Governo Lula e Marina lucram com crise no Senado, dizem especialistas

Maurício Savarese
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Nos últimos dois meses, em que a descoberta de centenas de atos secretos da Mesa Diretora do Senado detonou uma crise política cujo epicentro é o presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP), somente o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva - que deve impor sua pauta com força sobre o Legislativo - e a senadora Marina Silva (sem partido-AC) ampliaram seu capital político, dizem especialistas ouvidos pelo UOL Notícias.

Para eles, Lula fez o que bem quis: manteve a alta popularidade, apontada em pesquisa do Datafolha; fortaleceu a ala de Sarney no PMDB para ligá-la à pré-candidatura de Dilma Rousseff; segurou seu aliado peemedebista no comando do Senado; sinalizou o retorno da CPMF (rebatizada de CSS) mesmo às vésperas da eleição; e conteve o estrago na bancada do PT no Senado ao apoiar o líder Aloizio Mercadante (SP), que desistiu de desistir do cargo.

"Com essa crise no Legislativo, a Presidência assumiu maiores poderes. É só lembrar que uma derrota significativa do Executivo foi a derrubada da CPMF, feita pelo Senado. Mal houve o engavetamento dos processos contra o Sarney e o governo apresenta uma nova versão da CPMF", afirmou Roberto Romano, professor de Ética e Filosofia da Unicamp, referindo-se ao projeto de criação da Contribuição Social para a Saúde (CSS). "O Senado hoje é um instrumento dócil na mão do Executivo, já que o seu presidente depende de Lula para se manter."



Já a senadora, que deixou o PT após 30 anos de militância para disputar a Presidência da República em 2010 pelo PV, mostrou-se como alternativa à política tradicional. Para o cientista político David Fleischer, professor da (UnB) Universidade de Brasília, Marina deixou sua mensagem ao fazer o anúncio no mesmo dia em que a bancada petista no Senado era forçada a se dobrar aos interesses do governo e votar pelo arquivamento de 11 representações contra Sarney.

"Essa sinalização que a Marina deu não foi por acaso. Ela já está pensando em como se posicionar para o eleitor e certamente foi usada pelos colegas como contraposição à atitude do PT de ajudar o Sarney", disse Fleischer. "Mas isso não significa que ela vá ter no ano que vem grandes condições de vencer a candidata do presidente Lula, que hoje é um presidente com mais poder de intromissão no Legislativo do que era antes."

De acordo com o professor Fábio Wanderley Reis, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), "o quadro de desarranjos políticos no Senado é favorável a Marina Silva. "Ela surge como uma promessa de consistência em um quadro de desalinhamento em uma crise causada com denúncias sobre mau comportamento dos políticos em geral", afirmou.

Principais partidos
Entre os partidos políticos, dizem os analistas, o PT saiu mais arranhado por ter cedido aos interesses do Palácio do Planalto em troca da manutenção da aliança com o PMDB, contrariando o discurso ético que atrai grande parte dos seus eleitores. O reflexo dessa crise é o pedido de desfiliação de Marina, potencial candidata à Presidência pelo PV, e a promessa de que o paranaense Flávio Arns, ligado a setores de esquerda da Igreja Católica, também deixará a sigla.

"O PT sai arranhadíssimo, pagou um preço alto para manter o PMDB próximo. O PT é uma federação de tendências e essas, que muito dificilmente se soldavam, agora têm uma rachadura muito maior", afirmou Romano. "A saída do Arns é grave para a esquerda católica que é bastante influente. Com Marina Silva, vale o mesmo para os preocupados com o meio ambiente. Se saísse alguém como o Delúbio Soares, tudo bem. Mas quem sai é gente que é referência ética."

Fernando Rodrigues analisa a decisão de Mercadante de seguir líder do PT

Ainda assim, a avaliação dos especialistas é que se o PT perdeu com a crise, os oposicionistas PSDB e DEM tampouco se deram bem: fraquejaram na defesa da renúncia de Sarney, emparedado por denúncias de mau uso de dinheiro público e de influir para a contratação de parentes e assessores para a Casa que preside.

Os tucanos também tiveram exposição negativa depois de seu líder no Senado, Arthur Virgilio (AM), ser alvo de uma representação no Conselho de Ética também por mau uso de verbas públicas.

"Quem imaginaria o PSDB enquadrado pelo PMDB do líder Renan Calheiros?", disse Fleischer. "Outro dia encontrei o Arthur Virgilio em um evento e dava para ver que ele estava com vergonha, chateado porque virou pivô de acusação. Ele e o PSDB foram reduzidos no seu papel de partido de oposição. Ainda mais depois da discussão entre Tasso Jereissati (PSDB-CE) e Renan no plenário. Tasso e o presidente do PSDB, Sergio Guerra, pediram desculpas a Renan! Como se impor diante disso?"

Para Rubens Figueiredo, cientista político e diretor-executivo do Centro de Pesquisas, Análises e Comunicação (Cepac), os efeitos negativos tendem a ser poucos para todos os partidos envolvidos na disputa e, consequentemente, para os candidatos que buscam a sucessão de Lula em 2010.

"DEM e PSDB estavam do lado do suposto bem para os eleitores mais informados. Eles saem com um saldo mais positivo do que PMDB e PT, que protegeram o Sarney, para esse público. Mas isso alcança um número pequeno de eleitores. E não muda a configuração de forças para as eleições presidenciais", disse.

Embora os especialistas creiam que a crise possa voltar a esquentar Brasília no caso de novas denúncias envolvendo Sarney, todos são unânimes ao prever que o PMDB tende a ficar onde sempre esteve desde o fim do Regime Militar (1964-1985): no poder.

"O PMDB não ganhou um absurdo com essa crise, porque certamente o Lula estará atento para não dar ainda mais poder para um grupo que já tem ministérios e controla o Legislativo todo", disse Reis. "Além disso o PMDB ganhou uma pecha ainda maior de fisiologista. Mas também, como é cheio de facções, não vai transformar o apoio do Lula ao Sarney em automático apoio a Dilma. Ainda há muito por negociar."

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