"Nós tínhamos ditadura militar, mas tínhamos resistência", relembra Carlos Lyra

Gilberto Costa
Da Agência Brasil
Em Brasília

A ditadura militar (de 1964 a 1985) teve resistência e muita música. Os anos de censura e repressão às manifestações estéticas e à criação artística também foram de produção de uma impecável trilha sonora que mostrava os protestos e as expectativas de parte da população que idealizava outra sociedade e outra forma de governo. Segundo Caetano Veloso, era a "canção de protesto mais bonita do mundo".

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A chamada "canção de protesto" antecede o golpe militar e registra a passagem da estética do "amor, sorriso e flor" ou do "sol, sal e sul", próprios da bossa nova, para um tipo de música engajada e popular.

Um exemplo é a Marcha da Quarta-Feira de Cinzas, de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, considerada música de fundo da deposição do presidente João Goulart e da ascensão do marechal Castelo Branco.

A canção foi feita na antevéspera de os militares chegarem ao poder. Meses antes do golpe, em meados de 1963, ela anunciava: "Acabou nosso carnaval, ninguém ouve cantar canções/ ninguém passa mais brincando feliz/ e nos corações saudades e cinzas foi o que restou."

A música ficou registrada no imaginário popular como canção do golpe. Mas, segundo Carlos Lyra, "a música não tinha implicação política, a melodia não conta nada dessas coisas".

Lyra explica que a letra, no entanto, "levou muita gente a pensar que fosse uma resposta ao golpe. Era uma canção de premonição", afirma, especulando que talvez seu parceiro, Vinicius de Moraes, "tivesse bola de cristal". As duas pessoas da bossa nova que eram ligadas à esquerda "éramos eu e Vinicius", assegura.

A dupla Lyra e Vinicius fez outras canções com intenção política, como é o caso de Maria Moita e o Hino da UNE, este escrito na mesma tarde da Marcha da Quarta-Feira de Cinzas.

Segundo Lyra, Maria Moita "é a primeira canção feminista no Brasil", pois entoa: "Deus fez primeiro o homem/ a mulher nasceu depois/ é por isso que a mulher/ trabalha sempre pelos dois". A música ainda quer "pôr pra trabalhar/ gente que nunca trabalhou". "Era aquele negócio de botar os capitalistas, os vagabundos, para trabalhar porque só ganhavam dinheiro", acrescenta Carlos Lyra.

Além de Vinicius, Lyra fez sua crítica social e política com outros parceiros, como o ator Gianfrancesco Guarnieri (em "Feio não é bonito") e o escritor e desenhista Millôr Fernandes (em "Ditadura tem hora"). Além dos dois dramaturgos, Lyra também foi parceiro de Chico de Assis, autor de peças de teatro e novelas de TV, com quem talvez tenha feito a sua música mais "subversiva" - A Canção do Subdesenvolvido.

"A Canção do Subdesenvolvido foi a mais executada e foi proibidíssima", conta o compositor. "O povo brasileiro tem personalidade/ não se impressiona com facilidade/ embora pense como desenvolvido", criticava a letra. "Essa música contava como o Brasil foi explorado pela Inglaterra, pelos Estados Unidos. Era bem clara a intenção, chamando o Brasil de subdesenvolvido", lembra Lyra.

As canções de protesto renderam a Carlos Lyra um auto-exílio entre 1964 e 1971. "Eu tive problema depois do golpe por causa dessas canções. Elas foram proibidas de tocar nas rádios e nos lugares pelos militares e valeu uma 'perseguiçãozinha' contra mim também. Se eu não tivesse me exilado, eu teria sido preso com certeza para interrogatório. Antes que acontecesse alguma coisa, peguei minha trouxa e fui morar na matriz, logo nos Estados Unidos, junto aos donos do Brasil que era menos perigoso", ironiza.

Apesar do exílio e perseguição, o compositor é saudosista. "Tudo era mais bonito", lembra. "Nós tínhamos ditadura militar, mas nós tínhamos resistência. As coisas aqui no Brasil eram feitas com harmonia, com melodias bonitas. Eram feitas com a intenção de, além do protesto, fazer arte."

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