Em Manaus, Comissão de Ética ouve defesa de deputado estadual acusado de integrar crime organizado

Leandro Prazeres
Especial para o UOL Notícias
Em Manaus

A Comissão de Ética da Assembleia Legislativa do Amazonas começou a ouvir nesta quarta-feira (12) as testemunhas de defesa do deputado estadual Wallace Souza (PP) no processo por quebra de decoro parlamentar a que ele responde na Casa.

De deputado estadual mais votado do Amazonas e apresentador de TV campeão de audiência, Wallace passou a estampar as manchetes dos jornais locais e internacionais por conta do seu suposto envolvimento com o crime organizado, tráfico de drogas, aliciamento de menores e homicídio.

Político é acusado de encomendar crimes


O depoimento das nove testemunhas de defesa apresentadas por Wallace começou na manhã desta quarta-feira a portas fechadas. Apenas um grupo de testemunhas vai depor nesta quarta. O outro grupo vai prestar depoimento no dia 18 de agosto. A identidade das testemunhas é mantida sob sigilo porque, segundo Wallace Souza, elas correm risco de morte.

O processo por quebra de decoro parlamentar contra o deputado tenta apurar as denúncias feitas pelo Ministério Público Estadual (MPE): associação para o tráfico de drogas, aliciamento de menores de idade e improbidade administrativa.

Se Comissão de Ética considerá-lo culpado, Wallace poderá perder o mandato e o foro privilegiado.

A Polícia Federal também investiga o deputado. Segundo a PF, Wallace pode estar envolvido em uma trama para assassinar a juíza federal Jaiza Maria Pinto Fraxe. Um inquérito foi instaurado e, segundo o delegado responsável pelo caso, Josafá Batista, quatro pessoas foram indiciadas, entre elas Raphael Wallace e o coronel da Polícia Militar Felipe Arce Rio Branco, que já foi preso em 2005 pela PF durante a operação Centurião. À época, a PF apontou que havia indícios de que Arce comandava um grupo de extermínio no Amazonas.

Entenda o caso
As denúncias contra o deputado Wallace Souza começaram no final do ano passado, quando o ex-policial militar Moacir Jorge Pereira da Costa, o "Moa", foi preso. Ele era conhecido pela Polícia Civil como "matador de aluguel" e disse, ao ser detido, que era funcionário de Wallace Souza.

A princípio, o parlamentar negou conhecer "Moa", mas foi desmentido após a publicação de fotos em que os dois apareciam em uma "confraternização" na piscina da casa do deputado.

Após as denúncias de "Moa", o Ministério Público Estadual (MPE) criou uma "Força Tarefa" para investigar o caso. Em 24 de abril, a Polícia Civil cumpriu um mandado de busca e apreensão na casa do deputado. Lá, a polícia encontrou munições de calibre restrito ao uso das Forças Armadas, US$ 15 mil, R$ 234 mil. Foram encontrados também bilhetes que, segundo a Polícia, são referentes a uma encomenda de armas. Além disso, a polícia encontrou um outro bilhete que conteria um organograma da quadrilha que seria comandada por Wallace e seu filho.

No último dia 30 de julho, a Justiça Estadual aceitou denúncia oferecida pelo MPE contra o parlamentar. Criminalmente, ele responde a processos por formação de quadrilha, associação para o tráfico, coação de testemunhas, porte ilegal de armas de uso restrito e porte ilegal de uso permitido. Seu filho, por sua vez, responde por porte ilegal de armas e associação para o tráfico.

Paralelamente ao processo na Justiça, a Assembleia Legislativa instaurou um processo por quebra de decoro parlamentar.

O deputado estadual já trabalhou como policial civil, jornalista e construiu sua carreira política em cima do sucesso de seu programa de TV, o "Canal Livre", que apresentava ao lado de seus dois irmãos, o vice-prefeito de Manaus, Carlos Souza (PP), e o vereador Fausto Souza (PP).

Desde o início das denúncias, o programa está fora do ar. Tratava-se de um programa no estilo "policial" em que o trio se revezava em críticas a segurança pública e exibia a prisão de criminosos.

Segundo depoimento prestado por "Moa", alguns dos crimes exibidos por Wallace em seu programa eram praticados por uma quadrilha comandada pelo próprio deputado e seu filho, Raphael Wallace, de 19 anos, que está preso por porte ilegal de armas. Segundo o ex-policial, as equipes de reportagem do programa chegavam antes dos concorrentes por já saberem, antecipadamente, onde e quando eles iriam acontecer.

"Moa" também afirmou, em depoimento, que o grupo era responsável pela execução de ao menos quatro traficantes de drogas. "Os depoimentos que colhemos indicam que as ordens para execução partiram do deputado e do filho dele", diz o secretário executivo de Inteligência do Amazonas, Thomaz Vasconcelos.

Denúncias feitas por ex-funcionários do deputado apontam que parte da equipe do programa de Wallace era paga com a verba de gabinete do parlamentar. O Ministério Público também investiga se a verba de gabinete do vice-prefeito e ex-deputado federal Carlos Souza também era utilizada para pagar os profissionais que trabalhavam no programa.

Desde o início das investigações e das denúncias, Wallace Souza nega as acusações. Ele diz que elas fazem parte de um "complô", mas, até agora, não apontou quem seriam as pessoas interessadas em prejudica-lo. A reportagem do UOL tentou entrar em contato com o deputado, mas até a publicação desta matéria ele não retornou as ligações telefônicas. O mesmo aconteceu com o advogado dele, Francisco Balieiro.

O procurador de Justiça do Amazonas, Otávio Gomes, rebate as declarações de Wallace. "Não há dúvidas de que o deputado tem participação em todos os crimes pelos quais ele foi denunciado. Por isso que oferecemos a denúncia à Justiça. Cabe agora a ela definir se ele é culpado ou inocente. Fizemos a nossa parte", afirma o procurador.

Quem também rebate as acusações de formação de "complô" contra Wallace Souza é o secretário estadual de Segurança Pública, Francisco Sá Cavalcante. "Essa investigação foi feita da maneira mais transparente, a imprensa acompanhou, o Ministério Público Estadual acompanhou. Fizemos um trabalho sério, um trabalho que não visa apontar dedo pra ninguém, visa, tão somente, colher provas para que o MPE tenha tranqüilidade para fazer denúncias e a Justiça para julgar", disse Sá Cavalcante.

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