Deputado do AM acusado de matar para aumentar audiência de seu programa pode perder o mandato

Leandro Prazeres
Especial para o UOL Notícias
Em Manaus

O deputado estadual de Amazonas e apresentador de TV Wallace Souza (PP), que ficou conhecido pelas acusações de que mandava matar traficantes para aumentar a audiência de seus programas, pode ter o mandato cassado na próxima semana. Na quinta-feira (27), ele prestou depoimento durante quatro horas à Comissão de Ética da Assembleia Legislativa do Amazonas, onde responde a processo por quebra de decoro parlamentar. Souza é investigado por associação ao tráfico, aliciamento de menores e improbidade administrativa.

Político é acusado de encomendar crimes


Wallace Souza foi o deputado estadual mais votado do Amazonas em 2006 quando comandava um programa de TV campeão de audiência. Há seis meses surgiram acusações de que ele seria o líder de uma organização criminosa da qual seu filho, Raphael Souza, também faria parte. Entre as atividades do grupo estariam o tráfico de drogas e a execução de traficantes rivais.

O depoimento do deputado à Comissão de Ética foi o segundo desde o início do processo. No primeiro, no último dia 7 de julho, Souza estava hospitalizado e foi à Assembleia em uma maca. Nesta quinta-feira, o deputado apresentou documentos e vídeos. "Esse material vai desmontar as acusações contra mim", disse em entrevista à imprensa após o depoimento.

O presidente da Comissão de Ética, deputado Vicente Lopes, afirmou que o material apresentado por Souza é "repetitivo" e não contém novidades consistentes. "São vídeos que já foram exibidos e que não vão mudar as nossas convicções. O depoimento dele foi importante para fecharmos o nosso relatório", disse.

Lopes afirma que o processo será votado na próxima quarta-feira (2). Se for considerado culpado das acusações, Souza poderá ter o mandato cassado e perderá o foro privilegiado. Além de responder a processo na Assembleia Legislativa e na Justiça Estadual, o deputado responde também à Justiça Federal por suposta participação em uma trama para matar uma juíza federal.

Entenda o caso
As denúncias contra o deputado Wallace Souza começaram no final do ano passado, quando o ex-policial militar Moacir Jorge Pereira da Costa, o "Moa", foi preso. Ele era conhecido pela Polícia Civil como "matador de aluguel" e disse, ao ser detido, que era funcionário de Wallace Souza.

A princípio, o parlamentar negou conhecer "Moa", mas foi desmentido após a publicação de fotos em que os dois apareciam em uma "confraternização" na piscina da casa do deputado.

Após as denúncias de "Moa", o Ministério Público Estadual (MPE) criou uma força tarefa para investigar o caso. Em 24 de abril, a Polícia Civil cumpriu um mandado de busca e apreensão na casa do deputado. Lá, a polícia encontrou munições de calibre restrito ao uso das Forças Armadas, além de US$ 15 mil e R$ 234 mil. Foram encontrados também bilhetes que, segundo a polícia, são referentes a uma encomenda de armas. Além disso, a polícia encontrou um outro bilhete que conteria um organograma da quadrilha que seria comandada por Wallace e seu filho.

No último dia 30 de julho, a Justiça Estadual aceitou denúncia oferecida pelo MPE contra o parlamentar. Criminalmente, ele responde a processos por formação de quadrilha, associação para o tráfico, coação de testemunhas, porte ilegal de armas de uso restrito e porte ilegal de uso permitido. Seu filho, por sua vez, responde por porte ilegal de armas e associação para o tráfico.

Paralelamente ao processo na Justiça, a Assembleia Legislativa instaurou um processo por quebra de decoro parlamentar.

O deputado estadual já trabalhou como policial civil, jornalista e construiu sua carreira política em cima do sucesso de seu programa de TV, o "Canal Livre", que apresentava ao lado de seus dois irmãos, o vice-prefeito de Manaus, Carlos Souza (PP), e o vereador Fausto Souza (PP).

Desde o início das denúncias, o programa está fora do ar. Tratava-se de um programa no estilo "policial" em que o trio se revezava em críticas a segurança pública e exibia a prisão de criminosos.

Segundo depoimento prestado por "Moa", alguns dos crimes exibidos por Wallace em seu programa eram praticados por uma quadrilha comandada pelo próprio deputado e seu filho, Raphael Wallace, de 19 anos, que está preso por porte ilegal de armas. Segundo o ex-policial, as equipes de reportagem do programa chegavam antes dos concorrentes por já saberem, antecipadamente, onde e quando eles iriam acontecer.

"Moa" também afirmou, em depoimento, que o grupo era responsável pela execução de ao menos quatro traficantes de drogas. "Os depoimentos que colhemos indicam que as ordens para execução partiram do deputado e do filho dele", diz o secretário executivo de Inteligência do Amazonas, Thomaz Vasconcelos.

Denúncias feitas por ex-funcionários do deputado apontam que parte da equipe do programa de Wallace era paga com a verba de gabinete do parlamentar. O Ministério Público também investiga se a verba de gabinete do vice-prefeito e ex-deputado federal Carlos Souza também era utilizada para pagar os profissionais que trabalhavam no programa.

Desde o início das investigações e das denúncias, Wallace Souza nega as acusações. Ele diz que elas fazem parte de um "complô", mas, até agora, não apontou quem seriam as pessoas interessadas em prejudica-lo.

O procurador de Justiça do Amazonas, Otávio Gomes, rebate as declarações de Wallace. "Não há dúvidas de que o deputado tem participação em todos os crimes pelos quais ele foi denunciado. Por isso que oferecemos a denúncia à Justiça. Cabe agora a ela definir se ele é culpado ou inocente. Fizemos a nossa parte", afirma o procurador.

Quem também rebate as acusações de formação de "complô" contra Wallace Souza é o secretário estadual de Segurança Pública, Francisco Sá Cavalcante. "Essa investigação foi feita da maneira mais transparente, a imprensa acompanhou, o Ministério Público Estadual acompanhou. Fizemos um trabalho sério, um trabalho que não visa apontar dedo pra ninguém, visa, tão somente, colher provas para que o MPE tenha tranqüilidade para fazer denúncias e a Justiça para julgar", disse Sá Cavalcante.

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