'Fiquei feliz por comer arroz com feijão e cuscuz', diz Neguinho, o último exilado a voltar ao Brasil

André Naddeo
Do UOL Notícias
No Rio de Janeiro

Há pouco mais de um mês ele passa por um processo de readaptação. "Olha só essa praia", diz, em pleno Arpoador, Ipanema, zona sul do Rio de Janeiro. "Quer o número do meu 'mobile' caso ainda reste alguma dúvida"?, pergunta ao final da entrevista, esquecendo que por aqui o famoso aparelho telefônico atende pelo nome de celular.

Veja o depoimento de Neguinho

Antônio Geraldo Costa ("Não é 'da Costa' como todo mundo está falando, hein!"), o Neguinho, esbanja saúde aos 75 anos, mas o fato de ter vivido mais da metade de sua vida fora do Brasil, ainda pesa nas costas do ex-marinheiro, o último dos exilados pela ditadura militar a regressar ao país após a anistia, concedida há exatos 30 anos - a lei foi publicada em 28 de agosto de 1979.

Neguinho diz que pretende voltar a participar da vida política do país. "Vou militar politicamente, mas por qual partido eu não sei ainda. Quero ajudar na medida que eu puder. Não tenho pretensão de me candidatar a nada, mas vou participar da política."

Depois dos anos no exílio, ele afirma que está feliz por falar português - um português que, também por conta de um leve sotaque, revela os quase 40 anos distante do Brasil. "Você não sabe como estou feliz de comer arroz com feijão, cuscuz e falar português de novo. Mas ao mesmo tempo fico triste de ver essas pessoas na rua. Para mim aumentou essa miséria", conta ele, também conhecido pelo apelido de Tigre. "Meus companheiros da ALN [Aliança Libertadora Nacional] diziam que eu tinha pensamento rápido, agia rápido em certas ocasiões, como um tigre". "O Neguinho é porque um companheiro de cela era um 'negão'. E eu, baixinho, virei o Neguinho", completa.

Preso entre setembro e dezembro de 1964, Neguinho viveu clandestinidade até a morte de Carlos Marighella, líder da ALN, numa emboscada em São Paulo. Em 1970, deixou o país pela fronteira com o Uruguai e a acabou chegando à Suécia. Lá encontrou amigos que também foram exilados, como o atual deputado federal Fernando Gabeira. Após a anistia, em 1979, no entanto, permaneceu no exterior.

Só em 21 de julho de 2009 Neguinho reingressou oficialmente no Brasil. "Veja bem, eu não sou nenhum valentão. Mas não tive medo, não. Foi receio mesmo. Fiquei com as minhas dúvidas, já que para mim foi uma anistia negociada", explica, em entrevista exclusiva ao UOL Notícias. Neguinho tinha dúvida acerca de como andava o processo democrático brasileiro. "O que eu passei na tortura ainda estava à flor da pele. E ainda tinha o problema com a minha outra identidade."

Para fugir do país, Neguinho obteve uma certidão de nascimento falsa. Virou Carlos Juarez de Melo. Com este nome obteve passaporte e documentos novos. Entre o Uruguai e a Suécia, passou por Argentina e Chile. Na Suécia, Carlos Juarez de Melo recebeu cidadania, trabalhou como cozinheiro, entregador de jornal, enfermeiro, entre outras profissões, casou e teve dois filhos.

"Em 2005 eu estive no país [Brasil] de forma clandestina", conta. Entrou e saiu com documentos falsos. "Os companheiros daqui me ajudaram com a nova documentação e pedi a anistia", explica.

"Mas tinha um carimbo diferente no meu passaporte. Pensei que a Polícia Federal fosse me chamar para depor", diz sobre uma observação no documento, que havia sido emitido via despacho do Ministério das Relações Exteriores.

A vontade de voltar ao Brasil, no entanto, o atormentava. Resolveu procurar as autoridades suecas e desfez toda a confusão envolvendo o seu nome. "Quando eu atravessei a fronteira com o Uruguai eu fiz uma promessa: 'Um dia eu volto'. Levou décadas, mas cá estou".

Clandestino
Neguinho nasceu em Alagoas em 1934, filho de camponeses. Ingressou na Marinha, mudou-se para o Rio de Janeiro e foi vice-presidente da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais, onde consolidou seu lado político na briga por melhores condições para a sua classe. "Marinheiro não podia nem votar naquela época!", lembra. Considerado um "agitador comunista", segundo ele, foi preso e torturado no Cenimar (Centro de Informações da Marinha).

Na ditadura, acabou optando pela clandestinidade. Ingressou na luta armada. Sobre Carlos Marighella, da ALN, afirma: "Foi um patriota acima de tudo". Neguinho participou do famoso resgate de presos políticos na prisão Lemos de Brito, no Rio. "Tínhamos programado a ação para três minutos. Em cinco, saíram todos pela porta da frente. Era uma questão de honra para a gente todos saírem pela porta da frente. Os donos do poder ficaram loucos e estarrecidos. Foi uma demonstração de força."

Leia abaixo os principais trechos da entrevista de Antônio Geraldo Costa ao UOL Notícias.

VIDA DE CLANDESTINO
"É uma vida muito dura. Tem que ter estrutura psíquica, consciência e convicção ideológica. E disposição, saber porque você está lutando. Eu já entrei para a Marinha com essa consciência. Não foi só eu, naturalmente, foi um grupo de jovens. Pode se dizer que a nação inteira, mais da metade da população brasileira resistiu ao golpe de uma maneira ou de outra. Uns de uma maneira silenciosa, outro não".

BANCOS
"Nós das organizações armadas revolucionárias jamais atacamos bancos, roubamos bancos. A gente desapropriava. Nós cobrávamos impostos revolucionários para financiar a nossa luta. Essa é a palavra certa. Eu nunca assaltei banco e nenhuma organização jamais [fez isso]. Quem assalta banco é bandido. Essa que é a verdade".

MARIGHELA
"Carlos Marighela foi um patriota. Antes de tudo, antes de qualquer coisa. Ele nunca negou que era comunista. Eu não era do Partido Comunista. Eu o conheci antes do golpe. O Marighela era um filho do povo, uma pessoa simples, um patriota que lutava também por um Brasil mais livre e democrático, por uma sociedade mais justa. É essa a lembrança que eu tenho do Carlos Marighela"

FUGA
"Eu particularmente não queria sair do Brasil nem da America Latina. Nós fomos forçados a sair do país. Nós não fugimos. Nós percebemos isso [que precisávamos fugir] quando as organizações revolucionárias e a ALN estavam sendo destruídas. Porque eles, golpistas, assaltaram o Estado e tinha todo o aparato na mão, o dinheiro todo. Eles é que assaltaram, não nós. Usurparam o poder através da arma.

VIDA NA SUÉCIA
"Foi um choque cultural. Problema lingüístico, de adaptação. Quando você compara a sociedade não deixou de ser um choque para nós chegar numa sociedade livre, democrática, fomos recebidos de braços abertos. Por exemplo, eu vi muitas vezes o primeiro ministro andar prá lá e pra cá nas ruas. Isso cria um choque para quem vivia numa sociedade oprimida."

TRABALHO
"Meu primeiro trabalho foi entregar jornais. De madrugada, frio, com gelo na rua, mas isso era uma maneira de eu me integrar no mercado de trabalho, de estar ocupado, fazendo coisas. Quando eu recebi meu primeiro salário deu uma identificação. Esse dinheiro era do meu suor. Só que lá ninguém sua por causa do frio... Fiz cursos e mais cursos de técnico de enfermagem, trabalhei em creche, fábrica, tudo, me especializando em determinados ramos. "

FELIZ POR VOLTAR
"Estou felicíssimo. Estou feliz de estar no Brasil, feliz de falar português, estou revivendo, tomando pé da situação política... Vou militar politicamente, mas por qual partido eu não sei ainda. Quero ajudar na medida que eu puder. Não tenho pretensão de me candidatar a nada, mas vou participar da política. Estou feliz de encontrar meus amigos, feliz de comer feijão com arroz, cuscuz, ouvir os pássaros cantando, ver o mar, essas coisas todas. Estou feliz de falar com você. Mas estou chocado ao mesmo tempo com a miséria."

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