Esquema de fraude no RS desviava 24% da renda do Detran para corrupção

Flávio Ilha
Especial para o UOL Notícias
Em Porto Alegre

Um depoimento em vídeo do ex-presidente do Detran gaúcho, Sérgio Buchmann, a integrantes do Ministério Público (MPF) e da Polícia Federal (PF) que investigam denúncias de corrupção no governo estadual revela como era feita a partilha dos recursos obtidos junto à Fatec, uma das fundações que realizava as provas teóricas para exames do motorista no Rio Grande do Sul entre 2003 e 2007. O vídeo foi revelado na sessão desta segunda-feira (21) da CPI da Corrupção na Assembleia gaúcha. Escute abaixo o áudio do vídeo divulgado durante a sessão:



O depoimento de Buchmann era conhecido pelos deputados, mas o teor das informações nunca havia sido revelado. Segundo o ex-presidente do Detran revelou no dia 17 de julho, o grupo acusado de desviar R$ 44 milhões dos cofres públicos dividia 24% de toda a receita do órgão vinculada aos exames de motorista: 12% iam diretamente para o principal operador do esquema, o empresário e lobista Lair Ferst, e os outros 12% eram divididos entre os demais integrantes do grupo.

As informações teriam sido passadas a ele pelo secretário-adjunto de Administração, Genilton Macedo Ribeiro, em julho deste ano. O secretário negou que tivesse repassado as informações.

Buchmann presidiu o Detran depois que a PF e o Ministério Público já haviam iniciado as investigações contra o grupo. Ele ficou menos de três meses no cargo e foi demitido justamente em função do depoimento que deu à Polícia Federal.

Segundo ele diz no depoimento, Ribeiro lhe telefonou e marcou uma reunião. Frente a frente, o secretário-adjunto teria pedido para Buchmann "se calar" em relação a declarações que vinha oferecendo sobre as denúncias de fraude no Detran.

Além disso, Buchmann revelou que foi informado sobre a participação da governadora Yeda Crusius (PSDB) no esquema e de que o então marido da governadora, Carlos Crusius, redistribuiu o esquema de partilha, deixando 1% para Lair e se apropriando dos 11% restantes.

A sessão da CPI, terceira sem a presença dos deputados da base governista, também apresentou um trecho de áudio em que o ex-presidente do Detran Flávio Vaz Netto ameaça voltar à CPI do Detran, ocorrida em 2007, para "delatar Délson Marini [ex-secretário de governo de Yeda] e a governadora". A conversa é com Fabiana, segundo a PF uma das inúmeras namoradas de Vaz Netto que aparecem em escutas autorizadas pela Justiça.



"Calma, gatinho, calma. Respira fundo antes", diz Fabiana. "Não, tou apanhando muito", retruca Flávio Vaz Netto. "Eu vou lá, eu vou lá dizer do que se trata", ameaça Vaz Netto, que já havia deposto na CPI e também na Polícia Federal dentro do inquérito da Operação Rodin.

Ele diz também que vai negociar seu depoimento com o PT, "já que não posso contar com os meus. O ex-presidente do Detran se refere a seus ex-aliados como "corruptos", "cretinos" e "filhos da puta". "Tu sabe que essa gente é louca. Eles querem o teu sangue de canudinho", adverte Fabiana.

Outros trechos apresentados na CPI revelam uma reunião de deputado federal José Otávio Germano (PP), supostamente com a governadora Yeda Crusius, para resolver problemas na operação do esquema. Germano também é réu na ação de improbidade administrativa do Ministério Público Federal.

"Só pra te avisar que saímos da governadora agora, eu o José Otávio", diz um interlocutor ao então presidente do Detran, Antonio Dorneu Maciel. O homem, segundo a Polícia Federal, é o deputado estadual Marco Peixoto (PP). "Foi bom?", pergunta Maciel. "Foi nota 11", informa. A reunião ocorreu no dia 29 de outubro de 2007, poucos dias antes de ser deflagrada a Operação Rodin.

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