Interventor federal diz que ocupações em fábricas não são lideradas por trabalhadores

Rodrigo Bertolotto
Do UOL Notícias
Em Sumaré (SP)

Expulso com truculência pelos trabalhadores da fábrica Flaskô, em Sumaré (SP), o interventor federal Rainoldo Uessler afirma que os funcionários foram utilizados por um movimento "ideológico-político-partidário" nas ocupações das plantas fabris do grupo Cipla, que a partir do ano de 2002 passaram para as mãos dos operários. Esse movimento seria a ala "Esquerda Marxista", setor do PT.

Em 2007, após decisão judicial e ação da Polícia Federal, Uessler assumiu o controle das empresas Cipla e Interfibra, ambas localizadas em Joinville (SC). Quando entrou na fábrica do interior de São Paulo, acabou expulso pelos membros da atual gestão das fábricas abandonadas por seus antigos donos pelo acumulo de dívidas.

Logo após, ele divulgou na imprensa detalhes da administração anterior, afirmando que parte do faturamento da empresa teria ido para o movimento político. Leia abaixo entrevista com o interventor federal.

UOL Notícias - O que aconteceu nos dias em que o senhor esteve em Sumaré?
Rainoldo Uessler -
Fui agredido fisicamente, não por trabalhadores, mas sim por líderes de um intitulado "movimento de ocupação de fábricas", estranho à rotina da empresa naquela planta. O Processo por agressão está na polícia civil em Campinas.

UOL Notícias - Acredita que a decisão que o nomeou interventor na Cipla também incluia a Flaskô ou esta fábrica por estar em outro Estado não estaria na lista?
Uessler -
Sem dúvida, o despacho da Justiça Federal abrangia todas as empresas do grupo.

UOL Notícias - Como encontrou a situação na Cipla após anos de gestão dos trabalhadores?
Uessler -
Devo deixar muito claro que a administração não era dos trabalhadores, e sim de integrantes de uma vertente ideológica-política-partidária, que entraram na empresa depois de uma greve geral. As lideranças do movimento não eram empregados de carreira. Os trabalhadores que constavam do quadro até a greve, pessoas trabalhadoras, foram utilizados como massa de manobra para disseminar a bandeira da ocupação de fábricas.

Encontramos uma situação financeira muito grave, com prejuízos mensais elevadíssimos para o porte da empresa, preços aviltados e nenhum encargo e impostos sendo recolhidos, além de fornecedores e folha de pagamento atrasados. Atualmente, com a intervenção federal, em apenas dois anos já atingimos o ponto de equilíbrio contábil.

UOL Notícias - Acredita que pode ser modificada a lei de falência e prever o surgimento de gestões operárias?
Uesller -
As gestões de fábrica, como um recurso alternativo antes do fechamento é uma tentativa muito válida. Mas sob o comando de pessoas responsáveis, desprovidas de interesses individuais, pensando sempre no coletivo, na geração de renda, na manutenção dos empregos e acima de tudo socialmente justa e contribuindo com os tributos. Se o gestor, emergente dos trabalhadores, tiver esta consciência, os resultados serão muito promissores. Temos exemplos disso.

A Cipla e outras empresas do grupo podem voltar para uma administração dos trabalhadores ou para a dos antigos donos? Qual é o futuro próximo da empresa?
Uessler -
As duas empresas do grupo estão sendo saneadas e ações estão sendo tomadas para despertar interesse em parceiros e investidores. Os funcionários poderão ser os donos, isso caso tiverem interesse em assumir as responsabilidades de ente jurídico com todos os seus direitos e deveres. Mas isso dependeria da aceitação dos demais credores e da capacidade de quitação do passivo acumulado, obviamente de forma parcelada, e atrelado ao faturamento, como proposta.

Quanto à volta aos antigos donos isso caberá à Justiça Federal e à Procuradoria da Fazenda Federal, que analisariam a capacidade de investimentos ou comprovação da capacidade de quitação dos débitos pretéritos deixados por eles mesmos, o que é uma possibilidade muito remota.

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