Sub-representação feminina torna a política "míope" para análise de propostas, diz cientista político

Claudia Andrade
Do UOL Notícias
Em Brasília

As mulheres representam mais da metade da população brasileira, mas sua presença nos espaços de poder está longe disso. Para ficar apenas no Congresso Nacional, as mulheres ocupam 13,5% do total de vagas no Senado e 8,7% das cadeiras da Câmara.

Para o cientista político da UnB (Universidade de Brasília) Leonardo Barreto esta sub-representação prejudica a análise das propostas que podem virar leis, principalmente as que estão diretamente ligadas ao público feminino. "O sistema político é míope quando as mulheres não estão representadas. Ele não consegue enxergar as demandas femininas e apontar as soluções para essas demandas", destaca.

No último ano, os parlamentares debateram temas importantes para as mulheres, como a descriminalização do aborto e a ampliação do período de licença-maternidade. Vários outros projetos aguardam votação, como o que estende à mãe adotiva direitos como o salário-maternidade quando a mãe biológica falecer nos meses seguintes ao parto e a regulamentação dos direitos trabalhistas das empregadas domésticas.

"Em política, vale o ditado 'quem não chora, não mama', e quem não está representado não tem como reivindicar. Isso acaba enviesando a forma como as questões são tratadas, com visões paternalistas. O debate fica empobrecido, porque os homens até podem estudar as questões, mas não as vivenciam", analisa o pesquisador da UnB.

Veja nos quadros abaixo como está a distribuição entre homens e mulheres em cargos eletivos pelo país e em cargos nas principais cortes do Judiciário:



Para a subsecretária de articulação institucional da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Sônia Malheiros, a maior participação feminina acabaria com o desequilíbrio atual nas discussões dos projetos no Legislativo. "A presença de mais mulheres nos espaços de poder faz com que esses temas sejam enfrentados de uma maneira mais efetiva. Muda a política, muda a história da sociedade brasileira, porque as questões terão um outro olhar, de forma mais equilibrada."

'Última trincheira'

Sônia Malheiros lembra, no entanto, que a passagem do discurso para a realidade de uma paridade nas relações de poder não é fácil. Ela exemplifica com a situação atual na Câmara dos Deputados. "São 513 (deputados) no total e 45 mulheres. Para achar o equilíbrio, 200 e poucos homens têm que sair. Fica complicado associar o discurso à prática, porque tem que sair do poder para outro entrar. Esta é a última trincheira, porque a resistência é maior."

A subsecretária acredita que uma participação feminina maior traria outras questões para debate. "Associada a essa discussão sobre a participação das mulheres nos espaços de poder e decisão, temos que discutir a participação dos homens nos cuidados de filhos e casa. Os homens têm que entrar na chamada vida cotidiana", diz. "Hoje, a maior participação das mulheres está no poder local: Câmaras de Vereadores e prefeituras, porque estão no lugar em que ela mora e pode cuidar da estrutura familiar", completa.

A senadora Ideli Salvati (PT-SC) lembra que as próprias mulheres são responsáveis pela manutenção da cultura que afasta a representação feminina da política. "Não é apenas a legislação que vai mudar essa realidade. É preciso mudar a cabeça das pessoas, porque não apenas os homens, mas também boa parte das mulheres contribui para reproduzir esses valores. Veja como meninos e meninas são criados pelas mães e professoras", aponta.

Discriminação

Mesmo as mulheres que já estão no poder ainda enfrentam dificuldades. "O preconceito está no cotidiano e é escancarado. Os homens até admitem as mulheres em algumas áreas como educação, mas para exercer uma liderança é preciso um enfrentamento diário. E, pior que o enfrentamento, é quando simplesmente te ignoram, como se a mulher não existisse", critica.

O pesquisador da UnB lamenta que as mulheres precisem "se masculinizar" para poder ocupar uma boa posição. "Ou dizem que elas são muito ríspidas, intransigentes, não são vaidosas, ou são muito discretas. Isso tudo vem de uma ética machista pautada pela disputa acirrada pelo poder", analisa.

Sônia Malheiros aponta a mesma questão, criticando a postura dos meios de comunicação, que sempre dão destaque ao 'figurino' das mulheres no poder. "Às vezes a mulher faz um discurso ótimo, de três horas, e o que se comenta depois é se a roupa dela estava combinando ou não."

Ideli confirma essa realidade no dia-a-dia do Senado. "Você tem que, em muitos momentos, agir de forma mais contundente, bater na mesa, para se fazer ouvir. É lamentável, mas é este o ritmo imposto pelos homens."


Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos