Pré-candidata ao governo de SP, Soninha quer Serra "aberto ao diálogo" e Kassab mais "centralizador"

Guilherme Balza
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Vereadora entre 2005 e 2008, 5ª colocada nas eleições para a Prefeitura de São Paulo no ano passado e atual subprefeita da Lapa, Soninha Francine, que completa 42 anos nesta terça-feira (25), anunciou sua pré-candidatura ao governo do Estado no domingo (23), durante evento no diretório estadual do PPS (Partido Popular Socialista), na zona oeste da capital.
  • Luiz Carlos Murauskas/Folha Imagem - 21.jul.2009

    Soninha Francine (PPS), pré-candidata ao governo de SP


Jornalista, apresentadora de televisão e atriz, Soninha aderiu ao petismo aos 14 anos, segundo ela própria. No entanto, frustrada com os rumos do partido, desfiliou-se em 2007, um ano após não conseguir se eleger como deputada federal, e entrou para o PPS, partido que também rompeu com o PT e se tornou aliado de PSDB e DEM em São Paulo.

O cargo para a subprefeitura da Lapa foi oferecido a Soninha por Gilberto Kassab (DEM) em troca do apoio dado pelo PPS no segundo turno das eleições municipais, na qual o atual prefeito derrotou Marta Suplicy (PT). Em entrevista ao UOL Notícias, Soninha comentou sua possível candidatura, falou sobre suas propostas de governo e avaliou os mandatos de Kassab e do governador José Serra (PSDB), também seu aliado.

UOL Notícias - O que o prefeito Gilberto Kassab achou do anúncio da sua pré-candidatura?
Soninha Francine - Eu ainda não falei com ele, nem ele me procurou. Espero que ele tenha recebido bem a notícia. Na verdade o que eu mais quero é poder continuar como subprefeita o máximo de tempo possível e espero ter a permissão do prefeito.

A principal deficiência [do governo Serra] é a falta de diálogo com movimentos sociais, sindicais, entre outros. Eu acho que o governador deveria ser mais aberto ao diálogo


UOL Notícias - O PPS apoiou o Lula em 2002. Em 2006, apoiou a coligação de Alckmin, formada por PSDB e PFL, e também apoiou esses partidos em diversas eleições estaduais. Já no ano passado, apoiou o Luiz Marinho, do PT, em São Bernardo. O PPS, que se originou dentro do PCB (Partido Comunista do Brasil), é hoje um partido fisiológico?
Soninha - Eu não acho. Fazer alianças é fundamental. Às vezes é necessário se aliar ao PT para combater o coronelismo em determinadas regiões do país, por exemplo. Todo partido faz alianças. O que não podemos é fazer alianças com outros partidos em troca de financiamento de campanha, por exemplo. Aí não dá. Mas não há como disputar eleições sem fazer alianças. Nas últimas eleições, o único partido que não fez alianças com partidos com propostas políticas diferentes foi o PSTU. Até o PSOL se aliou com o DEM em algumas regiões do país.

UOL Notícias - Como a senhora avalia o governo Serra? Quais as principais falhas do governo dele?
Soninha - A principal deficiência, na minha opinião, é a falta de diálogo com movimentos sociais, sindicais, entre outros. Eu acho que o governador deveria ser mais aberto ao diálogo, ainda que o outro lado não esteja muito disposto a conversar. Ele, muitas vezes, adota uma política oposta ao do PT, que quando vai lançar um programa, por exemplo, escuta todo mundo, faz várias audiências com entidades da sociedade civil mas, no fim das contas, o programa não fica um programa e sim uma "salada", um apanhado de várias coisas. Já o Serra é mais centralizador. E isso tem um lado bom. Traz coerência e força ao programa de governo. Mas eu acho que falta ao governador se abrir mais ao diálogo com os movimentos.
  • Moacyr Lopes Junior/Folha Imagem - 17.ago.2009

    Soninha é vista ao lado do governador José Serra durante vistoria em obra do Metrô


UOL Notícias - Como governadora, a senhora ordenaria a entrada da tropa de choque para reprimir uma manifestação política na USP (Universidade de São Paulo)?
Soninha - Não. Nem o governador fez isso. Quem ordenou a entrada da tropa de choque foi a própria reitora [Suely Vilela], após ter conseguido uma liminar de reintegração de posse. O Executivo não deve interferir na vida da universidade, nem do Judiciário. A universidade tem que ter autonomia, algo que os estudantes tanto defendem, para isso também.

UOL Notícias - Sua candidatura seria completamente independente de PSDB e DEM? Espera receber o apoio de algum desses partidos?
Soninha - É independente, e sinceramente eu não acredito que esses partidos abandonem suas candidaturas para apoiar um partido pequeno como o PPS.

UOL Notícias - Sem apoio de algum desses partidos, ou de algum partido grande, acha que terá base eleitoral suficiente para disputar as eleições com chances de vitória?
Soninha - A curtíssimo prazo não, a menos que haja uma grande surpresa. Isso dificilmente pode acontecer na era dos dois turnos. O problema de fazer alianças eleitorais, somente porque é o único jeito de ganhar, é se comprometer e depois ter que lotear a administração, assumir compromissos, ou ter que ouvir os seus aliados exigirem alguma coisa que vai contra suas propostas. Mas também não se trata de adotar uma postura do tipo "só a gente presta, então não vamos fazer aliança com ninguém", porque isso também não muda o rumo das coisas. Então, alianças são possíveis, mas a gente pode ir crescendo devagarinho, com consistência.

Eu queria que o Kassab fosse mais presente em todas as coisas, fosse mais centralizador, que ele tomasse muito as rédeas para si e ajudasse a resolver os conflitos que sempre existem dentro de uma administração


UOL Notícias - Caso a senhora e o prefeito Kassab disputem o segundo turno das eleições para o governo, quais críticas faria a ele?
Soninha - Falando até como alguém que trabalha na administração, eu sinto falta no Kassab daquilo que costumam usar com crítica com relação ao Serra e eu acho uma qualidade: eu queria que o Kassab fosse mais presente em todas as coisas, fosse mais centralizador, que ele tomasse muito as rédeas para si e ajudasse a resolver os conflitos que sempre existem dentro de uma administração. Existem divergências dentro da própria administração, e eu vejo a diferença que faz numa reunião de trabalho quando alguém diz "é determinação do senhor governador". Isso tem um peso grande, e as pessoas se movimentam de outra maneira. Eu sinto falta do Kassab dizendo eu quero, eu exijo, cumpra-se.
  • Eduardo Knapp/Folha Imagem - 30.out.2004

    Ainda no PT, Soninha faz campanha com Marta Suplicy nas eleições municipais de 2004


UOL Notícias - O que questionaria ele em um debate, por exemplo?
Soninha - Uma área que precisa de uma ação mais efetiva é de o transporte coletivo sobre pneus. A gestão do sistema de ônibus de São Paulo tem problemas. Muito antes de ter mais metrô e monotrilho - o que é muito importante - com os ônibus que temos em São Paulo poderíamos atender melhor a população. O sistema precisa ser redesenhado. Para mim isso é prioridade, é emergência, e eu não tenho percebido isso como prioridade absoluta [da atual prefeitura]. Para isso é preciso estudo técnico, logístico, articulação política, afinal é necessário fazer contratos de concessão e de permissão dos ônibus. Não é algo simples de se fazer.

UOL Notícias - Resumidamente, quais serão suas principais ações se for eleita governadora?
Soninha - Do ponto da continuidade, a política ambiental da gestão do Serra teve medidas bastante corajosas.

Uma cidade como São Paulo precisa de intermodalidades de transporte, de integração com todos os tipos de transporte, até com o hidroviário

Ele mexeu em vespeiros, como a ocupação de áreas de mananciais e das encostas da Serra do Mar, as queimadas na cultura de cana, o governo tem fechado lixões em cidades do interior. Essa postura corajosa na área de meio ambiente eu manteria. A mesma coisa na habitação, inclusive o modelo estadual da habitação dessa gestão serviu de modelo para formular a minha política de moradia na prefeitura. E nos transportes metropolitanos também teve uma mudança muito significativa de investimentos mais pesados na CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos). Nessas áreas eu continuaria nesse ritmo, porque é muito ruim uma coisa que mal começou terminar depois de quatro. O que eu faria diferente é ter uma postura mais heterodoxa, por exemplo, na parte de geração de energia. Faria um investimento muito sério em outras formas de geração de energia, em formas alternativas de captação e tratamento de esgoto. Então, buscaremos uma postura mais inovadora do que atual governo nessas áreas.
  • Marcelo Justo/Folha Imagem- 15.jun.2008

    Soninha faz passeio ciclístico durante campanha para a prefeitura de São Paulo


UOL Notícias - Um dos destaques da sua candidatura à prefeitura foi o incentivo ao transporte alternativo, ao uso de bicicletas. A senhora acredita que as ciclovias podem resolver o problema do transporte da cidade? Ou ela só beneficia um percentual muito pequeno da população, que mora em regiões centrais e privilegiadas? Que alcance tem o uso de bicicletas?
Soninha - Embora a gente tenha a ideia de que a bicicleta é um transporte de classe média, é na periferia que as bicicletas são muito usadas como forma de locomoção. É uma alternativa muito atraente para a população de baixa renda, mas nenhuma forma de transporte e de locomoção isolada é solução para os problemas. Se o metrô fosse solução, por exemplo, a radial Leste e a marginal [Tietê] não ficariam congestionadas, porque já existe metrô para a zona leste. Uma cidade como São Paulo precisa de intermodalidades de transporte, de integração com todos os tipos de transporte, até com o hidroviário. Nós temos um rio Tietê, que tem uma extensão enorme navegável, tanto que serve de transporte do próprio material que é dragado no rio. A bicicleta é mais um modal que pode ajudar muito em pequenos deslocamentos. Se você puder, em vez de usar ônibus ou carro, pedalar dois ou três quilômetros até um outro meio de transporte, isso realmente é capaz de fazer muita diferença, na fluidez [do trânsito], na qualidade do ar, na emissão de carbono e no estresse.

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