a fazendeiros; governo de Alagoas nega

Carlos Madeiro
Especial para o UOL Notícias
De Maceió (AL)

Famílias de trabalhadores rurais sem-terra invadiram e ocuparam a Estação Experimental Agrícola, no município de Igaci, no Agreste de Alagoas. Os sem-terra denunciam que o local não é utilizado para pesquisas e que agrônomos da Secretaria de Agricultura do Estado (Seagri) estariam arrendando terras a fazendeiros da região.

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    Igaci fica na região do Agreste

A ocupação, iniciada na Quarta-Feira de Cinzas (25/2), conta com pelo menos 35 famílias rurais, todas da região do Agreste. O acampamento que está sendo montado na estação conta com o apoio da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e da Associação de Moradores de Igaci. Mais trabalhadores são esperados nos próximos dias.

A Secretaria de Agricultura, no entanto, nega que o local esteja abandonado e que tenha sido arrendado a fazendeiros.

Os trabalhadores rurais reivindicam o direito a 200 hectares de terras da área, que estariam ociosas e seriam aptas a diversas culturas agrícolas. "Trabalhei mais de 15 anos aqui, e a gente foi expulso. Eu plantava milho e feijão. Hoje não tem nada aqui", disse o agricultor João José da Silva, que antes do local virar um centro de pesquisa morou na área da Estação, que fica a 1 km da cidade de Igaci.

Os sem-terra afirmam que agrônomos da Seagri teriam arrendado ilegalmente a área destinada a pesquisas a fazendeiros da região. Segundo o movimento, o terreno não serve como local de pesquisa. "Eles ocuparam a área em que já moramos e nunca pesquisaram nada. A ideia deles é arrendar aos fazendeiros", afirma a Maria Fátima de Andrade, uma das líderes do movimento.

De acordo com a coordenadora da CPT em Alagoas, Cícera Menezes, a falta de condições de trabalho para os produtores da região é tratada com desprezo pelo Estado e a Estação não atende aos interesses da comunidade local. "Muitos trabalhadores saem daqui para cortar cana em outros estados e regiões por não ter como sobreviver daqui, quando temos uma área como essas aqui, livre para plantação e sobrevivência de tantas famílias", alegou.

Outro lado
Segundo o secretário-adjunto de Agricultura de Alagoas, José Marinho Júnior, a área é produtiva e de fundamental importância para a pesquisa do Estado. "O local não está abandonado e é um excelente centro de pesquisa nosso para as análises de variedades como pinha, palma. Lá conhecemos melhor as alternativas de produção para a região. Esse centro é fundamental para o nosso Estado, não pode ser ocupado", disse ele, garantindo que no local são pesquisados assuntos de interesse social, e não de fazendeiros, como afirmam os sem-terra.

Nesta quinta-feira, secretário-adjunto e técnicos da Seagri foram ao local da invasão para tentar convencer os sem-terra a deixarem o local. "Não é justo que essas pessoas ocupem uma região que tem uma produtividade. Isso será mostrado a eles e espero que eles entendam", afirmou Marinho. Uma reunião ficou marcada para ocorrer ainda esta quinta-feira à tarde.

O gerente da Estação de Pesquisas, Francisco Ferreira de Oliveira, não atendeu até o momento às ligações do UOL Notícias para comentar o caso.

Queixa antiga
A falta de um órgão público estadual para pesquisa agrícola e extensão rural é uma queixa antiga dos produtores locais. A antiga Empresa de Pesquisa Agrícola de Alagoas (Epeal) foi extinta em 2004. Em 2000, o governo de Alagoas já havia extinto a Emater (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural).

A promessa de criação de uma nova empresa que fizesse a função de atender aos produtores familiares surgiu há anos, mas até hoje não foi concretizada.

No final de janeiro, a Seagri recebeu um anteprojeto propondo a criação de uma nova empresa de pesquisa e extensão rural em Alagoas. A proposta foi encaminhada ao Gabinete Civil do governo Teotonio Vilela Filho (PSDB), para analisar a possibilidade e autorização para a criação do novo órgão.

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