Jornalista conta história do livro secreto do Exército sobre a ditadura

Haroldo Ceravolo Sereza
Do UOL Notícias
Em São Paulo

O ministro do Exército se dirige a seu superior, o presidente da República, e pede autorização para publicar um livro que a corporação que dirigia preparou sob suas ordens. Não um livro comum, mas um livro que mexia numa questão potencialmente incendiária, a atuação de grupos de esquerda durante o regime militar.

  • Reprodução

    Capa de 'Olho por Olho', de Lucas Figueiredo; jornalista conversa com o público nesta quinta (30/7), no Sesc Vila Mariana, em São Paulo

  • Vidal Cavalcante/Folha Imagem

    D. Paulo, em 1985: responsável pela produção do "Brasil: Nunca Mais"

  • Roberto Jayme - 5.mai.1989/Folha Imagem

    Presidente da República, Sarney condecora o ministro Leônidas Pires Gonçalves em 1989

O presidente, no caso José Sarney (1985-1990), diz ao ministro, Leônidas Pires Gonçalves, que não convinha mexer naquelas feridas. Leônidas acata a decisão e, assim, quase 7.000 páginas de documentos sobre a ditadura militar, preparado pelos próprios militares, acabaram por se tornar clandestinas, bem como o livro delas originado, o "Orvil" (livro, lido de da direita para a esquerda).

Seu conteúdo só veio a público quase 20 anos depois, quando, em 2007, quando o jornalista Lucas Figueiredo teve acesso a ele e iniciou a publicação de uma série de reportagens nos jornais "O Estado de Minas" e "Correio Braziliense".

O projeto do "Orvil", capitaneado por Leônidas, pretendia responder ao "Brasil: Nunca Mais", obra de denúncia da ditadura organizada a partir dos arquivos dos tribunais militares que julgaram acusados de subversão a partir de 1964.

O livro "Brasil: Nunca Mais", um projeto audacioso patrocinado pelo cardeal-arcebispo de São Paulo, d. Paulo Evaristo Arns, e pelo reverendo presbiteriano Jaime Wright, feito todo dentro da lei, mas sigilosamente, no começo da década de 1980, tornou-se a principal denúncia contra a tortura e a violência praticada pelo regime. O objetivo do Exército era mostrar o seu "outro lado".

Num terceiro livro, "Olho por Olho - Os livros secretos da ditadura" (Record), Lucas Figueiredo narra os bastidores dos dois livros: desde a tensão que os organizadores do "Brasil: Nunca Mais" sentiram ao ouvir tocar um telefone cujo número ninguém tinha (haviam sido descobertos pelo regime?) até o momento em que topou com o "Orvil" na estante de uma de suas fontes - e fingiu que aquilo não era tão importante.

Figueiredo, que lança a obra hoje em São Paulo (Sesc Vila Mariana, zona sul, às 20h), conta também como o "Orvil" acabou sendo usado, também, como prova documental para que militantes de esquerda recebessem reparações após análise da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos.

Ou seja, mais do que revelar "crimes da esquerda", o Orvil serviu para reafirmar denúncias de torturas e mortes durante a ditadura. Indício de que, em 1988, se as tais feridas que preocupavam Sarney tivessem sido reabertas nos anos 1980, talvez o efeito da publicação do "Orvil" fosse bastante diferente do imaginado por seus autores.

Inédito em papel, o Orvil acabou publicado na internet, no site de extrema-direita A Verdade Sufocada.

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