Deputado Bolsonaro chama ministro de Lula de 'lambe-botas' de militares em foto de seu gabinete

Piero Locatelli
Do UOL Notícias
Em Brasília

Além do cartaz que ironiza a busca de corpos de guerrilheiros mortos pelas forças do governo no Araguaia, o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) tem uma foto pendurada em frente ao seu gabinete com o ministro Tarso Genro (Justiça) marchando junto a militares. Sobre ela, está escrita a frase: "Lambe botas ou borra botas".

  • O cartaz está afixado no gabinete do deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) desde 2005



O cartaz que ironiza a guerrilha do Araguaia levou o PC do B e entrar com um processo contra Bolsonaro no Conselho de Ética da Câmara.

Dentro do gabinete, o deputado não foi encontrado na quinta-feira (28) pela manhã. No seu lugar, a reportagem achou assessores que apoiam o regime militar e tratavam da tortura como motivo de piada.

Após dizer que somente no Brasil os torturados não apresentavam marcas, eles falavam que ela foi somente "psicológica" e riam. "Nós sofremos tortura psicológica todo dia aqui nesse gabinete", ironizou um funcionário.

Do Rio de Janeiro, por telefone, Bolsonaro explicou a provocação ao ministro. "O ministro só vai atrás dos militares quando interessa", disse ele, o único congressista a defender abertamente a ditadura militar [1964-1985].

Ele diz que Genro foi salvo por militares quando fugiu para o Uruguai durante o período e precisou de favores deles.

O deputado não sabe precisar de quando era a foto ou quem acompanhava Genro nelas, mas diz que ela comprova sua opinião - de que o ministro "chupa botas" e correria atrás dos militares, inclusive durante a ditadura, quando era necessário.

Ao contrário do expositor, Genro lembrou a época em que ela foi tirada.

Apresentado a foto por meio de sua assessoria de imprensa, o ministro falou que ela é de uma solenidade oficial durante sua primeira gestão a frente da prefeitura de Porto Alegre, entre 1993 e 1997. Ela não teria nenhuma relação com o regime militar.

Apesar de o atual ministro ter sido um militante do MDB e do PRC (Partido Revolucionário Comunista), contrários a ditadura, Bolsonaro cita como exemplo de "traição" de Genro a condenação do Coronel Ulstra. Entre 1970 e 1974, o coronel foi chefe do DOI-Codi, principal órgão de repressão da ditadura militar. Depois do fim dele, Ulstra foi mantido no governo enquanto Sarney estava na presidência.

Ulstra tornou-se o primeiro militar condenado por tortura no Brasil em 2008, quase 30 anos após ele ter assumido o DOI-Codi. Genro, defensor da punição aos torturadores do período, estava à frente do Ministério da Justiça e teve papel decisivo no processo.

Para Bolsonaro, o homem responsável pelo departamento que torturou mais de 500 pessoas nunca deveria ter sido condenado.

"Eu acho que ele deveria ser candidato a deputado federal. O povo gosta da gente, há muito tempo pede que nós voltemos ao poder", falou. "E agora muitos marginais daquela época, sequestradores e terroristas, são ministros."

Bolsonaro explica a não volta ao poder porque o presidente Lula seria mantido por votos "burros e fáceis".

Ao contrário dos funcionários do seu gabinete, Bolsonaro não chegou a fazer piada quando o assunto foi tortura. Sua conclusão sobre ela é: "Tortura existe desde quando o homem é homem. Hoje em dia tem tortura em delegacia, por que não se culpa o Lula por isso?", disse o deputado, filiando ao PP, partido cuja origem é a Arena, o partido de sustentação da ditadura militar.

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