Prévias sustentam Aécio, mas não favorecem PSDB, diz cientista político

Rayder Bragon
Especial para o UOL
Em Belo Horizonte

As prévias dentro do PSDB para a escolha do candidato à Presidência da República em 2010 são inevitáveis e, com elas, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, passa a ter chances reais na disputa contra o colega José Serra (PSDB). No entanto, o melhor candidato tucano para enfrentar o PT seria o governador de São Paulo, na opinião do cientista político Fábio Wanderley Reis, professor emérito da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).
  • Katia Lombard/O Tempo

    Para o cientista político Fábio Wanderley Reis, como possível candidata do PT, a ministra Dilma Rousseff é, "por si só, é sem carisma, sem diálogo"



Reis também destaca a falta de carisma da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, como entrave às pretensões do presidente Lula de fazê-la sua sucessora.

Pesquisas do Instituto Datafolha e do Ibope divulgadas nesta sexta-feira (20) apontam queda na avaliação positiva do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Enquanto o Datafolha revela queda de cinco pontos percentuais na aprovação, de 70% para 65% em relação a novembro, o Ibope aponta que 73% aprovavam o governo em dezembro; agora, eles são 64%, uma queda de nove pontos.

Leia a seguir a entrevista concedida ao UOL Notícias, em Belo Horizonte:

UOL - Mais uma pesquisa do Datafolha, publicada nesta sexta, coloca o governador José Serra (PSDB) em 1º lugar para a sucessão do presidente Lula. As prévias no PSDB, defendidas pelo governador Aécio Neves, sustentam-se?

Fábio Wanderley Reis -
Não vejo porque não. Se Aécio mantiver o pleito de querer ser candidato e reclamar as prévias, o partido não tem como recusar. Aécio reclama as prévias com pesquisas já feitas e que davam vantagem ao governador de São Paulo. A suposição dele é de que, em campanha, venha a ser mais conhecido e passe a ter melhor porcentagem em pesquisas. Certamente, as notícias não são muito boas para ele, mas também não são para decretar a inviabilidade da demanda sugerida por ele para que haja prévias no partido.

UOL - Para o partido, vale correr o risco de não ter o candidato mais bem posicionado nas pesquisas, até o momento, para a disputa de 2010?

Reis -
Do ponto de vista do partido não há dúvida de que a aposta preferível é no Serra. As pesquisas mostram isso, além do apoio que ele tem de São Paulo. A dificuldade é a unidade interna. Se o partido se recusa a considerar outras candidaturas que estejam colocadas, corre-se o risco de haver um racha. Afinal de contas, o governo de Aécio, em pesquisas, tem a aprovação do 2º colégio eleitoral do país. Eles não podem simplesmente atropelá-lo.

UOL - Para o senhor, o governador Aécio Neves tem reais chances de sair como candidato?

Reis -
O jogo ainda não acabou. Há um jogo de habilidades e de influências entre eles [Serra e Aécio] que está sendo delineado. O Serra acertou ao aderir à viagem de Aécio ao Recife [na segunda-feira (16), os dois participaram de evento em Pernambuco], ao invés de deixar o Aécio sozinho, fazendo a campanha dele por lá. Eu não sei até que ponto esse convite era uma coisa real na cabeça do Aécio, mas isso transformou a viagem numa propaganda de ambos e dificultou o trabalho de sedução que eventualmente o Aécio pudesse fazer estando sozinho. Foi uma jogada hábil de Serra.

UOL - Qual seria o efeito das prévias, se aprovadas, dentro do partido?

Reis -
A questão é saber como se conduzirá internamente essas prévias e se isso resultará em algum racha. Podem se transformar em ocasião para avivar e tornar mais claras as discordâncias, criar animosidades e concorrer para divisões que possam colocar em xeque a unidade do partido. É o que tem sido alegado contra.

UOL - Caso saia derrotado nas prévias, o que sobra para o governador de Minas?

Reis -
Ele não tem muita escolha. O rumo não aventureiro que restaria para ele seria tentar o Senado, apostar na unidade do PSDB, apoiando o Serra, e esperar outra oportunidade. Ele pode até tentar se aventurar em outro partido, mas é uma aposta de alto risco, que pode ter consequências funestas até para as pretensões do PSDB em retomar a Presidência.

UOL - Os governadores José Serra, Aécio Neves e a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, ocupam cargos no Executivo e são atualmente questionados por antecipar a campanha eleitoral. Como o senhor analisa essa questão?

Reis -
Eu não vejo isso como uma questão muito importante. Se existe democracia eleitoral, é fatal que governar é fazer campanha, especialmente no Brasil, onde temos a possibilidade de reeleição. Há muito exagero nessa ênfase dada a uma antecipação eleitoral. É claro que os abusos devem ser fiscalizados e punidos. Não podemos confundir legislação adequada com legislação rígida. Um exemplo foi essa ideia infeliz da Justiça Eleitoral da verticalização [os partidos não poderiam se coligar no plano estadual contrariando alianças feitas para a disputa da Presidência da República].

UOL - É possível evitar o uso da máquina pública em campanhas eleitorais?

Reis -
É possível regular isso de uma maneira a evitar abusos. Em alguma medida, como eu disse, o uso da visibilidade do cargo faz parte do jogo. A simples ocupação do cargo já faz efeito no inconsciente do eleitorado. Os abusos devem ser coibidos com uma legislação adequada que impeça o uso de recursos públicos para propaganda eleitoral disfarçada.

UOL - A estratégica do PT para tentar manter a Presidência em 2010 muda conforme o cenário da escolha do PSDB?

Reis -
Certamente, a luta petista será diferente contra um ou conta o outro. Mas um aspecto certamente relevante é o fato de que José Serra é o governador de um Estado onde a gente vê claramente uma opinião antipetista forte. Em Minas, nós vimos o governador Aécio Neves até se aproximando do PT nas eleições municipais [Aécio apoiou o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel (PT) para eleger Marcio Lacerda (PSB), nas eleições de 2008]. Aécio certamente tem menos penetração em São Paulo do que Serra. Isso pode ser visto pelo PT como favorável.

UOL - A ministra Dilma Rousseff, apesar das viagens que se tornaram mais constantes pelo país, não subiu muito desde a última pesquisa feita pelo Datafolha, em novembro de 2008 (8%), para a pesquisa atual (11%) em cenário que contou com o governador José Serra. A que o senhor acredita que se deve isso?

Reis -
O fato de ela ter feito algumas viagens não significa aumentar a visibilidade dela junto ao eleitorado popular, mais amplo, que não acompanha o noticiário político com atenção. Seria preciso que houvesse uma campanha deflagrada, a manifestação explícita do presidente Lula. No entanto, eu a acho uma candidata difícil de ser carregada eleitoralmente. Mesmo que a crise tenha sido contornada, que o apoio da população ao Lula se mantenha, ela, por si só, é sem carisma, sem diálogo. Há, no entanto, pesquisas indicando que ela teria uma margem de 30% de eleitores que se declararam fiéis ao PT e para quem Lula deverá pedir votos.

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